Fundado em 11/10/2001
porto velho, quinta-feira 25 de junho de 2026

Vingança é um prato que se come frio, e Michelle Bolsonaro esperou sete meses para lavar com cuspe as roupas sujas do enteado Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Não dentro de casa, como geralmente acontece, mas nas redes sociais.
O timing parecia calculado, só não muito certo. O Brasil inteiro estava na frente da TV para assistir ao jogo entre a seleção comandada pelo técnico Carlo Ancelotti e a Escócia. Flávio, inclusive. Fardado com a amarelinha, símbolo usurpado do bolsonarismo há pelo menos duas Copas, ele tinha acabado de postar um vídeo, gerado por Inteligência Artificial, em que aparecia como protagonista do resgate do soldado Neymar na Copa do Mundo. Seria um sucesso, não fosse um fracasso.
O objetivo era claro: ganhar do camisa dez da seleção uma piscadela que levasse seus milhões de fãs e seguidores a embarcarem em peso na candidatura do Zero Um à Presidência.
Ele só não contava com a entrada de sola da madrasta minutos antes da bola rolar.
Entre outras acusações, a ex-primeira-dama disse ter sido humilhada pelo presidenciável devido a discordâncias na formatação da chapa do PL no estado do Ceará. Disse também que é alvo de notícias plantadas nos Estados Unidos, onde vive Eduardo Bolsonaro. A certa altura, usou o plural para se referir aos “enteados”. E que era tratada como “idiota” por eles.
Mais do que isso, Michelle afirmou que não agia sem antes consultar o marido, Jair Bolsonaro. Aí é que está o nó. Flávio garante que foi o próprio pai quem o ungiu candidato à Presidência. De que lado o patriarca está nessa história? Não sabemos.
Bolsonaro endossaria mesmo o tiro de canhão disparado pela companheira a essa altura do campeonato contra o próprio filho? Ou os estilhaços também acertaram o ex-presidente?
Isolado na prisão domiciliar, e sem poder se comunicar nem dar entrevista, a posição do “galego”, como é chamado por Michelle, é uma incógnita.
Fato é que Michelle deixou claro (e nomeado) que Flávio, caso mantenha a candidatura, vai marchar em um partido rachado até outubro. De um lado está o grupo de Michelle e Valdemar Costa Neto, dono do PL e espécie de padrinho político da ex-primeira-dama. Flávio tem o apoio dos irmãos, se muito. O resto são insetos em volta das lâmpadas – e eles se mandam assim que uma delas apagar.
Os vídeos compartilhados por Michelle têm potencial de estrago considerável numa candidatura que já bambeia devido ao envolvimento do enteado no escândalo do Banco Master. Para ser eleito, Flávio precisa tirar de Lula a diferença de votos entre mulheres. E ampliar o apoio entre evangélicos.
Michelle é a interlocução do clã com os dois grupos. E vai ser difícil para Flávio conquistar esses votos com fama de quem maltrata (mesmo por telefone) uma mulher e depois vai pedir dinheiro para um banqueiro que pagava festas, bebidas e prostitutas para montar um império financeiro a partir das conexões políticas.
Flávio vai precisar mais do que o apoio de Neymar para chegar à fase seguinte da campanha.