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porto velho, sexta-feira 11 de setembro de 2026

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta sexta-feira (11/09) recebeu a candidata a deputada federal Euma Tourinho, do Podemos. Em uma entrevista marcada por críticas à atual estrutura de poder, a ex-juíza apresentou a candidatura como um projeto de enfrentamento político, defendeu renovação da representação de Rondônia em Brasília e apontou incompetência, inércia e corrupção como entraves ao desenvolvimento do estado.
Euma deixou claro desde o início que pretende fazer da indignação uma das marcas de sua campanha. Ao lembrar a disputa eleitoral de 2024, afirmou que parte do eleitorado passou a compreender melhor o tom adotado por ela naquela eleição.
“Hoje, quando chego a uma reunião, muitas pessoas dizem que agora entendem a minha campanha de 2024. Dizem que eu não era brava, era indignada. Eu corrijo: era, não. Eu sou indignada”, afirmou.
A candidata relacionou essa indignação a problemas que considera consequência direta da fragilidade da representação política de Rondônia, citando pedágios, malha aérea, dificuldades na obtenção de recursos e episódios envolvendo dinheiro público.
“Isso entala no eleitor, no morador de Rondônia, porque a gente poderia ter uma terra próspera e não tem, por um misto de incompetência, inércia e corrupção”, disparou.
“Quero enfrentar poderosos”
Euma também apresentou a disputa pela Câmara dos Deputados como uma continuidade de sua trajetória no Judiciário. Segundo ela, a experiência acumulada com legislação e sua passagem pela área legislativa da Associação Nacional de Juízes são elementos que pretende transformar em atuação política no Congresso.
A candidata colocou o endurecimento das leis contra o crime organizado entre suas principais bandeiras e fez uma crítica direta ao funcionamento atual do Legislativo.
“Minha vida inteira eu estudei leis. Passei sete anos dentro do Congresso e quero endurecer a legislação contra o crime organizado e contra a criminalidade de modo geral”, afirmou.
Na sequência, elevou o tom ao sustentar que interesses de grupos poderosos influenciam a produção das leis no país.
“O que a gente percebe é um Congresso rendido a interesses de poderosos, que deixam passar legislações mais fracas e tudo aquilo que prejudica a população. A gente precisa ter alguém que não tenha telhado de vidro e que possa enfrentar poderosos com a mesma coragem com que eu enfrentei os poderosos daqui em 2024”, declarou.
Euma diz que precisa de 30 mil votos
Ao tratar diretamente da matemática eleitoral, Euma afirmou que a votação obtida em 2024, quando chegou perto de 25 mil votos, fortaleceu seu projeto político, mas reconheceu que precisará ampliar esse resultado para conquistar uma cadeira de deputada federal.
“Para quem nunca tinha participado da política, ter quase 25 mil votos é muito voto. Agora vou precisar de 30 mil votos, porque meu partido vai fazer, teoricamente, 22 candidatos. Se eu não tiver 30 mil votos, de novo eu sou bem votada e não sou eleita”, afirmou.
Segundo a candidata, a votação anterior foi conquistada sem uma grande estrutura eleitoral e demonstrou que existe espaço para uma candidatura que confronte práticas tradicionais da política.
“Ninguém está acima da lei”
A trajetória de Euma como juíza também ganhou peso na entrevista quando o debate chegou ao combate à corrupção. Ela afirmou que julgou diversos casos envolvendo corruptos e sustentou que sua atuação sempre esteve vinculada às provas existentes nos processos.

“Eu julguei muitos corruptos na minha vida e condenei quase a totalidade quando havia prova. Juiz não é justiceiro. Tem prova, condena; não tem, absolve e vai dormir”, disse.
Para Euma, essa experiência lhe deu conhecimento sobre o funcionamento de esquemas envolvendo recursos públicos e será uma das bases de sua atuação caso seja eleita.
“Eu sei como o sistema funciona. Sei o que é feito para desviar dinheiro”, declarou.
Ao abordar as crises envolvendo instituições nacionais, a candidata voltou a defender responsabilização sem distinção de cargos ou posições políticas.
“Eu quero que quem se envolveu com corrupção responda por isso, doa a quem doer. Aquela frase que a gente repete tanto, de que ninguém está acima da lei, precisa significar que ninguém está acima da lei mesmo”, afirmou.
Mudanças no STF entram na agenda
A candidata também defendeu alterações estruturais no Supremo Tribunal Federal. Entre as mudanças apresentadas estão a adoção de mandato para ministros e uma maior participação de magistrados de carreira na composição da Corte.
“Sou a favor de juízes de carreira no Supremo. Todo mundo bate no Supremo, mas não tem partido de direita, de esquerda ou de centro propondo uma mudança na forma de acesso. O Supremo deveria ter mandato”, defendeu.
Euma também criticou a possibilidade de um ministro permanecer durante décadas no STF.
“A gente não pode ter alguém tão poderoso para o resto da vida. Tem que existir idade mínima também, porque senão a pessoa entra com 35 anos, sai com 75 e passa 40 anos com todo esse poder. Não pode”, afirmou.
