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    porto velho, sábado 5 de abril de 2025

Crônica de fim de semana: Sílvia Cristina – Da cicatriz ao Poder - A mulher que enxergou os invisíveis

Vi discursos inflamados que viraram cinzas antes de tocarem o chão.


Arimar de Sá

Publicada em: 04/04/2025 20:23:55 - Atualizado

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - SÍLVIA CRISTINA –

Da cicatriz ao Poder - A mulher que enxergou os invisíveis

Arimar Souza de Sá

Desde 1981, há quarenta e quatro anos, portanto, comecei a escrever crônicas sobre política em Rondônia.

Atuei nos jornais ‘O Alto Madeira’, ‘A Tribuna’, ‘O Guaporé’ e o Estadão do Norte, além de realizar entrevistas nos Programas: A Hora do Povo da Rádio Rondônia e A Voz do Povo, nas Rádios Cultura e Caiari e Rede TV, como os programas Ponto de Exclamação e Rondônia em Debate, e creio que já devo ter entrevistado pelo menos dez mil pessoas.

Nas minhas entrevistas passou gente do povo, mas também Governadores, deputados, senadores, ministro, prefeitos. Vi promessas brilharem como fogos de artifício e derreterem no céu escuro da frustração, picadas que foram pela mosca azul do poder.

Vi discursos inflamados que viraram cinzas antes de tocarem o chão. Convivi com homens cultos, incultos e também demagogos, picaretas de todas as espécies nos estúdios das rádios e TVs nas quais passei. A política, aprendi cedo, é, sem dúvidas, uma vitrine de vaidades.

Mas um dia, entre um evento e outro, encontrei, durante uma entrevista, um olhar diferente. Um olhar que não pedia holofotes — acolhia. Que não buscava palanque — procurava mãos. Era da deputada federal Sílvia Cristina. E, desde então, confesso: minha forma de ver a política e os políticos mudou com ela.

Pesquisando sua trajetória, li que foi no seu próprio corpo que a vida esculpiu a promessa mais profunda: o câncer no seio não foi apenas um diagnóstico, foi um chamado, um ponto de partida. Ao sair da luta curada da doença, jurou a si mesma — e ao Deus - que nunca abandonou — que viveria para que outras mulheres tivessem a chance que ela teve – a vida de volta. E desde então, sua jornada como parlamentar tem sido a de uma mulher que semeia hospitais como quem planta esperança em terra seca, porque sabe que a dor é dilacerante e não espera a promessa de quem não se movimenta para servir.

Em Ji-Paraná, ergueu um templo contra o câncer. Em Porto Velho, um abrigo de luxo e tecnologia para reabilitar corpos e almas feridos. Em Vilhena, outro hospital - um farol de cuidado para um povo sedento de dignidade. Não foram promessas lançadas ao vento, foram compromissos cumpridos, em obras de concreto e humanidade. Imagino que em cada parede, em cada sala, em cada peito das pessoas que ajudou, deve haver um pedaço da sua história reservado e o preito de admiração.

Mas Sílvia, pelo que tenho visto, não se limita a inaugurar prédios, ela os equipa com suas emendas. E diferente de outros políticos, não anda cercada por seguranças, atende ligações às 23h, dirige o próprio carro, sem motorista nem blindagem. Anda pela BR-364 como quem enfrenta um campo de batalha e enfrenta mesmo — o descaso, a falta de estrutura, a indiferença institucional.

Sua coragem como jornalista/parlamentar, não está só no microfone e no plenário da Câmara Federal, mas no asfalto da BR-364, porque ela não nasceu nos gabinetes, mas sim nos becos quentes da vida real. Veio do chão batido de Linhares-ES, da pele que conhece o sol, da luta diária onde o pão não é certeza e a dignidade é batalha quase sempre nunca ganha. Uma mulher negra, pobre, que ousou desafiar o destino que o sistema costuma reservar aos invisíveis.

E, enquanto muitos parlamentares apertam mãos por conveniência, ela segura mãos por compaixão e age. Escuta catadores de lixo como se fossem ministros e trata cadeirantes como reis. Chora junto com mães que lutam por filhos especiais ou acometidos de câncer. E quando organiza eventos como ‘Mulheres que Transformam’, não são as joias da coroa da sociedade e rondoniense que brilham — são as mulheres batalhadoras da vida real e suas histórias de dor e lamento. O glamour, com ela, não é para as ‘dondocas’, mas para as guerreiras invisíveis do dia a dia da vida real deste Estado.

Sílvia Cristina é diferente! É feita de outro barro. É a mulher que conhece a dor e, por isso, tem pressa. É a política que sente, que chora, que se move, que desce do púlpito para abraçar quem sofre. Que transformou sua ferida em farol e se guia por ele.

Já entrevistei muita gente, como dito acima, já ouvi de tudo. Mas confesso: nunca vi uma figura como ela. Ao refletir sobre sua jornada, é impossível não me sentir movido por uma profunda admiração.

Sílvia não faz política para subir. Faz política para erguer os outros, principalmente os sem saúde. E talvez seja isso que tanto me comove e me anima escrever sobre ela.

Porque seu trabalho, permeado de riscos e repleto de compaixão, é um testemunho de que a verdadeira liderança emerge não apenas das decisões tomadas em salas fechadas, mas do coração aberto às estradas e às pessoas que nelas vivem.

Por fim, devo dizer-lhes que tenho acompanhado com agradável surpresa seu mandato e o defino como uma tapeçaria rica em atos de amor e coragem, um mosaico de esperança voltado aqueles a quem a sorte passou ao largo e a vida dura deu de ombros e virou as costas, lamentavelmente.

AMÉM!


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