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porto velho, terça-feira 10 de março de 2026

PORTO VELHO - RO - As andanças do senador Confúcio Moura pelo interior de Rondônia têm revelado um cenário político cada vez mais adverso ao emedebista. Em um estado marcado por forte inclinação conservadora e por uma presença expressiva do eleitorado alinhado ao bolsonarismo, o discurso de defesa do presidente Lula tem produzido reações duras nas plateias e colocado o senador diante de questionamentos constantes.
Nos encontros, entrevistas e eventos públicos, Confúcio tem sido cobrado repetidamente pelo apoio que mantém ao governo federal. Em várias ocasiões, o senador não escondeu o incômodo. Pelo contrário: reagiu com veemência. Em suas falas, tem reiterado que Lula foi, em sua avaliação, o melhor presidente que o Brasil já teve, sobretudo pelo volume de recursos destinados a Rondônia ao longo dos anos.
O problema é que esse discurso caminha na contramão do humor político predominante no estado. Em diversas cidades do interior, o alinhamento com o governo petista tem provocado resistências abertas, criando um ambiente que mistura confronto político com certo desgaste pessoal.
Um episódio ocorrido recentemente em uma emissora de rádio do interior ilustra bem esse clima. Ao ser questionado por um repórter sobre a criação de reservas ambientais — tema sensível em regiões marcadas por conflitos fundiários e pressões produtivas — Confúcio reagiu de forma irritada e encerrou abruptamente a entrevista, deixando o jornalista sozinho diante do microfone.
Dias depois, em um evento público, o senador voltou a demonstrar impaciência quando o assunto voltou à tona, desta vez ligado à sua relação política com Lula. Diante das cobranças, respondeu de forma direta e visivelmente incomodada: “BR não tem partido, usina não tem partido, obras para o bem comum não têm partido”, disse, tentando desvincular investimentos federais de disputas ideológicas.
Nos bastidores da política rondoniense, a sucessão desses episódios tem alimentado uma leitura incômoda para o veterano líder do MDB. Há quem já fale em sinais claros de fadiga eleitoral. Depois de décadas ocupando posições centrais na política do estado — como prefeito, governador e senador — Confúcio parece enfrentar uma fase em que o ambiente político já não lhe oferece o mesmo terreno fértil de outros tempos.
Essa percepção ganhou força nas últimas semanas, quando interlocutores passaram a comentar a possibilidade de o senador repensar seus próximos passos. No horizonte imediato estão duas hipóteses eleitorais: disputar o governo do estado ou tentar renovar o mandato no Senado em 2026. Nenhuma delas, porém, parece hoje livre de dúvidas.
Além do desgaste político, fatores de natureza pessoal e familiar também pesariam na reflexão do senador. Pessoas próximas relatam que ele não esconde certa frustração com parte do eleitorado rondoniense, especialmente pela resistência em reconhecer, segundo ele, os investimentos e projetos federais que teriam beneficiado o estado durante os governos petistas.
Ainda assim, Confúcio Moura segue contando com a simpatia de setores da esquerda, com interlocução privilegiada no governo federal e com apoio de parcelas do eleitorado de centro esquerda. O desafio, entretanto, será transformar esse capital político em viabilidade eleitoral dentro de um estado onde o vento ideológico sopra, majoritariamente, em outra direção.
Se decidir permanecer no jogo, o senador terá diante de si uma campanha marcada não apenas pela disputa eleitoral, mas também pelo desafio de convencer um eleitorado que parece cada vez menos disposto a ouvir o discurso que ele insiste em defender. Em Rondônia, a política mudou — e Confúcio Moura parece sentir, nas ruas, o peso dessa mudança.