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porto velho, sexta-feira 27 de março de 2026

O aumento das temperaturas no Brasil não afeta apenas o clima, mas também o desenvolvimento de milhões de crianças.
Um estudo inédito da Fiocruz, publicado no periódico The Lancet, aponta que cada elevação de 1°C na temperatura ambiente acima de 26°C está associada a uma maior chance de desnutrição infantil. A pesquisa analisou dados de mais de 6 milhões de crianças entre 1 e 5 anos, coletados entre 2007 e 2017 em todo o país.
Os achados, conduzidos pelo Cidacs (Centro de Integração de Dados e Conhecimento em Saúde), da Fiocruz Bahia, revelam que o calor excessivo esteve ligado a 10% mais chance de baixo peso, 8% para desnutrição aguda e 8% para desnutrição crônica.
Para a pesquisadora Priscila Ribas, uma das autoras do estudo, esses resultados mudam a percepção sobre o calor, que passa de um simples desconforto para um determinante da saúde infantil.
"Temperaturas elevadas desencadeiam um efeito cascata: reduz o apetite, altera o metabolismo infantil, aumenta a chance de episódios agudos de diarreia.
A pesquisa detalha que os efeitos do calor não são imediatos e se manifestam em ritmos distintos. Para baixo peso e desnutrição aguda, os impactos surgem rapidamente, entre zero e três semanas após a exposição.
Já a baixa estatura, um indicador de desnutrição crônica, mostrou um padrão diferente, com o aumento da chance aparecendo semanas depois e relacionado à exposição contínua ao calor ao longo do tempo.
"Embora alguns impactos agudos possam ser temporários, a exposição prolongada a temperaturas elevadas pode ter efeitos permanentes no desenvolvimento físico e cognitivo da criança", diz Priscila Ribas.
O estudo também identificou diferenças entre grupos. Meninas apresentaram maior proporção de baixo peso e desnutrição aguda, enquanto o atraso no crescimento foi mais frequente entre meninos.
O cenário mais crítico foi observado entre crianças indígenas, com 6,72% abaixo do peso e 26,65% com atraso no crescimento. Entre as crianças pretas, 5,86% tinham desnutrição aguda e 9,32% apresentavam atraso no crescimento.
A pesquisa da Fiocruz destaca que o calor não afeta a todos da mesma forma, interagindo intensamente com as desigualdades socioeconômicas.
"O estudo oferece uma nova perspectiva sobre como as " target="_blank" rel="noopener noreferrer">mudanças climáticas afetam crianças
Os riscos foram maiores em regiões como Norte e Nordeste, em áreas rurais e entre crianças filhas de mães indígenas e pretas, evidenciando uma profunda vulnerabilidade socioambiental.
A pesquisadora expressa preocupação com as mudanças climáticas futuras, pois períodos prolongados de calor podem reduzir a produtividade agrícola, encarecer alimentos e diminuir a diversidade alimentar.
"Isso gera um duplo impacto nas famílias mais pobres: a redução da disponibilidade de alimentos e a perda de renda, em particular, para pequenos produtores, forçando uma transição para dietas de menor qualidade nutricional, diz Priscila.
Para a saúde pública, os resultados reforçam a necessidade de um novo olhar, já que temperaturas elevadas também aumentam a suscetibilidade a doenças infecciosas e parasitárias, fragilizando o sistema imunológico e comprometendo a absorção de nutrientes. Os autores sugerem o fortalecimento do monitoramento nutricional, especialmente durante e após períodos de calor intenso.
Priscila Ribas aponta para a necessidade de políticas multissetoriais e direcionadas. "Reforçar programas como o Bolsa Família em regiões mais afetadas pelo calor, garantindo que a insegurança alimentar causada pelo clima seja mitigada." Ela também destaca a importância de políticas de adaptação climática com foco em equidade, priorizando intervenções nas regiões mais vulneráveis.
"Ao tratar o calor como um risco estrutural, o Brasil pode liderar o caminho para políticas públicas que protejam o desenvolvimento infantil em um planeta em aquecimento, garantindo que o clima não altere negativamente o futuro nutricional das nossas crianças", diz a especialista da Fiocruz.