Fundado em 11/10/2001
porto velho, segunda-feira 14 de setembro de 2026

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta segunda-feira (14/09) recebeu o jornalista e ex-deputado estadual Luiz Gonzaga da Costa para uma análise sobre as transformações da política em Rondônia e a crise de confiança que, na avaliação do entrevistado, ultrapassou os limites dos partidos e alcançou instituições fundamentais do país.
Deputado estadual eleito em 1986 e integrante da segunda legislatura da Assembleia Legislativa de Rondônia, Gonzaga recorreu à experiência no Parlamento para traçar um paralelo entre a política praticada nas primeiras décadas do Estado e o atual cenário. Para ele, uma das mudanças mais profundas está no comportamento de quem chega ao poder.
Ao ser questionado sobre o que separa a política de sua época daquela praticada atualmente, o ex-deputado estadual resumiu sua avaliação em uma expressão contundente.
“É a falta de honra. Hoje, muita coisa foi banalizada e se aposta na impunidade”, afirmou.
Gonzaga lembrou que integrou a Assembleia responsável pela elaboração da Constituição de Rondônia e destacou que o trabalho parlamentar buscava reunir demandas de diferentes municípios para construir discussões de alcance estadual. Segundo ele, a representação política exigia uma visão que ultrapassasse os interesses exclusivamente locais.
O ex-deputado estadual também recordou que Cacoal elegeu quatro parlamentares estaduais naquele período, cenário que, para ele, demonstrava a força política alcançada pelo município. Ligado historicamente à cidade, Gonzaga ressaltou que mantém até hoje seu domicílio eleitoral em Cacoal.
A comparação entre passado e presente também chegou à relação dos representantes com a população. Gonzaga reconheceu que as redes sociais facilitaram o contato entre políticos e eleitores, especialmente diante das grandes distâncias de Rondônia. Ao mesmo tempo, a entrevista resgatou um período em que campanhas e mandatos dependiam mais da presença física, das visitas às comunidades e do contato direto com o eleitor.
Na avaliação do jornalista e ex-deputado estadual, o rádio cumpria parte dessa função quando ainda não existiam as ferramentas digitais disponíveis atualmente. “Hoje já existe essa facilidade”, disse, ao lembrar das dificuldades que parlamentares enfrentavam para manter comunicação constante com municípios distantes da capital.
Outro ponto levantado foi a perda de referências políticas capazes de representar setores específicos da sociedade. Durante a conversa, Gonzaga e Arimar Souza de Sá recordaram lideranças que mantinham relações próximas com determinadas categorias e exerciam influência direta nos debates públicos de Rondônia.
Ao analisar a relação entre a Assembleia Legislativa e o Governo do Estado durante seu mandato, Gonzaga lembrou que fazia oposição ao então governador Jerônimo Santana. Apesar das divergências, afirmou que existia interlocução institucional entre os poderes e comparou aquele ambiente ao cenário político contemporâneo.
“Era mais fácil administrar. Não havia essa arenga que existe hoje”, avaliou.
O financiamento da atividade política também entrou no debate. Gonzaga comparou a realidade de sua legislatura com o atual modelo de fundos partidários e eleitorais e defendeu fiscalização sobre a aplicação desses recursos. Segundo ele, naquela época, a atuação dos deputados diante do orçamento estadual estava concentrada essencialmente na discussão e votação das propostas encaminhadas pelo Executivo.
A qualidade dos debates parlamentares foi outro alvo de críticas. O ex-deputado estadual recordou embates políticos travados por nomes de diferentes campos ideológicos e disse enxergar uma perda de qualidade na discussão pública.
Para Gonzaga, divergências políticas não impediam a existência de debates consistentes entre situação e oposição. “Era um debate sadio”, afirmou ao recordar a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal de Porto Velho de outras épocas.

A entrevista avançou do cenário rondoniense para a crise institucional brasileira. Gonzaga demonstrou preocupação especialmente com a confiança da população na Justiça e afirmou considerar grave que cidadãos passem a questionar justamente as instituições às quais recorrem como última instância para garantir seus direitos.
“Você vê pessoas do mais alto quilate, em um patamar da Justiça onde se deposita a última esperança, e isso causa tristeza e preocupação”, declarou.
O ex-deputado estadual também defendeu mudanças no modelo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Para Gonzaga, o formato atual favorece vínculos políticos decorrentes das indicações feitas pelo presidente da República e da posterior aprovação pelo Senado.
Na avaliação dele, o país deveria discutir alternativas que estabelecessem critérios diferentes de ingresso e permanência na Corte.
“Precisa mudar. Poderia haver concurso público e mandato com data de entrada e de saída. Ministro não vai para lá fazer política, vai para fazer Justiça”, defendeu.
Gonzaga ainda criticou indicações de pessoas próximas a presidentes da República para o Supremo e sustentou que relações pessoais ou políticas não deveriam interferir na percepção de independência da Corte. Para ele, a discussão não deve ser reduzida à disputa entre direita e esquerda ou entre apoiadores de Lula e Bolsonaro.

Ao longo da entrevista, o ex-deputado estadual relacionou a crise nacional às mudanças observadas na própria política de Rondônia. Para Gonzaga, instituições fortes dependem não apenas das regras formais, mas também da postura daqueles que recebem do eleitor a responsabilidade de exercer cargos públicos.
Ao revisitar sua passagem pelo Parlamento e as primeiras décadas da formação política de Rondônia, Luiz Gonzaga apresentou uma leitura crítica da transformação do poder no Estado e no país: a tecnologia aproximou representantes e eleitores, mas, em sua avaliação, não substituiu valores que considera essenciais para a vida pública.
“Quem se habilita para bater à porta do cidadão e pedir para representá-lo precisa entender que aquilo não é uma sobrevivência”, afirmou, ao defender que mandato público seja tratado como responsabilidade de representação, e não como instrumento de interesse pessoal.
ASSISTA A ENTREVISTA COMPLETA E AO VIVO AQUI: