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porto velho, terça-feira 20 de janeiro de 2026

PORTO VELHO - RO - O tabuleiro político de Rondônia continua cercado de incertezas e desconfianças para as eleições de outubro. Nos bastidores, analistas políticos ainda não compraram a versão de que o governador Marcos Rocha teria, de fato, desistido da disputa ao Senado em 2026.
Da mesma forma, poucos acreditam que a filiação do ex-deputado federal Expedito Netto ao Partido dos Trabalhadores tenha ocorrido sem o conhecimento — ou mesmo a anuência — do pai, o ex-senador Expedito Júnior, ligeiro quando o assunto é articulação.
A entrada de Expedito Netto no PT, oficializada na última quarta-feira (14), em Porto Velho, foi lida como muito mais do que um simples ato partidário. O movimento embaralhou alianças, tensionou projetos em curso e expôs ‘fissuras’ dentro de uma das famílias mais experientes na engenharia política do estado.
Até recentemente dirigente do PSD e atual secretário nacional da Pesca, Netto cruzou o campo ideológico e passou a se colocar como pré-candidato ao governo pelo PT, contrariando, ao menos publicamente, a estratégia defendida pelo pai. O gesto provocou ruído imediato e alimentou a narrativa de um racha familiar, com reflexos diretos sobre o eleitorado que tradicionalmente orbitava o mesmo grupo.
Expedito Júnior, por sua vez, atua diretamente na consolidação do nome do prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, como pré-candidato ao Palácio Rio Madeira, e até agora não veio a público para demonstrar descontentamento com a suposta insubordinação política do filho que, para quem convive de perto, bebe da mesma água em casa.
Por outro lado, o projeto de Expedito Pai vinha sendo tratado como maduro e alinhado, com apoio político cuidadosamente costurado. A decisão do filho, diferente do que se comenta nos bastidores, redesenhou o cenário e abriu uma disputa silenciosa por votos que antes Pai, Filho e Espírito Santo, caminhavam em bloco único.
Para observadores atentos da política local, a leitura é menos dramática e mais pragmática. Há quem avalie que Expedito Júnior esteja operando nos bastidores em duas frentes: uma com o filho no PT, ocupando espaço em um campo ideológico distinto, e outra com Fúria, sustentado pelo PSD. Uma estratégia que, se bem-sucedida, mantém o grupo de Júnior próximo do centro do poder, independentemente do desfecho eleitoral.
Essa duplicidade reforça a imagem de Expedito Júnior como articulador experiente, acostumado a jogar com múltiplas alternativas e a nunca concentrar todas as fichas em uma única aposta.
No mesmo compasso de desconfiança, analistas também relativizam a suposta desistência de Marcos Rocha da corrida ao Senado. A avaliação é de que o recuo pode ser apenas tático, destinado a evitar desgaste precoce. Rocha, lembram, encerra o mandato com um volume expressivo de entregas e boa avaliação administrativa, mas sabe que uma exposição antecipada pode afastar aliados e esfriar apoios.
O risco, segundo essa leitura, é o vácuo político. Ao sair temporariamente de cena, o governador pode ver antigos aliados buscarem novos compromissos e o eleitor reorganizar suas preferências. Ainda assim, poucos acreditam que Marcos Rocha esteja fora do jogo de forma definitiva, uma vez que ele próprio empurrou a decisão para Deus.
Em Rondônia, onde os bastidores costumam falar mais alto que os discursos oficiais, as peças seguem em movimento — e quase nada é exatamente o que parece.