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    porto velho, terça-feira 19 de maio de 2026

Crônica Esportiva - O retorno do menino Neymar e o desespero dos fiscais da bola

A Seleção precisava voltar a sonhar, precisava recuperar um pouco da fantasia perdida. E Neymar, gostem ou não os lacradores de plantão, ainda conhece como poucos...


Redação

Publicada em: 19/05/2026 11:14:39 - Atualizado

imagem - montagem rondonoticias/ia

Crônica - O retorno do menino Neymar e o desespero dos fiscais da bola

Arimar Souza de Sá

A convocação de Neymar para a Seleção Brasileira provocou um fenômeno curioso no país: antes mesmo da bola rolar, já havia gente querendo expulsá-lo do campo por decreto ideológico. Nas redes sociais, reapareceu a velha patrulha dos fiscais de comportamento, indignados não exatamente com o futebol do camisa 10, mas com aquilo que ele pensa, fala, publica ou representa politicamente.

É evidente que Neymar nunca foi unanimidade. Nem deve ser. É indisciplinado dentro de campo, em muitos momentos da carreira exagerou no estrelismo, caiu em armadilhas da própria vaidade e se perdeu em comportamentos incompatíveis com a grandeza que carrega nos pés. Também colecionou polêmicas desnecessárias e opiniões que frequentemente dividiram o país. Tudo isso é real.

Mas existe outra verdade impossível de apagar: Neymar encantou o planeta jogando futebol.

Num tempo em que o futebol mundial se tornou excessivamente tático, robotizado e burocrático, Neymar permaneceu como um dos últimos representantes do futebol arte brasileiro. O drible improvisado, a irreverência, a pedalada desconcertante, o passe improvável e a alegria quase infantil com a bola nos pés. O velho futebol moleque que o brasileiro aprendeu a amar nas ruas de barro, nos campinhos e nas arquibancadas.

O problema para certos setores não é o atleta. É o símbolo. Parte da esquerda mais militante jamais perdoou Neymar por apoiar Bolsonaro e, por isso, não se enquadrar no comportamento político esperado pelas bolhas digitais. E desde então surgiu uma espécie de campanha permanente para deslegitimar qualquer mérito esportivo do jogador. Não bastava criticar suas atitudes. Era preciso tentar apagar sua história.

Nos bastidores políticos e digitais, houve até quem comemorasse a possibilidade de uma Seleção “sem Neymar”, quase como se a convocação dependesse de alinhamento ideológico e não de futebol. A cada lesão, a cada fase ruim, apareciam os mesmos discursos decretando o fim definitivo do camisa 10.

Agora, com o retorno dele à Seleção, muita gente engole mais uma frustração silenciosa.

E convenhamos: o futebol brasileiro também precisava disso. A camisa canarinho perdeu parte da sua alma nos últimos anos. Ficou séria demais, engessada demais, europeizada demais. Neymar, com todos os defeitos que carrega, ainda simboliza algo profundamente brasileiro dentro de campo: a ousadia, o improviso e a alegria atrevida de quem joga para encantar.

Talvez já não seja o garoto do Barcelona. Talvez nem volte ao auge físico de outros tempos. Mas ainda é um dos poucos capazes de produzir aquele raro instante que faz o torcedor levantar do sofá antes mesmo da jogada terminar. E futebol, no fim das contas, sempre foi isso: emoção antes de ideologia.

A Seleção precisava voltar a sonhar, precisava recuperar um pouco da fantasia perdida. E Neymar, gostem ou não os lacradores de plantão, ainda conhece como poucos o endereço dela. Porque dentro da área, quando a bola chega, ele continua sabendo colocá-la exatamente onde a coruja dorme.

O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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