• Fundado em 11/10/2001

    porto velho, quinta-feira 2 de julho de 2026

E onde está a “verdade”?


Por Walterlina Brasil

02/07/2026 18:54:48 - Atualizado

Há uma cena na peça O Homem de Nazaré, do Grupo Teatral Êxodo (Rondônia), que sempre retorna quando penso na verdade: Pilatos, inquieto, pergunta a Cláudia “E o que é a verdade? Como posso reconhecê-la?”, ao que ela responde, devolvendo-lhe um espelho: “Se tu não podes reconhecê-la, como posso eu dizê-la a ti?”

Esse diálogo, que à primeira vista parece uma busca filosófica, é na verdade uma manobra de distração porque Pilatos não procurava compreender a verdade, mas escapar dela. A força da cena reside justamente na revelação de que a verdade não é algo que se entrega a quem a busca como quem procura um objeto perdido; ela exige disposição interior, exige que o sujeito esteja preparado para reconhecê-la.

Pilatos, ali, não buscava uma definição: buscava uma fuga.

A Miopia como Estratégia de Poder

Pilatos não era um homem desinformado. Ele detinha os relatórios, os fatos e o réu. Sofria, porém, de uma “miopia de conveniência”: reconhecer a verdade significava enfrentar o custo político, o desconforto social e a perda de privilégios. Essa miopia não é falha cognitiva, mas um mecanismo clássico de autopreservação como um modo de enxergar apenas aquilo que não ameaça a posição ocupada.

Aristóteles já afirmava que “o verdadeiro é aquilo que é dito conforme o que é”, mas essa definição simples exige uma coragem rara: olhar o mundo sem os filtros do medo. Hannah Arendt, ao analisar os julgamentos morais em contextos de poder, lembrava que a verdade factual é frágil, vulnerável à manipulação e ao esquecimento, mas só deixa de ser reconhecida quando o sujeito perde a capacidade de julgar a partir de si mesmo. De fato, Hannah Arendt, lembrava que regimes e instituições frequentemente constroem zonas de cegueira deliberada para evitar o confronto com aquilo que poderia desestabilizá-los.

Não se trata apenas de manipular fatos, mas de moldar o campo de visão para que certos fatos jamais se tornem visíveis. Pilatos lavou as mãos não por dúvida, mas porque a verdade, quando reconhecida, exigiria dele uma ação que não estava disposto a assumir. A miopia, nesse sentido, funciona como estratégia: ela preserva o cargo, o rito e a narrativa, mesmo que à custa do real.

O julgamento contaminado: quando o exterior invade o interior

Vivemos tempos que nos oferecem mais “evidências” do que qualquer outra, mas nunca estivemos tão cegos. Pilatos não sabia como julgar porque não sabia mais de onde julgava. Seu olhar estava contaminado por medo, conveniências políticas, expectativas sociais, tensões internas; não distante disto, atualmente, Byung-Chul Han observa que o excesso de informação não produz clareza, mas ruído. Assim como Pilatos tinha fatos, mas não coragem para interpretá-los, nós temos dados, mas não disposição para discerni-los e, por consequência, forjamos nossas verdades, chegando a contradizê-las por tantas alterações.

A verdade exige silêncio, discernimento e profundidade. Este são elementos que a economia da atenção, descrita por Shoshana Zuboff, devora diariamente. A tecnologia transformou a verdade em um produto volátil e negociável. Hoje, não buscamos o que é real, mas o que “rende” engajamento, transformando o debate público em um mercado de validações mútuas onde o fato é o primeiro a ser sacrificado ou, quando se impõe, disputado.

A verdade não é sempre agradável. Ela pode ser relativa, mas não é arbitrária. Pode ser desconfortável, mas não é hostil. Pode ser ignorada, mas não deixa de produzir efeitos. A verdade contemporânea não está escondida; está soterrada. Soterrada por distrações, por narrativas que nos protegem do incômodo de pensar, por uma velocidade que impede qualquer profundidade.

Nietzsche advertia que “temos a arte para não morrer da verdade”, mas talvez hoje tenhamos distrações para não viver com ela.

Soterramento do contexto local.

