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porto velho, quinta-feira 12 de março de 2026

PORTO VELHO – RO – Em meio aos inúmeros desafios que Rondônia enfrenta — da precariedade de serviços públicos às dificuldades de infraestrutura e desenvolvimento, saúde, educação, segurança e emprego — um fenômeno curioso se consolida dentro da Assembleia Legislativa: o mandato cerimonial do deputado estadual Delegado Lucas Torres (PP).
Enquanto o Parlamento estadual deveria concentrar energia em debates estruturais e propostas capazes de enfrentar esses grandes problemas do Estado, o parlamentar tem transformado boa parte de seu mandato em uma espécie de agenda permanente de homenagens. Praticamente todas as semanas a Assembleia Legislativa é palco de mais uma sessão solene dedicada à entrega de medalhas, moções e certificados de reconhecimento.

Na mais recente delas, realizada na sexta-feira (6), a Assembleia voltou a abrir suas portas para mais um evento desse tipo. A solenidade foi proposta e presidida pelo próprio Delegado Lucas, que reuniu convidados para celebrar personalidades apontadas como responsáveis por contribuições ao desenvolvimento social, profissional e esportivo de Rondônia.
A prática, entretanto, sem demérito aos agraciados, está longe de ser episódica. Pelo contrário. Levantamentos informais dentro da própria Casa apontam que o deputado já ultrapassou a marca de uma centena de homenagens ao longo do mandato, contemplando praticamente todos os segmentos da sociedade deixando zerado o estoque de certificados no almoxarifado da Casa de Leis.
Eclético, a lista de agraciados do parlamentar é extensa e heterogênea e ele nem se faz de rogado. Vai de autoridades internacionais — como o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — até ambulantes de feiras livres. Entre os homenageados também aparecem oficiais de justiça, agentes de seguros, pastores, empresários, produtores rurais, policiais militares e civis, médicos, defensores públicos, promotores de justiça, técnicos, atletas, sindicalistas, dirigentes empresariais, secretários de Estado, representantes de entidades médicas, academias de artes marciais e inúmeras outras categorias..
O gesto de reconhecimento público, em si, não constitui problema. O Parlamento, historicamente, também cumpre essa função simbólica de registrar méritos individuais e coletivos. O que chama atenção, contudo, é a desproporção entre o volume de homenagens e a escassez de iniciativas legislativas de maior impacto político ou social atribuídas ao parlamentar.
Nos corredores da própria Assembleia, a crítica já circula com certa ironia: enquanto alguns deputados se dedicam à formulação de projetos estruturantes ou ao enfrentamento de pautas complexas, o mandato de Delegado Lucas parece concentrar-se na produção de aplausos oficiais.
Preocupado com críticas recorrentes, durante a solenidade mais recente, o deputado voltou a justificar a prática. Segundo ele, reconhecer o esforço de cidadãos e instituições é uma forma de valorizar quem contribui para o desenvolvimento do Estado.
“Essas homenagens representam o reconhecimento do povo de Rondônia a cidadãos que, com dedicação, trabalho e compromisso, ajudam a fortalecer nossa sociedade, seja no empreendedorismo, na atuação profissional ou no incentivo ao esporte e à formação de jovens”, declarou.
A fala resume a narrativa adotada pelo parlamentar para sustentar a sucessão de sessões solenes. E, segundo a maledicência, ele está aberto a acatar sugestões novas.
Ainda assim, entre analistas políticos e observadores da cena estadual, cresce a percepção de que o excesso de homenagens acaba revelando mais do que uma agenda de reconhecimento: expõe a falta de protagonismo em debates estratégicos que deveriam ocupar o centro da atuação parlamentar.
Em um estado que discute temas sensíveis como infraestrutura rodoviária, desenvolvimento agroindustrial, logística, saúde pública e segurança, espera-se que a tribuna da Assembleia seja palco de propostas e confrontos de ideias — não apenas de cerimônias protocolares.
Afinal, mandato parlamentar não é apenas espaço para distribuir medalhas. É, sobretudo, lugar para construir caminhos. Quando as ideias rareiam, restam as placas de homenagem. E elas, por si só, não resolvem os problemas de Rondônia.

