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porto velho, quinta-feira 27 de agosto de 2026

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta quinta-feira (27/8) recebeu Cintia Tatyellen, diretora e coordenadora do programa Acolhe Mulher, para uma entrevista sobre violência doméstica, os obstáculos enfrentados pelas vítimas para romper relacionamentos abusivos e as políticas de acolhimento disponíveis em Porto Velho.
Ao abordar a realidade enfrentada pelas mulheres, Cintia afirmou que a violência não nasce de uma única causa e pode se desenvolver de maneira silenciosa dentro dos relacionamentos. Segundo ela, comportamentos inicialmente encarados como ciúme, cuidado ou parte da dinâmica familiar podem representar os primeiros sinais de controle.

Entre os exemplos, a entrevistada citou situações em que o companheiro determina como a mulher deve se vestir, impede que ela trabalhe ou provoca o afastamento de familiares e amigos. Para Cintia, esse isolamento é especialmente perigoso porque enfraquece justamente a rede que poderia ajudar a vítima a perceber a violência e buscar uma saída.
“Quem está de fora consegue enxergar melhor. Quem está dentro da situação, às vezes, não tem essa percepção”, explicou.
Durante a entrevista, Cintia também contestou uma antiga máxima usada para tratar a violência doméstica como um problema restrito ao casal. Para ela, familiares, amigos e a própria sociedade precisam agir diante de sinais de agressão.

“Briga de marido e mulher não se mete a colher. E isso já acabou. Não é real, não deve ser. A sociedade tem que realmente intervir e a gente tem que dar as mãos”, afirmou.
A atuação profissional de Cintia nessa área também está ligada à própria história. Ela revelou ter vivido durante 15 anos em um relacionamento marcado pela violência e contou que demorou a reconhecer alguns dos primeiros sinais de abuso.
Segundo a entrevistada, uma das primeiras imposições foi relacionada às roupas que poderia usar. Com o passar dos anos, porém, a violência se agravou. Cintia relatou que, em um dos episódios, o então companheiro avançou com um carro contra ela e quase atingiu sua perna. Após o fim do relacionamento, deixou São Paulo e retornou a Rondônia por medo de morrer.
“Eu não rompi sozinha”, declarou ao explicar como conseguiu deixar a situação. Cintia contou que recebeu apoio de uma amiga, que ofereceu ajuda e colocou a própria casa à disposição como abrigo quando ela decidisse sair.
A entrevistada também relatou consequências psicológicas que permaneceram após o relacionamento, incluindo síndrome do pânico e dificuldades enfrentadas ao voltar a ter contato com o ex-companheiro durante procedimentos judiciais.
A partir dessa experiência, Cintia defendeu que cobrar simplesmente que uma vítima abandone o agressor pode ignorar fatores emocionais, financeiros e familiares que a mantêm presa ao ciclo de violência. “Às vezes ela está vendo, mas ela não consegue entender aquilo de outra forma. Ela não consegue sair”, explicou.
Foi justamente para facilitar esse primeiro pedido de ajuda que, segundo Cintia, o Acolhe Mulher foi estruturado. Ela explicou que o programa busca alcançar inclusive mulheres que enfrentam dificuldades para acessar os serviços tradicionais de emergência.
De acordo com a coordenadora, a iniciativa utiliza atendimento remoto e mantém integração com o Centro Integrado de Operações Policiais (CIOP). Havendo necessidade de intervenção, o atendimento humano pode acionar o serviço para que uma equipe seja encaminhada até a mulher.
“O programa foi criado justamente com esse intuito de ser esse primeiro acolhimento, de ser esse primeiro lugar onde essa mulher vai, por exemplo, tirar dúvidas”, destacou.
Cintia também citou a atuação do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), que oferece atendimento presencial, incluindo acompanhamento psicológico e assistência social, além de encaminhamento para casa-abrigo quando necessário.
Ao falar diretamente às mulheres que estejam enfrentando violência ou se reconheçam nos sinais apresentados durante a entrevista, Cintia resumiu a principal orientação em duas palavras: “Busque ajuda”.
Para a coordenadora, romper o ciclo pode exigir diferentes etapas e, muitas vezes, a participação de outras pessoas. A proposta do Acolhe Mulher é justamente funcionar como uma porta de entrada para que a vítima encontre orientação, acolhimento e acesso à rede de proteção antes que a violência alcance consequências ainda mais graves.
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