A pergunta de Pilatos continua atual porque revela nossa própria dificuldade: não sabemos mais reconhecer a verdade porque não sabemos mais reconhecer o lugar de onde olhamos. A verdade não é um objeto a ser encontrado; é uma postura a ser cultivada. Cláudia não respondeu porque sabia que a verdade não se impõe. Ela se revela; mas apenas a quem está disposto a vê-la.

Hoje, essa miopia foi institucionalizada e atingiu o topo do prestígio acadêmico no biênio 2024-2025. As quedas das reitoras de Harvard (Claudine Gay) e UPenn (Liz Magill) são lições sobre o perigo de substituir o julgamento moral pelo rito burocrático. Diante de perguntas factuais sobre discursos de ódio, elas se refugiaram em “contextos” e “políticas institucionais”. Como Pilatos, tentaram salvar o procedimento enquanto a realidade pegava fogo.

Quando a verdade factual torna-se um obstáculo para a narrativa de uma gestão, a instituição não apenas erra; ela colapsa em sua finalidade ética. Quando a verdade factual (aquilo que Hannah Arendt chamava de fato bruto e inegociável) torna-se um obstáculo para a narrativa de uma gestão, a instituição não apenas erra; ela colapsa em sua finalidade ética.

Na Universidade Federal de Rondônia – internamente – assistimos à aplicação local do que Jean Baudrillard chamou de “precessão dos simulacros”: quando o rito antecede o real e a forma substitui o conteúdo. Em reuniões acadêmicas, a sensação é de que a ata já está pronta, a votação é meramente procedural e a discussão apenas performatiza uma deliberação que já ocorreu em gabinetes distantes. Esse processo corrói a confiança interna e transforma o debate universitário em mera coreografia administrativa. Externamente, a mídia da própria instituição está autorizada a performar as narrativas em “novas verdades”.

Por fim, a verdade é soterrada pela negação das evidências em favor dessas narrativas escolhidas. Atua-se para transformar uma instituição com dever constitucional de desenvolvimento social em um comitê de embates fragmentários, onde o colapso da carreira docente é forjado sob uma falsa modernidade, presa ao luto do século XXI. Resignados, os/as docentes fazemos nosso trabalho ou negociamos em favor do jogo.

Esse movimento não é apenas erro de julgamento; é autoengano institucional. Assim como indivíduos constroem narrativas para fugir de verdades incômodas, instituições constroem procedimentos para evitar o confronto com o real.

Pode ser uma opção nem tão inconsciente assim; pode ser para não sofrer?

A verdade factual é “despótica” porque não aceita votos, curtidas ou “likes”. Ela simplesmente é. O reconhecimento dessa verdade exige o que Cláudia tentou despertar em Pilatos: a coragem de ser interrompido pelo real. Instituições modernas preferem o “procedimento” ao “fato” para evitar o custo político da decisão, mas o preço dessa escolha é a irrelevância. Entre lavar as mãos e reconhecer o óbvio, seguimos escolhendo o rito.

Mas a verdade, como naquela conversa entre Pilatos e Cláudia, continua ali: esperando apenas que alguém tenha coragem de reconhecê-la.

Saiba Mais.

Arendt, Hannah. Responsabilidade e Julgamento. Companhia das Letras.

Arendt, Hannah. Entre o passado e o futuro. Perspectiva.

Byung-Chul Han. Sociedade do Cansaço. Vozes.

Byung-Chul Han. No Enxame. Vozes.

Zuboff, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Intrínseca.

Ricoeur, Paul. A simbólica do mal. Vozes.

Foucault, Michel. A verdade e as formas jurídicas. NAU Editora.

Nietzsche, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. Companhia das Letras.

Baudrillard, Jean. Simulacros e Simulação. Relógio D’Água.

Agamben, Giorgio. O que resta de Auschwitz. Boitempo.

Charles Taylor. As fontes do self. Loyola.

NOTA: Na tradição cristã posterior aos textos canônicos, a esposa de Pilatos passou a ser chamada de Cláudia Prócula, embora o Evangelho de Mateus não mencione seu nome.


O RONDONOTÍCIAS preserva integralmente a liberdade de opinião de seus colaboradores, não interferindo no conteúdo dos textos assinados, cuja responsabilidade é exclusiva de seus autores, não refletindo, necessariamente, a posição institucional do jornal.
Os comentários são via Facebook, e é preciso estar logado para comentar. Os comentários são inteiramente de sua responsabilidade.