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porto velho, sexta-feira 1 de maio de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
BR-364 – A rodovia da morte com pedágio caro, cobrado antes, como bilheteria de cinema
*Arimar Souza de Sá
Toda sexta-feira, repito o mesmo ritual: sento, escrevo a Crônica de Fim de Semana e tento ‘organizar’ o mundo em palavras, do meu jeito. Hoje, porém, não foi a falta de assunto que me deteve, mas um cansaço antigo de repetir o óbvio: Há dias em que a realidade em Rondônia dispensa adornos — chega crua, pesada, pedindo apenas que alguém a diga em voz alta. Pois digo.
Sou de Rondônia de outros tempos. De uma época em que Porto Velho e Guajará-Mirim eram ilhas de resistência na vastidão amazônica. Vivíamos da borracha arrancada no braço, da Hevea brasiliensis sangrada na madrugada, no meio da mata, da farinha que vinha em paneiros pelos rios, dos barcos pequenos que subiam e desciam o Madeira levando mais do que mantimentos — levavam esperança. Era um tempo de pouco, quase nada. Mas havia dignidade. E dignidade não se mede, não se negocia, não se tarifa.
Então veio o clarim de Jorge Teixeira. Veio o asfaltamento da BR-364. Veio o rasgo no mapa rondoniense — e, com ele, o futuro. A estrada não apenas cortou a floresta; abriu veias por onde passou a pulsar a vida de um estado inteiro. Ariquemes, Jaru, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná, Presidente Médici, Cacoal, Pimenta Bueno e Vilhena — cada cidade, um capítulo de suor; cada quilômetro, um pacto com o amanhã. Rondônia deixou de ser margem para se tornar eixo. Mas o tempo, implacável, seguiu...
Hoje, o que se vê é o avesso dessa história construída com suor e sangue. A BR-364, agora privatizada, tornou-se um espelho rachado: reflete abandono e multiplica tragédias. Um corredor onde vidas se perdem no asfalto ferido, quase todos os dias, enquanto carretas — verdadeiras formigas de aço — levam embora a riqueza que aqui nasce. Vai tudo. Fica o risco. Ficam os rastros e as mortes. E, como se não bastasse, fica a conta — salgada — apresentada ao próprio dono da estrada: o povo.
A conta da chamada “Nova BR-364” chega como chegam as decisões tomadas de longe: frias, cegas e surdas. O pedágio começa em R$ 5,40, em Candeias do Jamari; passa por R$ 19,30, em Ariquemes; R$ 25,00, em Ouro Preto do Oeste; R$ 12,50, em Presidente Médici; R$ 10,20, em Pimenta Bueno; salta para R$ 35,40 no segundo trecho do mesmo município; e alcança R$ 37,00, em Cujubim. Não é uma estrada — é um colar de pedágios apertando o pescoço de quem precisa trabalhar. Chamam de “nova”. Nova onde? No nome. Porque, para o rondoniense, o que se renova é apenas o valor da cobrança. A estrada segue a mesma cicatriz aberta no mapa — só que agora tarifada.
E o mais grave não é pagar. É pagar antes de receber. É comprar o ingresso de um espetáculo que não existe. Um teatro sem palco, um filme sem tela — e, ainda assim, cobram aplauso na mídia.
Enquanto isso, a bancada federal de Rondônia — deputados e senadores — escolheu o silêncio como estratégia e a omissão como método. Assistiu à entrega da BR como quem assiste à chuva cair: inevitável, distante, indiferente. Quando o dever era reagir, silenciou. Quando o momento exigia firmeza, encolheu. Não gritou, não enfrentou, não representou. Apequenou-se. E, quando o representante se apequena, quem cresce é o prejuízo — e quem paga é o povo.
Ora, a BR-364 não é apenas uma rodovia. É a artéria principal de Rondônia. É por ela que o estado respira, produz, existe. Sem ela em condições dignas, Rondônia perde vidas, não escoa, não cresce, não aparece. Vira rota cara e perigosa para quem produz e armadilha para quem vive e nela trafega.
E, ainda assim, com força e resiliência, o rondoniense segue. Sempre seguiu. Mas há um ponto em que resistência deixa de ser virtude e passa a ser exploração disfarçada de melhorias. E esse ponto já não está no horizonte — está diante de nós. Se a estrada que nos integrou agora nos cobra caro sem nos entregar, e se quem deveria defender o povo preferiu o conforto do silêncio, então o problema já não é apenas a BR.
É de quem deveria estar de pé e escolheu se curvar. E isso não se corrige com discurso tardio, “lives no Instagram”, nem com nota protocolar depois que o leite derramou. Corrige-se na urna. Sem esquecimento. Sem perdão político. Sem retorno.
Porque, quando o povo paga caro demais, chega uma hora em que a impaciência cobra de volta. E cobra alto. E vai cobrar nas eleições de outubro, se Deus quiser.
Olho vivo! Que paguem então os impostores!
É tempo de reflexão!
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari FM, 103,1.