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    porto velho, sábado 21 de março de 2026

Amir Lando, o homem que ajudou a escrever Rondônia com as próprias mãos

Mas Amir nunca foi apenas cargo. Há nele o traço raro dos que pensam antes de falar. Um homem que cita filósofos sem pedantismo e trata a política como exercício moral...


Redação

Publicada em: 21/03/2026 10:36:38 - Atualizado

Crônica de Fim de Semana

Amir Lando, o homem que ajudou a escrever Rondônia com as próprias mãos

Arimar Souza de Sá

Há biografias que não cabem em cargos — transbordam em território. Há homens que não apenas passam pela história, mas se confundem com ela. Amir Lando é dessa linhagem.

Gaúcho de origem, chegou a Rondônia nos anos 1970 pelas trilhas do Projeto Rondon. Para muitos, uma experiência passageira. Para ele, um chamado. Quando pisou aqui, não encontrou cidades — encontrou promessa. Era um estado ainda em rascunho, escrito a machado, lama e coragem.

No INCRA, não conheceu gabinete. Conheceu estrada ruim, febre e incerteza. Separar terra pública de privada, naquele tempo, era mais do que tarefa técnica — era fundar destino. Vicinais abertas na foice, caminhões atolados até a esperança, homens e mulheres carregando nas costas o pouco que tinham e o muito que sonhavam.

Amir caminhou por esse mapa ainda em branco como quem desenha futuro. Viu chegar brasileiros de todos os cantos, trazendo café, sal, açúcar — e uma coragem que não cabia em mala.

“Aquele povo era heroico”, diz. E não é retórica. É testemunho.

Mas a Amazônia não concede nada sem cobrar. Veio a malária, vieram as perdas, veio o silêncio dos que ficaram pelo caminho. Rondônia não nasceu apenas do suor — nasceu também do sacrifício. Amir ficou.

Defendeu colonos, lutou pela regularização fundiária, ajudou a transformar posse em direito, esperança em documento. Para os colonos o título da terra não era papel — era raiz. “Essa terra é minha”, diziam, com os olhos molhados. E ali começava uma vida.

Décadas depois, o jovem que enfrentou a lama se tornaria uma das vozes mais respeitadas do estado. Deputado estadual, federal, senador da República, relator do impeachment de Fernando Collor de Mello, ministro da Previdência — o primeiro de Rondônia a ocupar tal posto. Um marco que não foi apenas pessoal, mas simbólico: a periferia da Amazônia passando a falar no centro do poder.

Mas Amir nunca foi apenas cargo. Há nele o traço raro dos que pensam antes de falar. Um homem que cita filósofos sem pedantismo e trata a política como exercício moral, não como comércio de ocasião.

A vida, porém, cobra até dos mais firmes. Uma hemorragia intestinal o levou à UTI, à pausa forçada, ao silêncio. Mas ele voltou. E voltou com uma frase que não soa como slogan — soa como legado: “Quero ser um testemunho no canto do cisne da minha existência.”

Não é campanha. É consciência. E quando fala de política, não suaviza:

“Crime é crime. E crime se trata com cadeia.” Sem rodeios. Sem verniz.

Sobre CPIs bate na testa com frases de improviso: “Não podem ser espetáculo. Nem palco do ridículo.”

Quando fala de emendas parlamentares lama a alma de muita gente: “Esse mercado persa precisa acabar.”

Frases assim não nascem de marqueteiros. Nascem de quem atravessou a política sem se vender a ela.

Aos 81 anos, Amir olha Rondônia como quem relembra um livro que ajudou a escrever. Viu a BR-364 cortar a floresta como uma artéria de esperança. Viu trilhas virarem cidades, viu o improviso virar Estado.

Por isso, sua eventual volta ao Senado não surpreende — apenas encaixa. Há homens que pertencem a tribunas onde a palavra pesa mais que o grito. Amir é dessa estirpe.

Sobreviveu à floresta, às febres, aos conflitos da terra e às tempestades da política. E ainda carrega no olhar a chama discreta dos pioneiros. Algumas vidas deixam rastros. Outras deixam fundamentos. Amir Lando não apenas viveu Rondônia — ajudou a erguê-la.

Se na política de Rondônia ainda houver espaço para homens de consciência, cultura e densidade, talvez o destino já esteja escrito.

O Senado sabe quem ele é. O país também.

E Rondônia — sobretudo — não esquece o que ele fez.

Que assim seja!

O autor é jornaista, advogado e apresentador do Programa A VOZ O POVO, da Rádio Ciari, FM, 103,1.


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