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porto velho, sexta-feira 4 de setembro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
O eleitor mudou — e o passado cobra a fatura
*Arimar Souza de Sá
Há uma mudança silenciosa, mas profunda, no comportamento do eleitor rondoniense — e, para muitos políticos, ela pode ser incômoda. O tempo do voto conduzido por velhos hábitos, promessas vazias e fidelidades herdadas começa a ceder espaço a um eleitor mais informado, desconfiado e disposto a conferir.
Em Porto Velho, as campanhas já ocupam as ruas com formiguinhas, bandeiras, jingles, buzinaços e promessas requentadas. Durante décadas, parte da política apostou numa certeza confortável: o eleitor esqueceria. Esqueceria alianças mal explicadas, discursos contraditórios, promessas quebradas e compromissos abandonados depois da urna. Essa aposta envelheceu.
Hoje, o eleitor carrega no bolso um arquivo da vida pública de quem pede voto. O celular recupera em segundos entrevistas, votações, declarações e contradições. O que antes morria no jornal do dia seguinte agora permanece registrado. A internet guarda pegadas — e a política começou a sentir o peso dessa memória.
A velha política sempre soube trabalhar com maquiagem. Transformou ausência em presença, oportunismo em estratégia e conveniência em convicção. O problema é que a tecnologia acendeu a luz do camarim. Ficou mais difícil esconder o personagem atrás do figurino.
Os rituais de campanha continuam conhecidos. Políticos reaparecem em igrejas, feiras, bairros e comunidades, tomam café em copo plástico, comem pastel requentado, abraçam crianças e descobrem problemas que existem há anos. A diferença é que agora o eleitor pode responder com uma pergunta simples e devastadora: onde você estava antes da eleição?
Rondônia conhece bem os sobrenomes tradicionais, as alianças de ocasião, os rompimentos temporários e as reconciliações ditadas pela conveniência. O poder econômico continua forte, as máquinas partidárias ainda pesam e o voto por amizade ou tradição não desapareceu. Mas o terreno já não é o mesmo.
Há um eleitor mais conectado, mais desconfiado e menos disposto a aceitar a política como produto embalado. Ele compara discursos, revisita promessas e percebe que campanha é vitrine. Tudo pode ser montado: o sorriso, a roupa, a frase, o cenário. Só que o eleitor atento já não olha apenas a fachada. Entra na loja, confere o estoque e, muitas vezes, descobre que a propaganda vende mais do que o mandato entregou.
Por isso, biografia pesa. Um vídeo pode ser produzido em horas. Um slogan nasce em uma reunião. Coerência, não. Coerência exige tempo.
Não existe marqueteiro capaz de fabricar retroativamente um bom mandato. Não há filtro que transforme ausência em trabalho nem edição que apague anos de omissão. A política pode trocar o figurino, mas a história continua reconhecendo o personagem.
Talvez esse seja o verdadeiro incômodo de parte da velha política. O candidato já não disputa apenas contra adversários. Disputa contra o próprio passado, contra aquilo que prometeu e, principalmente, contra aquilo que teve oportunidade de fazer e não fez.
Até o dia da eleição haverá bandeiras, carros adesivados, jingles, vídeos emocionais e discursos cuidadosamente ensaiados. Mas a campanha é espuma. Diante da urna, ela baixa. Ficam o eleitor, a memória e a conta.
E talvez esse seja o maior medo de quem sempre viveu do esquecimento: não que o eleitor fique com raiva, mas que aprenda a conferir a fatura.
Porque promessa pode ser refeita. Imagem pode ser reconstruída. Discurso pode ser ensaiado. O passado, não.
E, quando ele bate à porta, não há embalagem nova nem marqueteiro capaz de fazer produto velho parecer novidade.
É tempo de reflexão!
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO da Rádio Caiari FM, 103,1.