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    porto velho, sexta-feira 23 de outubro de 2026

Benito Di Paula: Os retalhos de cetim de uma juventude que ficou na saudade

Benito não foi apenas um cantor da minha geração. Foi parte da trilha sonora de uma Porto Velho que já não existe, mas permanece inteira dentro de mim...


Redação

Publicada em: 23/10/2026 15:31:06 - Atualizado

Foto - Rondonoticias edição IA

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA

Benito Di Paula: os retalhos de cetim de uma juventude que ficou na saudade

*Arimar Souza de Sá

Há artistas que partem, mas deixam a voz eternizada nas esquinas da memória e nas saudades de uma juventude que o tempo levou. Suas canções não envelhecem. Envelhecemos nós, que ainda encontramos nelas os amores, os sonhos e a felicidade de outros tempos. Benito Di Paula era uma dessas vozes que o tempo jamais conseguiu calar.

Com sua cabeleira comprida, os ternos, os óculos escuros, o indefectível bigode e o inseparável piano, Benito, o Friburguense Coroado, tinha a ousadia dos rebeldes e a delicadeza dos poetas. Cantava como quem confidenciava um segredo ao amigo sentado do outro lado da mesa. E nós escutávamos como se aquele segredo fosse nosso.

Em Mulher Brasileira, reverenciava a mulher em primeiro lugar. Em Charlie Brown, fazia o samba conversar com o mundo. E, em Do Jeito Que a Vida Quer, antecipava uma lição que só os cabelos brancos nos ensinam: a vida raramente obedece aos nossos planos.

Ah, Benito! Como demoramos a compreender isso!

Queríamos amores eternos, amigos que nunca partissem, nossos pais sempre por perto e noites de sábado, embaladas por seus sambas, que jamais encontrassem a manhã preguiçosa de segunda-feira. Queríamos tudo no seu lugar, graças a Deus!

No domingo, 18 de outubro, aos 84 anos, Benito despediu-se da vida em São Paulo, depois de enfrentar um câncer. Morreu o homem, mas não o artista, que continuará ao piano, fazendo o coração brasileiro dançar entre o samba, a birita, o amor e a saudade.

Recebi a notícia como quem encontra, no fundo de uma gaveta, uma fotografia amarelada da juventude. Dessas que apertam o peito e despertam lembranças adormecidas. Benito não foi apenas um cantor da minha geração. Foi parte da trilha sonora de uma Porto Velho que já não existe, mas permanece inteira dentro de mim.

Voltei aos anos 70 e 80. Às andanças entre a Baixa do União e a Rua Benjamin Constant, no bairro Olaria. Aos amigos reunidos, ao violão passando de mão em mão, às conversas que atravessavam a madrugada e aos primeiros amores, quase sempre maiores do que a coragem de confessá-los.

Naquele tempo, a felicidade não exigia muito. Bastavam a calçada de casa, uma roda de amigos, um coração desocupado e alguém disposto a cantar. E, quando chegava a vez de Benito, meu Deus, até a tristeza tinha balanço! Lá vinha o refrão de Maria, Mariá ou aquele lamento: “Ninguém sabe a mágoa que trago no peito...”. E a noite ganhava outro sabor.

Retalhos de Cetim não era apenas uma música. Era o que fazíamos com nossos sonhos. Costurávamos esperanças, remendávamos desilusões e acreditávamos que todo amor, por mais complicado que fosse, acabaria dando certo. Nem sempre dava.

Mas Benito transformava nossas derrotas sentimentais em belíssimos sambas. A dor de cotovelo ganhava dignidade, e o sujeito dispensado pela namorada descobria que não estava sozinho. Afinal, quem nunca teve o “barato do amor” cortado na melhor parte da história?

Ave Maria! Que tempo bom!

O mundo não acabava por causa de um amor perdido. Mas o coração demorava a entender. Benito entendia e retrucava, avisando: “Você vai ficar na saudade, minha senhora. Ah! Eu vou me embora”.

Hoje, olhando pelo retrovisor da existência, percebo quanta coisa saiu do lugar. Alguns amigos partiram, outros seguiram caminhos diferentes. Desapareceram antigos pontos de encontro, enquanto a Porto Velho das serenatas, dos quintais generosos e das conversas demoradas cedia espaço a uma cidade cada vez menos familiar.  Mas basta ouvir Amigo do Sol, Amigo da Lua para reencontrar os companheiros do violão, os namoros de outrora e aquela juventude que acreditava ter todo o tempo do mundo.

A música tem esse poder fantástico de devolver-nos, por alguns instantes, aquilo que a vida levou. Talvez por isso a morte de Benito tenha atingido tão profundamente a minha geração. Não perdemos apenas um artista admirado. É como se mais uma janela da nossa juventude tivesse se fechado, levando consigo um pedaço de nós.

Agora, ficamos com nossos retalhos de cetim, cada um guardando fragmentos de sua história e a sensação de que a vida passou depressa demais. E o próprio Benito parecia anunciar sua despedida em Vai Ficar na Saudade, ao cantar: “Ah! Eu vou me embora...”.

E foi.

Mas ficou nos antigos rádios de pilha, nas vitrolas, nos discos de vinil arranhados pelo uso, nos CDs, nos bares de esquina e nas serenatas que atravessavam a madrugada. Ficou na lembrança de um Brasil que sabia cantar junto, mesmo quando estava triste.

Hoje, a vida segue 'Do Jeito Que a Vida Quer'. Nem sempre como sonhamos. Nem sempre com as pessoas que gostaríamos de ter por perto.

Descanse em paz, Benito. Ficamos por aqui, com nossos “Retalhos de Cetim”, os amores que o tempo levou e as saudades que não morrem. E, a cada acorde do seu piano, voltaremos àquela Porto Velho onde fomos jovens e felizes sem saber. Sua voz se cala, Benito, mas nossa juventude viverá para sempre em seus sambas.

É tempo de homenagem!

AMÉM!

O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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