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porto velho, segunda-feira 8 de junho de 2026

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta segunda-feira (08/06) recebeu o psicólogo Celso Cornélio para uma reflexão sobre a escalada da violência, a banalização da morte e os impactos psicológicos provocados pela exposição constante de crimes nas redes sociais.
A entrevista teve como ponto de partida a crônica “A morte filmada de um motorista e a consciência ferida de Rondônia”, escrita por Arimar Souza de Sá após a execução do motorista de aplicativo Antônio Marcos dos Santos Filho, de 23 anos, conhecido como “Gordinho da Revoada”, morto por criminosos após ser obrigado a gravar um vídeo de despedida.
Ao comentar o caso, Celso Cornélio afirmou que a sociedade vive um processo preocupante de normalização da violência. “Estamos diante de um fenômeno de banalização e normatização da violência. As pessoas estão cada vez mais acostumadas a consumir esse tipo de conteúdo. Antes bastava a notícia do crime. Hoje existe a necessidade de transformar a violência em espetáculo, em algo que gere repercussão e impacto”, observou.

Segundo o psicólogo, a violência deixou de ser apenas um ato criminoso para se tornar uma linguagem que circula diariamente em diferentes ambientes, especialmente nas redes sociais. “Quando uma execução passa a ser encarada como algo comum, nós estamos diante de um processo de adoecimento social. Isso revela uma sociedade que está perdendo a capacidade de se indignar”, afirmou.
Durante a conversa, Celso também chamou atenção para a forma como o luto tem sido encarado atualmente. Para ele, a sociedade passou a tratar a morte de maneira cada vez mais superficial.
“Antigamente o luto era vivido, respeitado e compartilhado. Hoje existe uma banalização da perda. As pessoas são estimuladas a seguir em frente rapidamente, sem tempo para elaborar a dor. Isso também é reflexo da velocidade e da superficialidade dos tempos atuais”, destacou.
Questionado sobre as origens da violência, o psicólogo rejeitou a ideia de que o comportamento criminoso seja determinado pelo nascimento ou pela condição social. “Ninguém nasce violento. O ser humano é resultado de uma série de estímulos e experiências. A mente humana tem uma enorme capacidade de adaptação. Dependendo dos estímulos recebidos, as respostas podem ser positivas ou negativas”, explicou.
Ao abordar o papel da educação e da família na formação dos jovens, Celso Cornélio ressaltou que tanto o excesso de rigidez quanto a permissividade exagerada podem gerar consequências prejudiciais.
“Os extremos não ajudam na formação de um ser humano equilibrado. Antes predominava uma educação baseada no medo e na repressão. Hoje, em muitos casos, existe uma tolerância excessiva. O desafio está justamente em encontrar o equilíbrio”, avaliou.
Outro ponto debatido durante o programa foi a ausência de ações integradas entre áreas como educação, segurança pública e assistência social para prevenir a violência ainda na infância e adolescência.
Para o psicólogo, a falta de diálogo entre instituições dificulta a construção de soluções duradouras. “Muitas vezes cada setor atua isoladamente. Segurança pública fica na segurança pública, educação fica na educação e assistência social segue outro caminho. O enfrentamento da violência exige integração, cooperação e objetivos comuns”, afirmou.
Celso Cornélio também alertou para a necessidade de a sociedade refletir sobre o ambiente em que crianças e adolescentes estão sendo formados. “O crime não surge de forma espontânea. Ele encontra espaço onde faltam oportunidades, acolhimento, pertencimento e perspectivas de futuro. Por isso é fundamental investir em educação, cultura, esporte, assistência social e fortalecimento dos vínculos familiares”, disse.
Ao final da entrevista, o psicólogo reforçou que o combate à violência passa necessariamente pela reconstrução dos laços sociais e pela capacidade coletiva de recuperar a sensibilidade diante da dor humana.
“Quando a violência deixa de causar espanto, quando a morte vira entretenimento e quando o sofrimento do outro deixa de nos sensibilizar, precisamos acender um alerta. A sociedade adoece quando perde a capacidade de se indignar”, concluiu.
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