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    porto velho, sábado 14 de março de 2026

Crônica de Fim de Semana - A fadiga moral da República e a demissão de Felipe Luís

Enquanto esse povo luta para atravessar o mês, outra realidade se move nos corredores da República — e ali há fartura, festa orgia com p. vinda de fora...


Redação

Publicada em: 14/03/2026 10:03:31 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA

A fadiga moral da República e a demissão do técnico Felipe Luís

Arimar Souza de Sá

O Brasil adoeceu faz tempo — e a doença já não é apenas econômica ou institucional. É moral. Espalha-se silenciosa pelo corpo da nação e pesa, sobretudo, sobre os ombros de quem acorda antes do sol para defender o pão de cada dia.

Antes mesmo de o dia nascer, em Porto Velho e em tantas cidades do país, já há gente caminhando. O café ainda ferve no fogão, o céu permanece escuro e silencioso, e homens e mulheres entram em ônibus lotados quando a cidade mal abriu os olhos. Não é escolha; é destino. Trabalhar para viver, pagar contas, sustentar filhos, manter de pé uma dignidade que o país insiste em testar todos os dias.

São mãos calejadas que carregam nas costas o peso de uma nação inteira, sustentada pelos impostos que essa gente recolhe. No fim do mês, porém, o salário já nasce derrotado. Antes mesmo de o calendário alcançar o dia trinta, ele desaparece. A conta da luz chegou, o mercado subiu, o remédio da criança não pode esperar. O dinheiro escorre entre os dedos como água. E o camarada se desespera.

Quando a doença chega, a dureza da vida se aprofunda ainda mais. Quem depende do sistema público conhece o ritual da humilhação. A madrugada vira fila. O corpo febril vira espera. O cidadão vira número. Sai de casa no escuro para tentar uma ficha, encosta numa parede fria e aguarda, aguarda na fila. Quando finalmente entra na sala do médico, carrega duas dores — a do corpo e a da esperança — e muitas vezes sai com uma terceira: a da indiferença. Não é apenas falta de remédio; é falta de respeito.

É desse cotidiano que nasce um cansaço que não aparece em exames. Não é febre, não é virose, não é dor localizada. É exaustão moral. Uma fadiga que se acumula no peito de quem vive do suor do próprio rosto e percebe que a balança da vida anda torta, sempre pendendo para o lado mais viciado pela força do poder.

Enquanto esse povo luta para atravessar o mês, outra realidade se move nos corredores da República — e ali há fartura, festa orgia com p. vinda de fora. Escândalos se empilham como entulho moral. O caso do Banco Master escancarou uma paisagem de podridão que já não cabe debaixo do tapete. Cifras obscenas, relatos de festas, degustações de uísque com figuras de alto coturno da República e conversas onde dinheiro e poder se misturam sem pudor revelam um mundo paralelo — um Brasil de bastidores que parece desconhecer os limites morais que o trabalhador conhece desde cedinho.

A carniça fede tanto que já não tenta se esconder do urubu. Está exposta. E o cidadão que acorda de madrugada para pegar ônibus olha para tudo isso e se pergunta, silenciosamente: a quem recorrer?

Enquanto o povo aperta o cinto, nos palácios a luz permanece acesa para iluminar o mercadejo do dinheiro público. Os gabinetes seguem refrigerados e as decisões continuam sendo tomadas longe da vida real.

O mais inquietante, porém, é quando a confiança nas instituições começa a rachar. Bastidores expostos, conversas reveladas, comportamentos que colidem com a liturgia de quem deveria guardar a Constituição como quem guarda um altar. Há diálogos que parecem mais roteiro de submundo do que conversa de autoridades da mais alta hierarquia.

Quando a Justiça começa a caminhar pelos mesmos corredores onde transitam os interesses que deveria vigiar, o chão da República fica escorregadio e balança. E o povo — que já não é mais besta — percebe.

Talvez por isso o cansaço seja tão profundo. Não é apenas a dureza da vida. É a sensação de injustiça. É perceber que o esforço de quem constrói o país com mãos calejadas raramente encontra eco nos salões do poder.

E é nesse ponto que a própria realidade oferece uma metáfora quase perfeita.

Veja o caso do técnico Felipe Luís.

Disciplina, estudo, treino, cobrança. Trabalho sério. Resultado em campo. Uma vitória esmagadora: oito a zero. O time vence, a torcida comemora, o mérito parece evidente. Em qualquer lógica razoável, o trabalho estaria consagrado.

Mas o futebol — como o Brasil — também tem seus bastidores.

Na madrugada silenciosa, Felipe Luís é chamado para uma sala fria. Não há torcida, não há aplauso, não há sequer o direito de explicação. A decisão já estava tomada. Demitido.

Sem explicação. Sem respeito. Sem a dignidade que a vitória deveria proporcionar à história do ex-jogador e agora ex-técnico merecia.

E é aí que as duas histórias se encontram.

De um lado, o trabalhador brasileiro que acorda cedo, cumpre seu papel e sustenta o país com esforço diário. De outro, um profissional que, guardada o poderio financeiro que detém em relação ao trabalhador de mão calejada, também entrega resultado e mesmo assim é dispensado na calada da noite.

O paralelo é incômodo — e profundamente brasileiro.

Aqui, muitas vezes, quem faz o certo paga a conta. Quem entrega resultado sai pela porta dos fundos. E, curiosamente, os que fazem errado continuam sentados nas cadeiras do poder, apesar de seus delitos escabrosos.

Talvez seja essa a verdadeira fadiga moral da República.

Um país onde milhões acordam cedo, trabalham, produzem e sustentam a máquina — mas as decisões continuam sendo tomadas longe do campo e nunca em favor deles.

É que, no país do faz-de-contas, é sempre assim: quem trabalha, quem luta, quem acorda cedo e corre atrás da bola quase nunca escolhe o placar. Ainda assim, é sempre quem acaba pagando a conta da farra e das ousadias discrepantes.

Mas toda conta um dia vence. E onde está sua indignação?

É tempo de reflexão.

Amém!.

O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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