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    porto velho, quarta-feira 29 de abril de 2026

Golpistas usam IA para criar mulheres com deficiência e vender conteúdo falso na web

O Brasil tem 8,3 milhões de mulheres com deficiência, segundo o IBGE.


metropoles

Publicada em: 28/04/2026 11:11:56 - Atualizado


Perfis criados com inteligência artificial simulam mulheres com deficiência para aplicar golpes e vender conteúdos adultos. “Será que eu nunca vou me casar só porque eu sou PcD?”: a frase aparece em vídeos que seguem um mesmo padrão. Neles, jovens surgem chorando ou relatando solidão. Por trás, há um esquema voltado ao lucro.

As personagens variam: mulheres amputadas, cadeirantes, com vitiligo ou nanismo. Em alguns casos, perfis simulam até gêmeas siamesas com aparência realista. Tudo é criado digitalmente para atrair atenção e engajamento.

Nos comentários, homens alternam entre elogios e investidas sexuais. “Boa tarde, meu amor. Você acabou de encontrar um homem que vai te amar”, escreveu um usuário. “Oi, loira gostosa”, comentou outro. “Você é linda, ganhou mais um seguidor”, disse um terceiro.

De forma discreta, esses perfis divulgam links para supostos grupos pagos com conteúdo adulto. Em alguns casos, o material até existe. Em outros, trata-se apenas de fraude.

Um usuário anônimo relatou ter sido enganado após pagar por acesso ao conteúdo de uma criadora chamada Luiza. “Essa mina do insta compartilha link de bot de Telegram. Após o pix, o bot manda um link falso expirado de grupo. Cuidado, não é verdadeiro, infelizmente eu cai, mas espero ajudar alguém”, escreveu.

Fetiche e objetificação

O Brasil tem 8,3 milhões de mulheres com deficiência, segundo o IBGE. Amparadas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, elas têm direito à autonomia sobre o corpo e a reprodução. Ainda assim, na prática, esse direito esbarra em mecanismos que, impulsionados pela tecnologia, transformam seus corpos em mercadoria no ambiente digital.

O fetiche por pessoas com deficiência é conhecido como devotismo. Especialistas ouvidas pelo Metrópoles reconhecem a prática, mas alertam para a objetificação em conteúdos gerados por IA.

A psicóloga e sexóloga Priscilla Souza, que é uma mulher com deficiência, afirma que esse material distorce a realidade e cria visões equivocadas sobre sexualidade.

“O jovem ou mesmo adulto, ele vai criar uma imagem do bizarro, do fetiche”, afirma. “Quando você joga isso num grupo excluído e marginalizado, isso faz muito mal para aquele grupo, porque a gente luta o tempo todo para ser enquadrado no mundo dos seres humanos normais, porque nós somos normais.”

Rosana Lago, presidente da Frente Nacional das Mulheres com Deficiência, pontua que simular corpos e experiências de PcDs “fere a dignidade” e pode afetar a autoestima de mulheres reais, além de distorcer a forma como a sociedade enxerga essa população.

“A imagem dessa mulher com deficiência está sendo criada como algo fetichizado, exótico ou digno de pena”, reflete. “Quando a deficiência é o único elemento de interesse e reduz a essa mulher um objeto, isso é um problema.”

Antes da IA, o devotismo já aparecia em revistas e filmes adultos. Com a tecnologia, o controle das próprias mulheres sobre a representação de seus corpos se tornou ainda mais limitado. Lago ressalta a diferença entre autonomia e exploração.


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