Fundado em 11/10/2001
porto velho, sexta-feira 15 de maio de 2026

Mulheres com câncer de mama que usaram agonistas do receptor de GLP-1 — classe de medicamentos indicada para diabetes tipo 2 e obesidade — apresentaram menor risco de morte e de recorrência da doença em até 10 anos de acompanhamento, segundo um estudo realizado nos Estados Unidos.
A mortalidade por todas as causas foi aproximadamente 60% menor tanto em cinco quanto em dez anos entre usuárias de GLP-1 RA em comparação com não usuárias. E a redução foi ainda maior quando as usuárias foram comparadas a um grupo que utilizava insulina ou metformina.
A pesquisa analisou dados de mais de 841 mil pacientes com câncer de mama atendidas em 68 organizações de saúde dos EUA entre 2006 e 2023. Após exclusões e ajustes estatísticos, os pesquisadores compararam grupos de mulheres que utilizaram agonistas de GLP-1 com pacientes que não usaram os medicamentos ou que receberam outros tratamentos para diabetes.
Como o estudo é observacional, o as descobertas mostram associações em vez de causalidade. Por isso, os autores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados para confirmar os achados.
O estudo avaliou se o uso de agonistas de GLP-1 estava associado a:
Os agonistas de GLP-1 são medicamentos já utilizados para tratamento de diabetes tipo 2 e perda de peso. Segundo os autores, obesidade e diabetes estão associados a pior prognóstico no câncer de mama, incluindo maior risco de progressão da doença, recorrência e redução da sobrevida.
Além disso, estudos pré-clínicos já haviam sugerido que esses medicamentos poderiam inibir o crescimento tumoral em alguns tipos de câncer, incluindo o de mama.
Entre as pacientes com obesidade, os pesquisadores compararam mulheres que utilizaram agonistas de GLP-1 com aquelas que não usaram a medicação. Após o pareamento estatístico, foram analisadas 1.610 pacientes.
Segundo os resultados:
O uso dos medicamentos também foi associado a:
Na análise estatística, o risco de mortalidade foi 65% menor na análise não ajustada e permaneceu reduzido após ajustes adicionais. Já a associação com menor recorrência também continuou significativa após os ajustes estatísticos.
Entre mulheres com diabetes tipo 2, os pesquisadores compararam pacientes que utilizaram agonistas de GLP-1 com aquelas tratadas com insulina ou metformina.
Nesse grupo:
O estudo também encontrou associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e:
Os pesquisadores também compararam os agonistas de GLP-1 com os inibidores de SGLT2, outra classe usada no tratamento do diabetes tipo 2.
Nesse caso, não houve diferença significativa nos índices de mortalidade ou recorrência entre os grupos analisados.
Nenhum estudo havia encontrado uma diferença de sobrevida tão grande associada ao uso de GLP-1 RAs em uma população de mulheres com câncer de mama ou qualquer outro tipo de câncer.
Na discussão do estudo, os autores afirmam que os resultados reforçam a hipótese de que os agonistas de GLP-1 possam oferecer benefícios além do controle glicêmico e da perda de peso.
Segundo os pesquisadores, obesidade no momento do diagnóstico e ganho de peso durante o tratamento do câncer estão associados a piores desfechos clínicos. Os medicamentos da classe GLP-1 poderiam contribuir para perda de peso e melhora cardiovascular, fatores potencialmente relacionados aos resultados observados
Os autores ressaltam que a pesquisa apresenta limitações importantes. Entre elas:
Os pesquisadores afirmam que os resultados são promissores, mas que ainda existem lacunas importantes sobre os mecanismos envolvidos e que novos estudos prospectivos serão necessários para confirmar os efeitos observados.
Bernard F. Fuemmeler, um dos autores do estudo, explicou ao g1 que há três vias potenciais que merecem estudos adicionais:
O autor acrescentou ainda que não foram avaliadas as diferentes classes de GLP-1 porque o estudo foi uma análise inicial da relação entre GLP-1 e os desfechos do câncer de mama. Além disso, seria difícil fazê-lo, porque as classes de GLP-1 e medicamentos relacionados evoluem rapidamente.
Entre as pacientes com diabetes tipo 2 e câncer de mama, foram comparadas aquelas com histórico de prescrição de GLP-1 com aquelas que usavam outros tipos de medicamentos para diabetes, incluindo insulina, metformina e inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (SGLT2).
Foram observados desfechos mais favoráveis, incluindo maior sobrevida e menor probabilidade de recorrência, para aquelas que usavam GLP-1 em comparação com aquelas que usavam insulina e metformina. Também houve resultados mais favoráveis entre as que receberam prescrição de GLP-1 em comparação com as que receberam prescrição de SGLT2, mas as diferenças entre esses dois grupos foram menos expressivas.
“Isso é interessante, pois ambos os medicamentos têm benefícios cardiometabólicos em pacientes com diabetes tipo 2, e os resultados podem indicar como esses medicamentos melhoram o funcionamento metabólico, em vez de terem um efeito anticancerígeno”, acrescentou Fuemmeler.
A autora principal do estudo, Kristina L. Tatum, destaca ainda que, se estudos prospectivos e ensaios clínicos confirmarem as associações que os pesquisadores observaram, nossas descobertas poderão ajudar a fornecer orientações clínicas sobre o uso de terapias com agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RA) em pacientes com câncer de mama e doenças metabólicas, incluindo o momento ideal e a personalização do tratamento.
Os pesquisadores também afirmam que os dados de acompanhamento de 10 anos têm precisão limitada devido ao número reduzido de pacientes acompanhadas por períodos tão longos.
A obesidade é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de câncer, sendo responsável por aproximadamente 40% de todos os cânceres diagnosticados nos Estados Unidos. Ela aumenta o risco de desenvolver 13 tipos diferentes de câncer, incluindo cânceres de esôfago, mama, endométrio e colorretal, destaca o professor e chefe do Departamento de Medicina Familiar e Saúde Comunitária da Escola de Medicina Perelman, Richard Wender.
A obesidade também está associada a piores desfechos em vários cânceres, incluindo o câncer de mama.
“Tanto o diabetes tipo 1 quanto o tipo 2 também estão associados ao câncer, embora a causalidade seja menos clara, em parte devido à sobreposição do risco relacionado à obesidade para diabetes tipo 2 e câncer”, diz Wender.
O especialista acrescenta que os agonistas do receptor de GLP-1 transformaram profundamente o manejo da obesidade e do diabetes nos Estados Unidos. Em dezembro de 2025, os GLP-1 já representavam 7% de todas as prescrições nos EUA, incluindo 52% de todas as prescrições para manejo do diabetes.
Por isso, entender a associação entre GLP-1 e câncer está se tornando uma das questões mais importantes na prevenção e no tratamento do câncer, conclui o médico.