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    porto velho, sexta-feira 27 de fevereiro de 2026

Morte de El Mencho pode fortalecer PCC, 'mais profissional' que cartéis mexicanos

Grupo criminoso brasileiro estaria bem posicionado para ocupar vácuo deixado pelos mexicanos em rotas de cocaína para Europa e mineração ilegal na Amazônia.


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Publicada em: 27/02/2026 09:41:52 - Atualizado

MUNDO: A morte do poderoso chefe do narcotráfico Nemesio Oseguera, conhecido como "El Mencho", esta semana foi apresentada pelas autoridades do México e dos EUA como um duro golpe ao crime organizado de drogas.

El Mencho era líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) e um dos homens mais procurados pelo México e pelos Estados Unidos — países que cooperaram na operação que matou o traficante no município de Tapalpa, no Estado de Jalisco.

Mas para o ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa, a operação no México pode agora causar problemas no Brasil.

Segundo ele, facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) podem vir a ocupar o vácuo deixado pelo cartel mexicano CJNG — que agora deve mergulhar em conflitos internos para decidir a sucessão de El Mencho.

Uchôa afirma que o PCC já atua em duas áreas em que o CJNG pode estar enfraquecido: a exploração de rotas de drogas sintéticas e cocaína para a Europa; e a mineração ilegal de ouro — e o comércio de mercúrio — na Amazônia.

Além disso, ele acredita que o grupo brasileiro vem se mostrando mais organizado e profissional do que os mexicanos nos últimos anos — sobretudo por conseguir "regular o mercado da violência". Enquanto no México, traficantes entram em confronto direto com o Estado, no Brasil as ações violentas dos criminosos são mais "utilitárias" — calculadas para atingir determinados objetivos concretos.

Além disso, a violência como a que se viu no México esta semana por parte do CJNG — com disparos em aeroportos e ruas do país — pode fortalecer o discurso do presidente americano, Donald Trump, de enquadrar esses grupos como terroristas, dando aos EUA maior poder de ação contra o México em diversas instâncias.

"E é o tipo de coisa que o PCC parou de fazer", diz Uchôa.

Para ele, a estrutura mais descentralizada do PCC — e também de grupos como o Comando Vermelho —, sem grandes líderes simbólicos, faz com que esses grupos sejam mais resistentes a operações que prendem e matam grandes traficantes.

"O PCC mostra um nível de resiliência e profissionalismo no crime muito maior", afirma Uchôa.

Confira abaixo trechos da entrevista do especialista à BBC News Brasil.

BBC News Brasil — De que forma o PCC pode sair fortalecido com a morte de El Mencho?

Roberto Uchôa — Existem três possibilidades após a morte do El Mencho. A mais provável é uma "balcanização" — ou seja, uma fragmentação do cartel — por causa das disputas entre os generais [os comandantes entre os traficantes].

Não ficou uma liderança definida e uma sucessão estruturada para o caso de ele ser preso ou morto. Então, o que provavelmente vai acontecer é um conflito interno ou uma divisão do cartel em células menores — ou até mesmo a absorção pelo Cartel de Sinaloa.

De qualquer forma, sabemos que o Cartel Jalisco Nueva Generación estava usando rotas para a Europa, principalmente para drogas sintéticas e cocaína. E já sabemos que esse cartel estava muito presente em mineração ilegal na América do Sul.

O que eu entendo, também conversando com outros pesquisadores, é que essa possível fragmentação e essa luta interna vão enfraquecer a posição do cartel. Isso vai dificultar a manutenção das rotas para a Europa ou o controle dessas minas.

E isso abriria espaço para organizações como o PCC.

Hoje o PCC já controla grande parte da rota da cocaína para a Europa. Ele está em contínua expansão. Mesmo com suas lideranças presas, isso não enfraqueceu o grupo justamente por causa de uma estrutura diferenciada. O PCC é estruturado como uma empresa. Então, você pode prender uma liderança — o Marcola, por exemplo, está preso há décadas — e ele é apenas um líder da Sintonia Final, que é um grupo de pessoas que decide os rumos do PCC. É uma organização muito mais resiliente ao tipo de combate conhecido como kingpin, que consiste em eliminar ou isolar a liderança.

Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido. Então, acredito que, se realmente ocorrer essa instabilidade e faltar a certeza que os clientes querem, o PCC vai entrar como um fornecedor estável, que também tem acesso à origem da droga na América do Sul e vai fornecer com mais tranquilidade.


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