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    porto velho, sábado 29 de agosto de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - Amir Lando: tiraram seu nome da urna, não da história

E, no fim, talvez tenham conseguido apenas uma coisa: apequenar quem fechou a porta — não o homem que ficou do lado de fora...


Redação

Publicada em: 29/08/2026 13:28:03 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA

Amir Lando: tiraram seu nome da urna, não da história

*Arimar Souza de Sá

Quem acompanha a política, como eu, há quase quatro décadas sabe que certas derrotas não acontecem nas urnas. São produzidas dentro dos partidos, em salas fechadas, atas, telefonemas e decisões de quem controla a máquina partidária — quase sempre olhando primeiro para o próprio umbigo.

Aos 82 anos e com mais de quatro décadas de vida pública, Amir Lando não teve sequer o direito de descobrir nas urnas se o eleitor de Rondônia ainda queria ouvi-lo. Talvez seja justamente isso que torne sua ausência nas eleições de 2026 tão simbólica: Amir terminou uma eleição que nem sequer pôde começar.

E isso pesa.

Amir não é um aventureiro de temporada. É parte da fundação política de Rondônia. Aportou por aqui, na década de 70. Foi deputado estadual constituinte, senador, deputado federal, ministro da Previdência e ganhou projeção nacional como relator da CPI que ajudou a pavimentar o caminho para o impeachment de Fernando Collor.

Carregou nos ombros capítulos pesados da República. Ironicamente, acabou tropeçando dentro da própria casa que ajudou a construir. Primeiro, cogitou disputar o Senado. Quando Confúcio Moura, que demorava a definir seu futuro político, decidiu entrar na disputa, Amir recuou e reconheceu a prioridade do correligionário.

Depois, tentou uma vaga de deputado federal. Também não avançou. Na sequência, seu nome surgiu para ocupar a vice de Pedro Abib, candidato ao Governo. Outra porta se abriu — e, pouco depois, bateu em seu rosto. Foi a terceira pancada. E todas vieram de dentro do partido no qual militou durante praticamente toda a sua vida política.

Amir resumiu o episódio com uma frase que dói mais do que qualquer ataque: não sabe o que fez para Confúcio Moura. Mesmo assim, diz não guardar raiva no coração. Talvez essa seja a parte mais incômoda da história. Seria compreensível o revide. Amir poderia incendiar o partido que ajudou a construir, transformar a campanha numa lavagem de roupa suja em público ou devolver golpe por golpe. Preferiu ficar. Preferiu não transformar mágoa em vingança.

E isso, convenhamos, é uma reação rara num ambiente em que ressentimento costuma virar munição. Talvez aí esteja uma das grandes diferenças entre Amir e boa parte da política atual.

Seu mundo político tinha Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela e Pedro Simon. Hoje, porém, o tabuleiro é outro. Ele pertence a uma geração em que um discurso precisava sobreviver ao plenário, ao aparte do adversário e às páginas dos jornais do dia seguinte.

Hoje, a força política é medida pela esperteza, pelo dinheiro do fundo partidário, pelas emendas, pela estrutura de campanha e pelo alcance nas redes sociais. Experiência não garante legenda. História não assegura vaga. Biografia não vence necessariamente uma ata. E gratidão não consta no estatuto partidário.

A bem da verdade, a ausência de Amir não significa que ele seria eleito. Ninguém pode afirmar isso. Tampouco significa que suas ideias seriam melhores do que as dos candidatos que permanecem na disputa.

A questão é outra: Rondônia perdeu a oportunidade de fazer esse julgamento. O eleitor poderia dizer sim ou não. Poderia aposentá-lo definitivamente nas urnas ou devolvê-lo a Brasília. Mas deveria ser o eleitor a decidir. A sentença deveria vir das urnas.

Amir Lando é quase um fóssil de uma política que desaparece. Culto, experiente e de discurso afiado, carrega histórias que não cabem em vídeos de 30 segundos. Não é santo, demônio nem intocável. Pode-se gostar ou não dele, concordar ou discordar de suas posições. Política não exige unanimidade!

Mas uma coisa é difícil apagar: sua história não nasceu ontem, não foi fabricada pelas redes sociais nem dependeu de algoritmos. Quando Rondônia ainda era território, Amir já enfrentava as vicinais e até a malária. Quando o Estado dava seus primeiros passos, ele estava na trincheira política como deputado constituinte.

Quando o Brasil atravessou uma de suas maiores crises presidenciais, Amir estava no centro da tempestade. Quando Rondônia precisava de voz em Brasília, ele estava lá — e com destaque.

Negar a alguém com essa trajetória a possibilidade de se submeter novamente às urnas é como fechar a porta da casa para quem ajudou a levantar suas paredes. A política tem dessas crueldades. Primeiro aplaude. Depois usa. Por fim, esquece.

Só que a memória de um Estado não se reescreve com uma ata partidária. Amir pode ter ficado sem candidatura. Pode ter sido barrado. Pode ter sido empurrado para o alambrado. Mas sua biografia atravessou décadas demais para ser diminuída, sem cerimônia, por uma disputa interna marcada pela falta de grandeza. Conseguiram tirar Amir Lando da eleição de 2026. Da história de Rondônia, não.

E, no fim, talvez tenham conseguido apenas uma coisa: apequenar quem fechou a porta — não o homem que ficou do lado de fora.

Amém!

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.

imagem - montagem rondonoticias/ia



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