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    porto velho, sexta-feira 23 de janeiro de 2026

Técnica brasileira reduz dor da hérnia de disco sem cirurgia; entenda


CNN

Publicada em: 22/01/2026 11:15:58 - Atualizado

Uma das principais causas de afastamento do trabalho e incapacidade física no mundo, a hérnia de disco lombar é uma doença da coluna na qual o anel fibroso (a camada externa da estrutura) se rompe e o material gelatinoso do disco sai de sua posição normal. Abaulado ou rompido, esse elemento cartilaginoso pode ocupar o espaço onde passa a raiz nervosa.

O resultado desse processo de desgaste e ruptura é uma das dores mais intensas e paralisantes que um ser humano pode sentir: a radiculopatia lombar, popularmente conhecida como dor ciática. Mais do que um "incômodo nas costas", ela é uma dor do nervo que frequentemente leva pacientes aos serviços de emergência.

Recentemente, um estudo publicado na revista International Journal of Spine Surgery, conduzido por pesquisadores brasileiros, propõe uma abordagem terapêutica capaz de aliviar rapidamente essa dor excruciante, com menor uso de medicamentos e, na maioria dos casos, sem precisar de cirurgia.

O foco do estudo foi avaliar a eficácia da chamada infiltração epidural transforaminal infraneural, um procedimento minimamente invasivo no qual, orientado por exames de imagem, o médico aplica um medicamento anti-inflamatório diretamente na região onde a raiz nervosa está inflamada ou comprimida na coluna.

Embora infiltrações de corticoides na coluna já sejam utilizadas para tratar dores agudas que não melhoram com comprimidos, o diferencial do estudo atual, além da aplicação do medicamento no ponto exato da inflamação, está no melhor controle da dose. Por atingir o alvo com precisão, não há necessidade de doses altas do hormônio.

Reduzindo as dores e dando tempo ao processo natural de cura

Entrevistado pela CNN Brasil, o pesquisador principal do estudo, Francisco Sampaio Júnior, do Hospital Sírio-Libanês, explica que, além de mirar em uma região inferior ao chamado Triângulo de Kambin — uma área de segurança natural na coluna vertebral que permite ao médico acessar o disco sem ferir os nervos — a equipe usa uma agulha mais grossa e mais rígida.

Diferentemente da técnica convencional que, por variações anatômicas existentes, pode chegar a puncionar perigosamente o nervo ou a artéria foraminal, na nova abordagem “quem define o trajeto que a agulha irá percorrer é a nossa mão: se você erra a mão para dentro, toca em osso na face externa da faceta; se erra para fora, toca no processo transverso”, explica o neurocirurgião desenvolvedor do método.

Ao analisar 99 pacientes que já não respondiam a tratamentos convencionais, como fisioterapia e analgésicos orais, a equipe obteve resultados importantes. Conforme o estudo, a técnica alcançou uma taxa de sucesso de 85,9% após seis meses, ou seja, os pacientes permaneceram livres da dor radicular, eliminando a necessidade de cirurgia.

Segundo Sampaio Júnior, a literatura médica indica que cerca de 65% das hérnias de disco são reabsorvidas espontaneamente pelo organismo. “O desafio” — diz o especialista — “é que esse processo natural é lento. A infiltração atua justamente como uma ponte, controlando a dor aguda para que o paciente consiga aguardar essa cura natural”.

No entanto, alerta o especialista, esse procedimento não é para dor crônica, e nem para pacientes com crises agudas incapacitantes. Aqueles com “sinais de sofrimento neurológico como déficit motor (perna fraca, pé fraco, bobo, não obedecendo comandos), têm que partir para a cirurgia como primeira opção”, explica, para não correr o risco de uma lesão definitiva.

Possível cura a baixo custo: qual o futuro do tratamento?

Indagado sobre a eficácia do tratamento, Sampaio Júnior foi categórico: "O procedimento aparentemente cura a hérnia em questão”. Porém, alerta: pacientes que têm hérnia (ruptura do anel fibroso) podem sofrer uma recaída (recidiva) da doença, cuja causa é uma somatória de fatores:

Dessa forma, quando você trata uma hérnia — seja com tratamento conservador, com o procedimento estudado ou com cirurgia — ela pode acontecer novamente: no mesmo disco ou em outros. Ou seja, “o paciente que não mudou os seus maus hábitos de vida, que não corrigiu postura, não fortaleceu musculatura e o core, invariavelmente vai ter novas hérnias” afirma o neurocirurgião.

Isso ocorre porque não é o corticoide que cura, mas sim a hérnia que tende a ser absorvida. Caso surjam novas hérnias no futuro, o procedimento pode ser repetido com a mesma segurança. E, como a maioria dos participantes do estudo estava na faixa etária economicamente ativa, o tratamento pode ser uma solução viável para um grave problema de saúde pública.

Como se trata de uma técnica extremamente eficaz e realizada com uma agulha de metal rígido (reutilizável após esterilização) que custa entre R$ 150 e R$ 200, “o custo é muito baixo e pode ser reproduzido em qualquer parte do Brasil ou do mundo, exigindo apenas um fluoroscópio (disponível na maioria dos hospitais) e um profissional bem treinado”, diz Sampaio Júnior.

O próximo passo é a realização de estudos multicêntricos, ou seja, replicar o procedimento em outros hospitais ao redor do mundo. O objetivo, segundo o médico brasileiro, é eliminar o viés da expertise, “para que a técnica se comprove eficaz em qualquer mão, e não só na mão do cirurgião que a desenvolveu”, conclui.




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