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    porto velho, sexta-feira 5 de junho de 2026

A morte filmada de um motorista e a consciência ferida de Rondônia

O vídeo que se espalhou pelas redes sociais não foi apenas o registro de um assassinato. Foi o retrato da falência humana...


Redação

Publicada em: 05/06/2026 18:15:34 - Atualizado


imagem - montagem rondonoticias/ia

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA

A morte filmada de um motorista e a consciência ferida de Rondônia

*Arimar Souza de Sá

Vivemos tempos perturbadores, em que a violência já não rasga apenas o tecido social: ela exibe suas feridas em praça pública. No último dia 31 de maio, Porto Velho assistiu a uma das cenas mais brutais de sua história recente. O motorista de aplicativo Antônio Marcos dos Santos Filho, de 23 anos, conhecido como "Gordinho da Revoada", foi obrigado por criminosos a gravar a própria despedida antes de ser executado.

Sob a sombra das armas e diante de uma sentença já escrita, falou como quem tenta segurar os últimos grãos de areia da ampulheta da vida. Naquele instante, a morte decidiu usar uma câmera.

O vídeo que se espalhou pelas redes sociais não foi apenas o registro de um assassinato. Foi o retrato da falência humana. Terminadas as palavras, vieram os disparos. O homem tombou. Ficaram a dor dos pais, o luto dos amigos e o silêncio de uma criança que sequer conhecerá o próprio pai.

Na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, a floresta transformou-se em palco de um teatro macabro. As árvores testemunharam aquilo que nenhuma paisagem deveria guardar na memória: um jovem arrancado da existência diante das lentes frias da barbárie.

Mas o mais assustador não é apenas a morte. É a naturalidade com que ela passou a ser administrada.

Vivemos uma época em que criminosos não apenas matam. Eles encenam. Produzem conteúdo. Dirigem seus próprios filmes de horror para as redes sociais. A violência deixou de ser um ato. Tornou-se linguagem.

E quase sempre há uma personagem escondida nos bastidores dessas tragédias: a droga. Ela alimenta facções, financia impérios clandestinos e transforma vidas em estatísticas.

E toda vez que isso acontece, uma pergunta ecoa entre os escombros da consciência coletiva: onde foi que nos perdemos?

Talvez a resposta esteja longe da cena do crime e muito perto dos lugares que insistimos em não enxergar. Nas palafitas esquecidas pelo progresso. Nos barracos onde a chuva chega antes da esperança. Nos bairros onde o Estado e os políticos aparecem apenas em época de eleição.

Nenhum menino nasce sonhando em servir ao crime. Ninguém acorda desejando transformar o coração em pedra.

A violência não nasce pronta. Ela é cultivada lentamente no terreno da exclusão, da ausência e do abandono. Cresce como erva daninha irrigada pela desigualdade, pelo desemprego, pela corrupção e pela indiferença.

Enquanto isso, os palácios seguem iluminados. Do lado de dentro, discursos e tapinha nas costas. Do lado de fora, sepulturas.

Há décadas ouvimos que a solução está na educação. E está. Mas educação não pode ser apenas um slogan de campanha ou um discurso inflamado. Exige presença, escuta e compromisso.

Por isso causa estranheza ouvir autoridades repetirem essa fórmula enquanto raramente se vê, em Rondônia, uma ação permanente que una educação, assistência social e segurança pública dentro das escolas. Nunca se viu um grande movimento contínuo para combater a violência no seu nascedouro. O restante, muitas vezes, soa como mera retórica. Pura demagogia.

Porque o crime não recruta nos condomínios protegidos por cercas elétricas. Ele recruta onde faltam oportunidades. Floresce onde o poder público chega tarde ou simplesmente não chega.

O caso do jovem motorista não é apenas uma investigação policial. É um espelho. E o que ele reflete não é apenas o rosto dos assassinos, mas o retrato de uma sociedade que empurrou seus problemas para debaixo do tapete até vê-los retornar armados e com câmeras nas mãos.

O mais doloroso é perceber que a violência já não pede licença. Ela invade telas, domina conversas e transforma cidades inteiras em territórios do medo.

Há algo profundamente doente em um país onde um filho precisa gravar uma despedida para os pais antes de morrer.

Há algo profundamente errado quando assistimos a isso e, poucos dias depois, seguimos a rotina como se nada tivesse acontecido.

Talvez porque a tragédia tenha se tornado frequente demais. Talvez porque o espanto esteja morrendo antes das vítimas. Mas uma nação perde parte da alma quando se acostuma com a barbárie.

Enquanto não enfrentarmos as raízes da violência, continuaremos recolhendo cadáveres e produzindo discursos. Continuaremos construindo presídios sem construir futuros.

E seguiremos caminhando por essa longa noite. Uma noite em que as cidades dormem atrás de grades. Em que as mães rezam pelo retorno dos filhos. Em que as facções disputam territórios como senhores de uma guerra invisível.

E em que a morte, cada vez mais ousada, já não se contenta em matar.

Ela agora filma exibe e corpo para o escárnio popular.

É tempo de reflexão.

Amém!

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari FM, 103,1.


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