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    porto velho, sábado 16 de maio de 2026

Crônica de Fim de Semana: O silêncio das ruas na Copa e a morte lenta do futebol arte

Falta fome de bola. Falta raça. Falta alma. Falta a irresponsabilidade sadia do futebol raiz....


Arimar Souza de Sá

Publicada em: 15/05/2026 16:23:58 - Atualizado

Foto - Rondonoticias

Crônica de Fim de Semana

O silêncio das ruas na Copa e a morte lenta do futebol arte

Arimar Souza de Sá*

Estamos a menos de um mês da Copa do Mundo de 2026 e o Brasil já não sente cheiro de Copa. Em Rondônia, o vazio é ainda mais perceptível. Não há ruas pintadas. Não há bandeiras nas janelas. Não há crianças correndo com camisa amarela pelas calçadas quentes de Porto Velho. Nem nas repartições públicas o assunto empolga mais. O verde e amarelo parece ter perdido a alma.

Antigamente, Copa do Mundo era estado de espírito. Parava tudo. O brasileiro respirava futebol meses antes do primeiro apito. O padeiro discutia a escalação, o taxista montava o meio-campo no retrovisor e o vizinho apostava no artilheiro da competição. Havia um técnico em cada esquina e discussões acaloradas por toda parte. As ruas viravam arquibancadas improvisadas e cada gol da seleção suspendia, por alguns segundos, as dores do país.

Nas Copas de 1958 e 1962, Garrincha, o diabo das pernas tortas, driblava até a tristeza nacional. Em 1970, o futebol virou arte com Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson e Carlos Alberto encantando o mundo.

A seleção de 1982 não era apenas um time. Era uma orquestra. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Cerezo e Marinho Chagas faziam a bola deslizar no gramado como música. Os passes tinham melodia. Os dribles pareciam pinceladas de artista. Não levantaram a taça, mas encantaram o planeta.

Depois, em 94, vieram Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Kaká. Monstros sagrados do futebol arte. O mundo parava para assistir ao Brasil. Havia magia, improviso e futebol de rua. O Brasil era o país do impossível.

Foto - Rondonoticias

Em 2002, a seleção campeã ressuscitou o orgulho nacional e fazia desconhecidos se abraçarem nas ruas. Ronaldinho sorria enquanto desmontava defesas. Ronaldo Fenômeno atropelava zagueiros até empurrar a pelota para o fundo do barbante.

Em 2014 surgiu Neymar. Gostem ou não dele, foi o último brasileiro capaz de encantar o mundo com dribles, ousadia e irreverência. Ainda carregava algo do velho futebol brasileiro.

De lá para cá, o futebol arte evaporou. O Brasil deixou de produzir gênios da bola. Surgiram atletas, celebridades e influenciadores milionários. Craques eternos, não. Muitas “pernas de pau”.

O futebol europeu cresceu, engoliu nossos talentos e transformou meninos em ativos milionários antes mesmo de criarem identidade com o torcedor brasileiro. Perdemos a hegemonia, o encanto do futebol moleque, raiz.

Talvez o problema nem seja perder. O futebol sempre conviveu com vitórias e fracassos. O fato é não reconhecer mais a seleção como nossa. Falta conexão. Falta paixão. Falta aquele brilho infantil no olhar do torcedor. Falta a intimidade de sempre.

Hoje, até o técnico veio de fora, e muita gente sequer conhece os jogadores convocados. A maioria atua longe do Brasil. Muitos parecem mais preocupados com a tatuagem nova, o cabelo platinado ou o contrato publicitário do que em carregar o coração no bico da chuteira. Falta fome de bola. Falta raça. Falta alma. Falta a irresponsabilidade sadia do futebol raiz.

Sou da era Zico. Da geração em que vestir a camisa da seleção era carregar uma nação inteira no peito. A amarelinha não era uniforme; era armadura. Havia gênios. Craques que escreviam poesia com os pés. Pena que tudo isso tenha sido empurrado para o silêncio, sem jamais sair da memória do torcedor.

Mas a Copa está chegando… e o Brasil já não sonha como antes. Perdeu a fé no próprio escrete. O silêncio das ruas assusta mais do que qualquer derrota e virou o retrato da morte lenta do futebol arte. A camisa amarela perdeu encanto, alma e paixão. E o torcedor, de tanto se decepcionar, silenciou.

Agora… seja o que Deus quiser.

Amém.

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ O POVO, da Rádio Caiari FM, 103,1.


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