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    porto velho, sábado 31 de janeiro de 2026

Assassinato de mulher em condomínio é sintoma de um país adoecido, diz psicanalista

Um crime que expõe como o autoritarismo cotidiano, quando normalizado, pode escalar do controle simbólico à violência extrema em espaços privados


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Publicada em: 30/01/2026 09:54:57 - Atualizado

BRASIL: O síndico do Edifício Master, personagem registrado por Eduardo Coutinho no documentário homônimo, de 2002, apresentava-se como alguém que dominava teorias de Piaget e que aplicava, na prática cotidiana do prédio, o que chamava de “lei de Pinochet” sobre os moradores considerados "indesejáveis". A frase não era apenas uma excentricidade: revelava uma concepção de poder fundada na hierarquia rígida, na obediência e na punição como método de gestão da convivência. Ali, no microcosmo de um condomínio em Copacabana, Coutinho captou algo que vai além do indivíduo: a naturalização do autoritarismo travestido de organização.

Décadas depois, em Caldas Novas, Goiás, uma mulher desaparece e é encontrada morta. Os autores do crime, segundo as investigações, são o síndico do prédio onde ela morava e o filho dele. O cenário é outro, o desfecho é trágico, mas o eixo simbólico é semelhante: a vida em condomínio como espaço onde pequenos poderes se acumulam, se confundem com autoridade moral e, em situações de conflito, transbordam em violência.

No livro "Mal-estar, sofrimento e sintoma" o psicanalista Christian Dunker, ao analisar a vida condominial, chama atenção para o condomínio como laboratório social do Brasil contemporâneo. Muros, regras internas, assembleias, câmeras e síndicos produzem a ilusão de ordem e segurança. Ao mesmo tempo, criam um ambiente propício à personalização do poder. O síndico deixa de ser um representante temporário dos moradores e passa a ocupar o lugar de guardião da norma, intérprete da lei e, em certos casos, juiz informal. Quando esse lugar simbólico encontra sujeitos que não toleram a contestação, o conflito deixa de ser administrativo. Especialmente se quem contesta a ordem e a autoridade for uma mulher.

No caso de Caldas Novas, a vítima era uma moradora que não abaixou a cabeça para uma série de ofensas, no grupo de WhatsApp, feitas pelo síndico e o filho. Como resposta, eles passaram a perseguir e sabotar serviços básicos, como o acesso ao fornecimento de energia -- razão que a fez descer o elevador para religar o disjuntor. Foi vista assim pela última vez.

Esse dado não é acessório. O Brasil registra, ano após ano, índices elevados de violência contra mulheres e feminicídio. As estatísticas mostram que grande parte desses crimes ocorre em ambientes de proximidade: casa, vizinhança, trabalho. O condomínio, vendido como espaço de proteção, também é um desses lugares. A violência não surge do nada; ela se inscreve em relações cotidianas marcadas por desigualdade de gênero, controle e ressentimento.

Há um ponto recorrente nesses episódios: a dificuldade masculina em lidar com o questionamento vindo de uma mulher. Quando esse homem ocupa uma posição que lhe confere algum grau de mando — ainda que restrito ao portão, ao interfone, à taxa condominial — o desacordo passa a ser vivido como afronta. O que era um papel administrativo se converte em identidade. O que era um poder limitado se transforma em poder absoluto.

O ódio às mulheres não precisa ser declarado para operar. Ele se manifesta na recusa ao diálogo, na necessidade de impor silêncio, na transformação do conflito banal em caso de honra. O feminicídio, nesse sentido, não é um desvio isolado, mas o ponto final de uma cadeia de práticas e crenças socialmente toleradas. O síndico do Edifício Master que evocava Pinochet como método e o síndico de Caldas Novas acusado de assassinato pertencem a contextos distintos, mas são atravessados pela mesma lógica: a crença de que a ordem se mantém pela força e de que o poder não admite contestação.

A revolta diante desses casos não nasce apenas da brutalidade do ato final, mas do reconhecimento de um padrão. Vivemos em um caldo cultural em que o ódio circula como linguagem política e cotidiana. Nesse ambiente, desentendimentos triviais acumulam tensão até encontrar uma faísca. Quando a raiva encontra um sujeito investido de pequeno poder, o barril de pólvora está armado. O resultado é conhecido, repetido e, ainda assim, tratado como exceção. Enquanto o controle for confundido com autoridade e a contestação feminina for lida como ameaça, a violência continuará a encontrar justificativas antes mesmo de encontrar as duas vítimas.


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