Questionada sobre decisões da Corte das quais discorda, ela afirmou que há posicionamentos que tomaria de forma diferente e argumentou que o julgamento sobre a atuação do Supremo não pode depender da posição ideológica de quem analisa suas decisões.
“Há um monte de decisões que eu faria absolutamente diferente. E existem decisões questionáveis dos dois lados. A gente não tem que concordar com uma decisão simplesmente porque ela corresponde à ideologia que defendemos”, declarou.
Ideologia “fecha portas para Rondônia”
Nesse ponto, Euma levou a discussão nacional para a realidade de Rondônia e criticou a transformação das divergências ideológicas em barreiras para a articulação política do estado em Brasília.
“Essa história de ideologia fecha as portas para Rondônia. A mãe que está lá na ponta precisa de creche, de unidade básica de saúde e de segurança pública”, afirmou.
A candidata citou sua própria experiência de articulação em Brasília e afirmou ter conseguido quase R$ 200 milhões em ministérios quando representou Porto Velho.
“Eu fui atendida em todas as audiências que pedi. Essa articulação é absolutamente necessária para que a gente desenvolva Rondônia, porque precisamos de recursos”, disse.
Para ela, deputados e senadores precisam ir além da simples destinação de emendas parlamentares e construir relações institucionais que permitam ao estado acessar recursos disponíveis nos ministérios.
Ataque à segurança pública do governo
Um dos ataques políticos mais contundentes da entrevista ocorreu quando Euma avaliou a segurança pública de Rondônia. A candidata responsabilizou diretamente a atual administração estadual pela situação do setor.
“Nós temos um governador que é coronel e que conseguiu a proeza de piorar a segurança pública no estado”, declarou.
Na avaliação da candidata, Rondônia precisa atuar imediatamente em três frentes: estruturação das polícias, inteligência e tecnologia.
“Temos um concurso da Polícia Civil com 450 aprovados que não estão investigando crimes. A Polícia Militar não tem soldado. Isso é inaceitável”, criticou.
Euma argumentou que um deputado federal não possui as atribuições de um governador, mas pode exercer pressão política, atuar na legislação, destinar emendas e buscar recursos federais para fortalecer as forças de segurança.
“Precisamos investir em inteligência para nos anteciparmos ao crime organizado e precisamos de tecnologia. Um deputado pode ser parceiro do governador, não apenas destinando emendas, mas ajudando na legislação e principalmente buscando os ministérios, onde não falta dinheiro”, afirmou.
Corrupção entra como quinto eixo
Ao ser questionada sobre problemas históricos de Rondônia nas áreas de saúde, infraestrutura, segurança e desenvolvimento, Euma acrescentou espontaneamente uma quinta prioridade ao debate.
“Essas quatro e mais uma: o combate à corrupção”, respondeu.
Na saúde, defendeu que a atuação pública abandone ações isoladas e passe a considerar os impactos que um mesmo problema provoca em diferentes setores. Como exemplo, citou a violência doméstica.
“Uma mulher vítima de violência sobrecarrega o sistema de saúde. Se desenvolve depressão, deixa de trabalhar, sobrecarrega o sistema previdenciário e isso afeta inclusive a economia. Os assuntos estão relacionados e precisamos enfrentá-los de maneira sistêmica”, explicou.
“Faltam pessoas que vendam Rondônia”
No desenvolvimento econômico, Euma voltou suas críticas para a capacidade de articulação dos representantes políticos do estado. Ela defendeu linhas de crédito, investimentos e melhores condições para microempresários e produtores, mas argumentou que Rondônia também precisa de representantes capazes de atrair capital e abrir mercados.
“Nós vamos ter uma ponte binacional, estamos perto dos portos do Peru, temos hidrovia e mão de obra barata, mas não temos pessoas que vendam Rondônia bem, que articulem para trazer indústria, fábrica e para exportar nossos produtos”, afirmou.
A candidata citou como exemplo uma produtora de derivados de cacau que conheceu durante a Rondônia Rural Show. Segundo Euma, apesar de a empreendedora possuir comprador em Portugal, enfrenta dificuldades para fazer sua produção sair de Ouro Preto do Oeste e chegar a Manaus.
“Isso é muita incompetência dos nossos representantes”, criticou.
Ao longo da entrevista, Euma Tourinho deixou de lado um discurso eleitoral baseado apenas em propostas e concentrou sua estratégia em estabelecer um confronto direto com a atual forma de representação política do estado. Da segurança pública ao Supremo, passando pelo Congresso, corrupção e articulação com o governo federal, a candidata sustentou que Rondônia não sofre apenas com falta de recursos, mas principalmente com a maneira como seus interesses são defendidos nos espaços de poder.
“Rondônia poderia ser uma terra próspera”, afirmou Euma, ao defender que a mudança dessa realidade passa por uma representação capaz de enfrentar interesses poderosos, cobrar resultados e abrir as portas de Brasília para o estado.
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