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    porto velho, sábado 28 de março de 2026

Crônica de Fim de Semana - Rondônia entre a memória e o voto de outubro

A história recente é implacável: entre o discurso e a prática há um abismo — e é nele que o povo costuma ser empurrado...


Redação

Publicada em: 27/03/2026 17:04:53 - Atualizado

Crônica de Fim de Semana

Rondônia entre a memória e o voto de outubro

Arimar Souza de Sá

Rondônia não nasceu pronta, tampouco com o “bumbum para a lua”. Foi erguida à força — com braços firmes, coragem e, muitas vezes, dor. Terra de nativos e de migrantes que chegaram sem mapa, mas com um destino cravado no peito: ser feliz. Gente que enfrentou a selva, a fome, a malária, o abandono e a própria sorte para fincar aqui não apenas casas, mas a própria história.

A construção foi dura. Tombaram árvores centenárias em nome de um progresso que se dizia inevitável. Mogno, cedro, castanheira, seringueira, maracatiara — gigantes derrubados ao som do machado, da motosserra e do fogo. No rastro, silenciaram-se garças, araras, mutuns, papagaios, curicas. A floresta calou. E ainda hoje, no verão, o céu escurece não pela noite, mas pela fumaça. A natureza cobra — e cobra caro.

As primeiras riquezas vieram do que a terra oferecia sem pedir licença: ouro, borracha, castanha, poaia, caucho. Nordestinos deram com os costados por estas bandas, em levas, trazendo pouco além da resistência. Faca na mão, poronga na cabeça, coragem no limite. Tornaram-se soldados da borracha — heróis sem monumento, sobreviventes de uma epopeia silenciosa.

Sangraram árvores para viver. Depois, outros vieram, atendendo ao chamado do inesquecível Teixeirão, e arrancaram tudo pela raiz, abrindo espaço para o pasto, o café, o cacau e a soja. A floresta, antes sustento, virou obstáculo. Em poucas décadas, Rondônia foi explorada a céu aberto: madeira, minério, ouro. Os rios feridos, a fauna dispersa. O tempo não perdoa — mas a história registra.

Nem o rio Madeira escapou. As usinas de Santo Antônio e Jirau trouxeram promessas grandiosas, mas deixaram cicatrizes profundas: impactos ambientais, alterações no regime das águas, mortandade de peixes, pressão urbana e, como ironia cruel, uma das energias mais caras do Brasil. Progresso que pesa — e pesa no bolso, sob o olhar complacente das autoridades de plantão.

E, ainda assim, Rondônia resiste.

Na sequência, um novo ciclo ensaiou seus primeiros passos e prosperou. O ensino superior se expandiu, ocupou espaços, multiplicou diplomas — nem sempre acompanhados de qualidade. Forma-se gente de qualquer jeito, mas não se forma futuro com excelência. Enquanto isso, os velhos problemas seguem firmes: saúde fragilizada, educação cambaleante, violência crescente. Porto Velho ainda carece do essencial: saneamento, estrutura, dignidade urbana. O básico virou luxo.

É nesse cenário que se aproxima mais uma eleição. Os pré-candidatos já circulam, ainda que de forma velada. Apertam mãos, entram em casas, distribuem promessas com a facilidade de quem não paga a conta depois. Política sem compromisso é estelionato eleitoral — e disso Rondônia já está farta.

A história recente é implacável: entre o discurso e a prática há um abismo — e é nele que o povo costuma ser empurrado. A bancada federal, em grande parte, acomodou-se no rodapé do poder. Salvo exceções, como a deputada Sílvia Cristina, o desempenho é insuficiente para um estado que precisa falar mais alto em Brasília e não se contentar com o “baixo clero”.

Mas algo mudou. A sociedade acordou. Não é mais plateia — é fiscal. Com informação na mão e voz nas redes, o cidadão deixou de assistir e passou a cobrar. E quando o povo vigia, o poder treme — e os oportunistas recuam. Por isso, nesta eleição de outubro, Rondônia exige mais que promessas. Exige postura. Chega de improviso. Chega de governo sem rumo. Chega de tratar o Estado como propriedade privada. O poder não é prêmio — é responsabilidade. E quem não entende isso não merece exercê-lo.

É hora de virar a chave. Trocar a lógica da destruição pela construção. Planejar, executar, prestar contas. Valorizar a floresta em pé, diversificar a economia, investir em educação de verdade e garantir segurança que funcione. Desenvolvimento e agronegócio não são discurso — são entrega.

Rondônia não pede milagres. Pede vergonha na cara, competência e compromisso. Que quem chegar ao poder entenda: governar não é ocupar cadeira, é sustentar dever. O Estado não é terra de saque — é casa coletiva. E casa se cuida, porque esta terra já sangrou demais.

Agora, munido de informação, o povo observa — e não pisca. Memória afiada. Voto carregado. Quem enganou não volta mais. Que venham, então, os bem-intencionados. Olho vivo — e dedo firme na urna.

É tempo de reflexão.

Amém!

O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A Voz do Povo, da Rádio Caiari FM. 103,1.


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