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    porto velho, sábado 13 de junho de 2026

Crônica de Fim de Semana - A Copa sem rosto e quando torcer pela seleção era paixão

Hoje, muitos torcedores olham para a Seleção e enxergam rostos desconhecidos. Jogadores brasileiros, sem dúvida, mas distantes...


Redação

Publicada em: 13/06/2026 10:59:11 - Atualizado

Foto - Rondonoticias IA

CRÔNICA E FIM DE SEMANA 

A Copa sem rosto e quando torcer pela seleção era paixão

*Arimar Souza de Sá

A Copa do Mundo chegou e o Brasil estreia daqui a pouco contra Marrocos. Olhando as ruas de Porto Velho, ninguém diria. As janelas permanecem nuas. As calçadas seguem indiferentes. Nas esquinas e nem nos bares se discute escalações. O vento quente que sopra sobre Rondônia neste sábado, já não carrega o perfume das Copas de antigamente.

Houve um tempo em que um Mundial era uma grande festa de família. O país inteiro arrumava a casa para receber, pela televisão, um parente querido. As ruas vestiam verde e amarelo como quem coloca roupa nova para um casamento. As bandeiras balançavam nas fachadas, enquanto as crianças corriam atrás de bolas e álbuns de figurinhas, imaginando-se os heróis da Seleção.

Hoje, porém, algo mudou.

Talvez a Copa continue a mesma. Talvez o futebol continue sendo aquele velho jogo de onze contra onze. Mas a emoção parece ter ficado perdida em alguma curva da estrada do tempo.

Sou de uma geração que conhecia os jogadores pelo apelido, pelo jeito de correr e pelos chutes improvisados dos campinhos de rua. Eram figuras quase íntimas. Moravam na televisão, mas pareciam vizinhos. Bastava ouvir um nome para que surgisse uma lembrança.

Hoje, muitos torcedores olham para a Seleção e enxergam rostos desconhecidos. Jogadores brasileiros, sem dúvida, mas distantes. Homens que atuam do outro lado do oceano e que já não dividem conosco as tardes de domingo, as transmissões do rádio ou as conversas de bar.

E então acontece algo curioso: passamos a torcer menos pelos jogadores e mais pelo que eles representam.

Não conhecemos bem os ‘ídolos, mas reconhecemos o brasão. Não sabemos suas histórias, mas sabemos a história das cinco estrelas bordadas no peito. Torcemos pela bandeira. Pela camisa. Pela memória.

Quando a Seleção entra em campo, não vemos apenas os atletas de hoje. Vemos sombras antigas atravessando o gramado. Vemos dribles que encantaram o mundo, gols inesquecíveis e tardes que jamais voltarão.

Das gavetas da memória saem camisas desbotadas, rádios de pilha com a narração vibrante de José Carlos Araújo, álbuns de figurinhas e heróis que transformaram o futebol em poesia.

Talvez seja por isso que Rondônia não tenha embarcado nesta Copa com o entusiasmo de outros tempos. Não é apenas falta de confiança. É falta de intimidade.

A Seleção ficou distante. Os jogadores viraram marcas globais antes mesmo de se tornarem ídolos nacionais. E ninguém ama profundamente aquilo que não conhece.

Ainda assim, às 18h quando a bola rolar, milhões de brasileiros estarão diante da televisão pela esperança teimosa que nunca morre pelo escudo amarelo bordado sobre o peito e, sobretudo, pela lembrança das tardes em que o Brasil fazia o impossível parecer simples.

No fundo, toda Copa é uma conversa entre o presente e a saudade.

Torcemos pelo menino que fomos. Aquele que pintava o rosto de verde e amarelo, acreditava que um gol da Seleção podia melhorar a vida e corria para a frente da televisão como quem corre para um encontro com a felicidade.

E esse menino continua morando dentro de nós.

Por isso, talvez tenha chegado a hora de fazer as pazes com a Seleção. Não a de Pelé, Garrincha, Zico ou Ronaldo, Romário, que já pertencem à eternidade. Mas com a Seleção que temos hoje, com seus defeitos, limitações e rostos ainda pouco conhecidos.

Talvez não existam novos Pelés. Talvez não existam novos Zicos.

Mas o brasão continua o mesmo.

E enquanto houver uma camisa amarela entrando em campo com o nome do Brasil estampado no peito, haverá uma razão para torcer.

Que as ruas de Rondônia voltem a acreditar, nem que seja por algumas horas. Que a saudade sente ao nosso lado no sofá. Que o coração brasileiro permita-se sonhar outra vez.

Então, que venha Marrocos. Que venha o hexa!

Porque, enquanto houver uma camisa amarela representando esta nação, sempre haverá uma razão para sonhar junto.

* O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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