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porto velho, sexta-feira 27 de fevereiro de 2026

MUNDO: A morte do poderoso chefe do narcotráfico Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", esta semana foi apresentada pelas autoridades do México e dos EUA como um duro golpe ao crime organizado de drogas.
El Mencho era líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) e um dos homens mais procurados pelo México e pelos Estados Unidos — países que cooperaram na operação que matou o traficante no município de Tapalpa, no Estado de Jalisco.
Mas para o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa, a operação no México pode agora causar problemas no Brasil.
Segundo ele, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) podem vir a ocupar o vácuo deixado pelo cartel mexicano CJNG — que agora deve mergulhar em conflitos internos para decidir a sucessão de El Mencho.
Uchôa afirma que o PCC já atua em duas áreas em que o CJNG pode estar enfraquecido: a exploração de rotas de drogas sintéticas e cocaína para a Europa; e a mineração ilegal de ouro — e o comércio de mercúrio — na Amazônia.
Além disso, ele acredita que o grupo brasileiro vem se mostrando mais organizado e profissional do que os mexicanos nos últimos anos — sobretudo por conseguir "regular o mercado da violência". Enquanto no México, traficantes entram em confronto direto com o Estado, no Brasil as ações violentas dos criminosos são mais "utilitárias" — calculadas para atingir determinados objetivos concretos.
Além disso, a violência como a que se viu no México esta semana por parte do CJNG — com disparos em aeroportos e ruas do país — pode fortalecer o discurso do presidente americano, Donald Trump, de enquadrar esses grupos como terroristas, dando aos EUA maior poder de ação contra o México em diversas instâncias.
"E é o tipo de coisa que o PCC parou de fazer", diz Uchôa.
Para ele, a estrutura mais descentralizada do PCC — e também de grupos como o Comando Vermelho —, sem grandes líderes simbólicos, faz com que esses grupos sejam mais resistentes a operações que prendem e matam grandes traficantes.
"O PCC mostra um nível de resiliência e profissionalismo no crime muito maior", afirma Uchôa.
Confira abaixo trechos da entrevista do especialista à BBC News Brasil.
BBC News Brasil — De que forma o PCC pode sair fortalecido com a morte de El Mencho?
Roberto Uchôa — Existem três possibilidades após a morte do El Mencho. A mais provável é uma "balcanização" — ou seja, uma fragmentação do cartel — por causa das disputas entre os generais [os comandantes entre os traficantes].
Não ficou uma liderança definida e uma sucessão estruturada para o caso de ele ser preso ou morto. Então, o que provavelmente vai acontecer é um conflito interno ou uma divisão do cartel em células menores — ou até mesmo a absorção pelo Cartel de Sinaloa.
De qualquer forma, sabemos que o Cartel Jalisco Nueva Generación estava usando rotas para a Europa, principalmente para drogas sintéticas e cocaína. E já sabemos que esse cartel estava muito presente em mineração ilegal na América do Sul.
O que eu entendo, também conversando com outros pesquisadores, é que essa possível fragmentação e essa luta interna vão enfraquecer a posição do cartel. Isso vai dificultar a manutenção das rotas para a Europa ou o controle dessas minas.
E isso abriria espaço para organizações como o PCC.
Hoje o PCC já controla grande parte da rota da cocaína para a Europa. Ele está em contínua expansão. Mesmo com suas lideranças presas, isso não enfraqueceu o grupo justamente por causa de uma estrutura diferenciada. O PCC é estruturado como uma empresa. Então, você pode prender uma liderança — o Marcola, por exemplo, está preso há décadas — e ele é apenas um líder da Sintonia Final, que é um grupo de pessoas que decide os rumos do PCC. É uma organização muito mais resiliente ao tipo de combate conhecido como kingpin, que consiste em eliminar ou isolar a liderança.
Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido. Então, acredito que, se realmente ocorrer essa instabilidade e faltar a certeza que os clientes querem, o PCC vai entrar como um fornecedor estável, que também tem acesso à origem da droga na América do Sul e vai fornecer com mais tranquilidade.