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porto velho, quinta-feira 22 de outubro de 2026

PORTO VELHO - RO - As companhias aéreas parecem ter encontrado em Rondônia um terreno fértil para impor suas decisões comerciais sem enfrentar uma resistência política à altura. Diante de uma bancada federal que ainda não demonstrou força suficiente para reverter o esvaziamento da malha aérea regional, empresas como Gol e Azul e Latam reduzem operações, retiram rotas e deixam a população à mercê de passagens caras, conexões demoradas e opções cada vez mais limitadas.
Em pleno período de planejamento das viagens de fim de ano, a Gol voltou a provocar apreensão entre os passageiros rondonienses. A companhia anunciou a suspensão da ligação direta entre Porto Velho e Rio Branco, com última operação prevista para 31 de janeiro de 2027. Também serão atingidos os voos entre Rio Branco e Manaus, ampliando as dificuldades de deslocamento na Região Norte.
A situação é particularmente constrangedora porque a ligação entre Porto Velho e Rio Branco havia sido retomada em agosto deste ano, depois de seis anos de interrupção. Mal houve tempo para comemorar a reconquista, e a rota já entrou novamente na lista de cortes. É como se a conectividade aérea da Amazônia fosse um favor das companhias, e não uma necessidade estratégica de uma região marcada por distâncias gigantescas e limitações de transporte terrestre.
O episódio envolvendo Porto Velho e Cuiabá também acendeu o sinal de alerta. A suspensão chegou a ser anunciada para janeiro de 2027, embora informações posteriores tenham apontado uma possível manutenção do trecho. A sucessão de anúncios e mudanças reforça a insegurança dos passageiros e a necessidade de esclarecimentos definitivos por parte da empresa.
A Gol justifica os ajustes com a elevação do preço do querosene de aviação, que, segundo a companhia, representa aproximadamente 40% de seus custos operacionais. Argumenta ainda que as decisões obedecem a critérios econômicos e que os passageiros poderão continuar viajando por meio de conexões e parcerias com outras empresas.
A justificativa empresarial, entretanto, não elimina o problema social e econômico. Para quem vive em Rondônia, uma viagem que deveria durar poucas horas pode se transformar em um verdadeiro calvário, com deslocamentos desnecessários, longas esperas em aeroportos e despesas adicionais.
A Azul também integra esse histórico de redução da oferta aérea no Estado. Em 2023, a companhia diminuiu operações em Rondônia, movimento acompanhado pela Gol, que chegou a reduzir significativamente sua oferta de voos. O precedente demonstra que o enfraquecimento da conectividade regional não é um problema novo, mas uma dificuldade que se arrasta sem solução estrutural.
E onde estão os oito deputados federais e os três senadores de Rondônia?
A pergunta ganha força diante de mais uma ameaça ao direito de ir e vir dos rondonienses. Afinal, a bancada federal existe para defender os interesses do Estado em Brasília, especialmente quando decisões empresariais comprometem o desenvolvimento regional.
Não basta distribuir emendas parlamentares, participar de solenidades, anunciar investimentos e aparecer nas redes sociais. É preciso exercer influência política, mobilizar a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cobrar providências do Ministério de Portos e Aeroportos e buscar soluções que impeçam Rondônia de continuar perdendo espaço no mapa da aviação brasileira.
É evidente que empresas privadas precisam preservar sua viabilidade econômica. Mas também é verdade que o transporte aéreo, especialmente na Amazônia, não pode ser tratado exclusivamente pela lógica das planilhas financeiras. A redução de voos compromete o turismo, prejudica empresários, encarece negócios e dificulta o deslocamento de pacientes, estudantes e famílias.
O que falta é uma articulação política consistente, capaz de colocar Rondônia na mesa das decisões nacionais. Enquanto outros estados pressionam por investimentos e ampliação de suas conexões, Rondônia corre o risco de assistir, passivamente, ao desaparecimento de rotas importantes.
A impressão que fica é a de que as companhias aéreas pintam e bordam porque não encontram uma reação institucional suficientemente forte. Anunciam cortes, reorganizam seus interesses e deixam para os passageiros a conta do isolamento.
Rondônia não pode continuar sendo tratada como destino de segunda categoria. Seus representantes no Congresso Nacional precisam compreender que defender a conectividade aérea não é um favor à população, mas uma obrigação política.
Afinal, de pouco adianta Rondônia conquistar espaço no discurso sobre desenvolvimento se, na prática, fica cada vez mais difícil entrar e sair do próprio Estado de avião.
E, enquanto Brasília não ouvir uma voz firme dos representantes rondonienses, quem continuará pagando a passagem — cada vez mais cara e demorada — será o cidadão.