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porto velho, sábado 18 de abril de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Guajará-Mirim entre rios e o esquecimento da classe política
Arimar Souza de Sá
Há cidades que despertam devagar, ao ritmo do rio, como se o tempo ali tivesse aprendido a ser manso e não implacável. Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia, sempre carregou esse sopro antigo — o canto dos pássaros abrindo o dia, o Madeira e o Mamoré desenhando fronteiras de água e memória boa. Era um lugar onde o silêncio não pesava; acolhia.
Na infância, na Baixa da União, o trem que vinha da Pérola do Mamoré passava quase à porta de casa. Antes mesmo de surgir, já era anunciado pelo rumor nos trilhos. Quando a locomotiva aparecia, queimando lenha, cuspindo brasa e vencendo o caminho, a meninada interrompia o mundo para correr atrás da fuligem. Não era só o trem — era o próprio encantamento juvenil em movimento.
Na primeira viagem à cidade, ainda menino, vi o sol dourar telhados envelhecidos e alongar sombras pelas ruas. Havia ali uma esperança silenciosa — dessas que não se proclamam, mas se constroem no esforço de quem acredita no amanhã.
Guajará é terra de pioneiros. Gente que chegou quando tudo era começo e decidiu fincar raízes. Dom Rey, Dom Geraldo, Américo Paes, Simão Salim, Bader Massud, Aroucas, Nogueira, Melhéns, Pontes, Sena, Manussakis, Bouchabiki, Chama, dentre outros — nomes que não apenas ocuparam espaço, mas deram sentido a ele. Eram homens de obra, não de discurso.
Mas o tempo, que preserva lembranças, também escancara ausências brutais. Aos 97 anos, completados no último dia 10, Guajará-Mirim parece celebrar sem alegria. Cresceu para dentro, perdeu fôlego para fora. A cidade que já prometeu futuro hoje repete o passado, presa a uma inércia silenciosa. Não por destino — por escolhas. Ou, pior, pela ausência delas.
Basta caminhar por suas ruas. O chão denuncia: buracos que se multiplicam, saneamento que não chega, serviços públicos que ainda sobrevivem a uma gestão de improviso. É uma cidade deixada à própria sorte, como embarcação à deriva, sem leme e sem comando.
E, no entanto, quando o essencial grita pedindo socorro, o supérfluo sobe ao palco e dança forró. Quase meio milhão gasto em festa. Luzes acesas, som alto, aplausos programados. O velho expediente — distrair o povo besta, enquanto a estrutura desaba. Não é celebração: é maquiagem. Não é aniversário: é pão e circo.
A festa não dialoga com a cidade — afronta. É o brilho falso tentando esconder a escuridão. É o instante atropelando o compromisso. E então surge a classe política — inteira, sorridente, bem alinhada para a fotografia e depois para os cliques. Nos dias comuns, silêncio. Nos dias de palco, abundância e demagogia. A cidade pede gestão; recebe encenação. Pede solução; recebe discurso vazio. Não é exceção — é método e o povo engole com fel, sem reclamar.
A política rondoniense, em muitos momentos, deixou de ser instrumento de transformação para se tornar abrigo de conveniências. Não se governa com estratégia, governa-se ao sabor do calendário eleitoral. Não se planeja o futuro, administra-se o improviso, no tal ‘deixa como está, para ver como é que fica’.
Mais grave ainda é quando o dinheiro público vira extensão do interesse privado. Quando atravessar um rio se transforma em diária internacional, não é detalhe burocrático — é sintoma de falta de vergonha de sua representante. Sintoma de uma cultura política que banalizou o recurso público e perdeu o constrangimento.
Guajará-Mirim, erguida com esforço e visão, hoje parece conduzida com uma leveza irresponsável — de quem ocupa o cargo, mas não carrega o peso dele.
E há, também, uma verdade incômoda que precisa ser dita. Não existe política ruim sem eleitor permissivo. Guajará-Mirim não sofre apenas pela fragilidade de seus representantes, mas pela repetição de escolhas equivocadas. Vota-se mal, cobra-se pouco, esquece-se rápido. Troca-se futuro por favor, dignidade por promessa, consciência por conveniência.
A urna não erra — ela revela:
Revela quando o voto é desatento.
Revela quando a memória é curta.
Revela quando o eleitor abre mão de escolher para apenas confirmar velhos vícios. Depois, resta o lamento — sempre tardio, quase nunca transformador. O choro que alto que ninguém ouve.
Porque governar não é entreter. É garantir o básico, sustentar o cotidiano, cuidar do que não aparece em festa. O resto é espuma. E espuma, quando a realidade é dura, já não engana ninguém. Nem adultos e nem ‘Netinhos’.
Acaba a música, desmonta-se o palco, apagam-se as luzes — e a cidade permanece. Com seus problemas, suas carências e sua espera.
E, sem luz nas mentes, Guajará-Mirim segue ali, entre os rios e o esquecimento da classe política — à espera de menos aplausos e mais responsabilidade, menos discurso e mais ação, menos política de ocasião e mais compromisso de verdade.
É tempo de reflexão.
E, sobretudo, de mudança.
AMÉM!
O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ O POVO, da Rádio Caiari FM, 103,1.