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porto velho, sábado 10 de janeiro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - Promessas de Natal que não sobrevivem a janeiro
Arimar Souza de Sá
A cada fim de ano, entre um brinde e outro na roda de amigos, alguém sempre anuncia em tom solene: “Minha vida, no ano que vem, será outra!” É o ritual das promessas embaladas pela luz piscante do Natal. Juras de transformação profunda, revisões existenciais e discursos inflamados sobre ‘ressignificar’ o ódio — esse desamor corrosivo que destrói valores, apodrece costumes e envenena o coração como toxina silenciosa.
É que no calor das festas, os corações amolecem. Promete-se reciclar a alma, conjugar até a exaustão os verbos unir e amar, rever erros antigos, sepultar ressentimentos, abrir espaço para o abraço, o beijo, o perdão e a fé. Promete-se também cuidar do corpo: dieta a partir de janeiro, menos exagero, menos chope, a sonhada perda da barriga acumulada entre reuniões, churrascos e desculpas esfarrapadas. Jura-se ainda separar um tempo para cuidar de si — promessa comum de quem, como eu, vive dizendo que a correria do dia a dia não deixa.
As festas natalinas são sempre assim: têm esse dom fantástico de transformar até os mais endurecidos em atletas da esperança. Academia marcada, alimentação regrada, quilômetros de caminhadas imaginárias. Tudo muito bem planejado, pena que entre chope, pernil e panetones. O ano seguinte nasce, nos discursos, mais leve, mais saudável, mais equilibrado...
No entanto, basta janeiro abrir os olhos para que a preguiça e a soberba despertem primeiro — e a rotina venha logo atrás, atropelando os planos. As promessas escorrem pelo ralo como água de pia mal fechada. A dieta fica para outra segunda-feira, o autocuidado para quando sobrar tempo, a redução do chope para depois do próximo encontro. A barriga continua ali, estufada, testemunha silenciosa das resoluções sempre adiadas. O Natal já foi, ninguém varre o próprio quintal; o joio fica, prolifera e contamina o trigo da mente.
Volta tudo como “dantes no quartel de Abrantes”. A arrogância permanece, a generosidade segue em falta, a ética vai para as cucuias e quase ninguém se livra do coração embotado do ano passado, inclinado ao mal e à inveja — essa praga disfarçada de admiração. Esquecemos que o cuidado começa no corpo e termina na alma, e que só existe inveja aceitável quando ela nos impulsiona a desejar o bem e praticá-lo.
O ódio, quando fermenta, é sempre pernicioso. Quando se volta contra os próprios irmãos, deixamos de ser cidadãos desta Pátria para nos tornarmos visitantes do absurdo. O legado não é de esperança, mas de irracionalidade, suor, lágrimas e sangue. Viramos bagaço humano, moído pelo rancor — e também pela negligência conosco mesmos.
É preciso cumprir o que se promete. Sanitizar essas vozes sinistras do inconsciente coletivo. Crestá-las com o calor que ainda resta na condição humana. Expulsar esses monstros ignóbeis, de discursos fáceis, que campeiam no imaginário empobrecido e só produzem medo, ódio e divisão.
Que se deixe de lado essa liturgia estéril de esquerda contra direita, esse culto ao ego e à verborragia ideológica que trinca ainda mais o espelho já rachado do País. Enquanto se discute rótulo, o Brasil segue carente de políticas públicas capazes de encurtar o abismo entre pobres e ricos, abundância e escassez.
Misturam-se religião, cor da pele, fome, economia e política partidária em um caldo indigesto, enquanto cada um enxerga o mundo apenas pelas lentes das próprias circunstâncias. Nesse processo, o interesse coletivo escorre, cruelmente, pelo ralo da história dessas gestões — antigas e atuais.
Que cada um, então, faça sua própria dieta — do corpo e da alma. Que cumpra as promessas feitas sob as luzes do Natal.
Que reduza o chope, perca a barriga, ganhe fôlego e também humanidade.
Que encontre tempo para cuidar de si sem desculpas. Que cultive um coração mais justo, mais honesto.
E que o mal, finalmente seja sepultado, não em discursos de réveillon, mas em atitudes cotidianas em prol do bem-estar geral.
Sendo assim, Cruz-Credo, eu próprio já decidi: vou me redimir. A dieta começa na próxima segunda-feira — como manda a tradição nacional.
E vocês?
Cuidemos, então… enquanto dá.
Amém!