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    porto velho, sexta-feira 8 de maio de 2026

Crônica de Fim de Semana - A naturalização da dor e o silêncio cúmplice de todos nós

O que se impõe agora é ação — concreta, coordenada e urgente. É hora de cobrar maior engajamento do governador Marcos Rocha, do prefeito Léo Moraes...


Redação

Publicada em: 08/05/2026 19:52:43 - Atualizado

Crônica de Fim de Semana

A naturalização da dor e o silêncio cúmplice de todos nós

*Arimar Souza de Sá

Porto Velho se move entre buzinas, calor e pressa. Mas, nas frestas dessa engrenagem ruidosa, existe uma cidade invisível, sobrevivendo à margem do nosso olhar, enquanto a capital pulsa soberba, acelerada e indiferente.

Nos cruzamentos da Calama com Rio Madeira, da Jorge Teixeira com Tiradentes, nas cercanias do Mercado Central e do KM 1, surgem figuras que já não pedem: resistem. Fazem malabarismos nos semáforos, vigiam carros, demarcam território com pedaços de papelão nos para-brisas por qualquer moeda ou, curvadas sobre latas de lixo, disputam restos com a dignidade possível àqueles que foram empurrados para o fim da fila da vida.

E nós — eu incluso — seguimos adiante. Olhamos sem ver. Vemos sem sentir. O cronista que se propõe a ser voz das dores coletivas também falha: permite que a miséria escorra pela retina como chuva no para-brisa de um carro fechado. É um pacto silencioso — e covarde — entre quem sofre e quem prefere não despertar.

Foi numa manhã de sábado, no Mercado do KM 1, que esta crônica deixou de ser ideia e virou incômodo. Um homem se aproximou, disse que me ouvia diariamente no rádio e pediu um trocado — havia “cuidado” do meu carro. Retribuí. Mas ele queria mais: precisava completar o valor do dízimo. E ali, naquele instante, tudo pareceu se encaixar. A fome. A fé transformada em mercadoria. E a engrenagem funcionando sem freios.

Porque é exatamente nesse terreno árido que prospera a indústria da esperança vendida. Multiplicam-se os comerciantes da salvação imediata, oferecendo atalhos para o céu — sem travessia, sem purgatório, sem prestação de contas — enquanto erguem templos, compram aviões e acumulam fortunas sobre o esqueleto social dos esquecidos.

Não há fiscalização. Não há limite. Há apenas o tilintar de moedas arrancadas de quem mal possui o que comer. A pobreza vira vitrine. Produto. Negócio.

E, no meio desse teatro humano, crianças e idosos deixam de ser gente para virar cenário. Amontoados nos vãos das ruas, nos guetos improvisados, disputando restos nas latas de lixo, tornam-se parte da paisagem — como se fossem apenas um detalhe urbano, e não vidas em ruínas.

São resíduos de um sistema que falhou antes mesmo de começar: sem educação que alcance, sem Estado que enxergue, sem horizonte que convoque.

Da luneta que carrego — não a do observador distante, mas a do cronista e do cidadão implicado — resta uma constatação incômoda: naturalizamos o inaceitável.

A miséria deixou de chocar. Passou a coexistir conosco.

E aqui não há como fugir da própria culpa: faço minha penitência. Não basta escrever sobre pobreza com elegância de gabinete. É preciso encarar o homem pobre — concreto, visível, esquecido — como centro desta tragédia. Fora disso, tudo vira ornamento. Retórica que alivia consciências, mas não altera destinos.

O país até tentou. Houve espasmos de lucidez, programas que nasceram envoltos em esperança, mas muitos morreram soterrados pela burocracia, pela conveniência política ou pelo abandono deliberado. Outros acabaram reduzidos a slogans de propaganda, distantes da realidade de quem sente fome na carne e no osso.

Chega.

O que se impõe agora é ação — concreta, coordenada e urgente. É hora de cobrar maior engajamento do governador Marcos Rocha, do prefeito Léo Moraes, das secretarias de assistência social e, sobretudo, de cada cidadão que ainda não perdeu a capacidade de se indignar.

Não se trata de caridade. Trata-se de responsabilidade. De reconstruir cidadania. Garantir comida. Devolver dignidade.

Porque, se nada for feito, a miséria que hoje se esconde nos semáforos e nas latas de lixo amanhã ocupará as avenidas. A fome não permanece silenciosa para sempre.

E quem aprende a sobreviver no abandono também aprende, cedo ou tarde, a não pedir licença para existir.

Antes que isso aconteça, é preciso agir. Ainda há esperança — mas não nos discursos.

A esperança mora na coragem. Na atitude. Na capacidade de romper a indiferença antes que ela nos devore por completo.

Porque, se falharmos nisso, não será a miséria o maior retrato deste tempo.

Será a nossa própria omissão.

É tempo de reflexão.

Amém.

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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