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porto velho, quarta-feira 20 de maio de 2026

Esta semana me deparei com uma cena que me veio uma reflexão. O cenário é familiar em salas de aula de todo o país: cortinas de silêncio, cabeças baixas e, por baixo da carteira, o brilho discreto de uma tela de smartphone. O que antes exigia o esforço de condensar letras minúsculas em pedaços de papel — as clássicas "colas" — hoje resolve-se com um clique, uma inteligência artificial ou um grupo de mensagens instantâneas. No entanto, o que muitos estudantes encaram como uma "esperteza" ou um mecanismo de sobrevivência escolar é, na verdade, um dos maiores retrocessos no desenvolvimento cognitivo e na formação cidadã da atualidade.
O primeiro e mais imediato impacto do uso do celular para fraudar avaliações é o esvaziamento do aprendizado. A prova não deveria ser vista como um fim em si mesma, mas como um termômetro do processo de retenção e associação de saberes.

Quando o estudante substitui o esforço de recuperação da memória pela busca rápida no Google, ocorre o fenômeno da terceirização cognitiva. O cérebro, poupado do esforço sináptico de processar e consolidar a informação, simplesmente não aprende.
O resultado são jovens que obtêm notas burocráticas para passar de ano, mas que se tornam incapazes de formular um pensamento crítico, interpretar textos complexos ou resolver problemas lógicos básicos. Cria-se a ilusão do conhecimento, que desaba no primeiro desafio real, seja ele um vestibular ou o mercado de trabalho.
A educação vai muito além da memorização de fórmulas ou datas históricas; ela é o espaço primordial de formação do cidadão. A ética — que define as fronteiras entre o que se pode e o que se deve fazer — é severamente lesionada quando a fraude se torna um hábito normalizado no ambiente escolar.
A cidadania baseia-se em um pacto de confiança mútua e no respeito às regras coletivas. Quando um aluno cola, ele subverte esse pacto. Ele decreta que o seu benefício individual está acima do esforço honesto de seus pares e das normas da instituição. Esse comportamento planta uma semente perigosa: a ideia de que as regras sociais podem ser contornadas desde que ninguém esteja olhando. O estudante que cola sem peso na consciência é o forte candidato a se tornar o adulto que sonega impostos, fura filas ou tolera a corrupção no cotidiano.
Embora muitos alunos enxerguem a cola como uma mera "traquinagem" escolar, o ordenamento jurídico brasileiro e os princípios constitucionais oferecem uma perspectiva muito mais severa sobre o tema.
A Constituição Federal, em seu artigo 205, preceitua que a educação visa ao "pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". A fraude escolar colide diretamente com esse mandamento constitucional, pois corrompe a qualificação real do indivíduo.
Respaldadas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei nº 9.394/1996), as instituições de ensino têm autonomia para formular seus regimentos internos. O uso de aparelhos eletrônicos para fraudar exames viola esses regulamentos, configurando ato de indisciplina passível de sanções pedagógicas severas, que vão desde a anulação da prova até a suspensão ou desligamento.
É fundamental que o jovem compreenda que a linha entre a indisciplina escolar e o crime é tênue. Se no ambiente escolar a cola é tratada sob o viés pedagógico, a utilização de dispositivos eletrônicos para fraudar certames de interesse público (como o ENEM ou concursos) é crime tipificado pelo Código Penal Brasileiro no Artigo 311-A (Fraudes em certames de interesse público), com penas que podem chegar a 4 anos de reclusão. A escola, portanto, precisa ser o freio inibidor antes que a prática se torne um ilícito penal.
Combater a cola por celular não é uma cruzada tecnofóbica. Os smartphones são ferramentas de pesquisa e expansão do conhecimento fantásticas, mas tornam-se armas de autodestruição intelectual quando usados para mascarar a ignorância.
Pais, professores e a sociedade precisam resgatar o valor do erro e do esforço no processo de aprendizagem. Tirar uma nota baixa após ter estudado é um diagnóstico valioso e honesto; conseguir um dez através de uma tela de celular é um autoengano perverso. Precisamos desconectar os alunos da facilidade ilícita dos algoritmos para reconectá-los com o valor da integridade, da ética e do verdadeiro saber. Afinal, as telas podem dar respostas prontas, mas a vida real exige cidadãos capazes de pensar por si mesmos.