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porto velho, sexta-feira 7 de agosto de 2026

A medicina evoluiu de forma extraordinária. Venceu epidemias, transplantou órgãos, prolongou vidas e incorporou tecnologias antes inimagináveis. A robótica é um show à parte. Mas, ironicamente, parece ter perdido algo pelo caminho: o paciente inteiro. Muitos deixam o consultório com a sensação de que o corpo foi examinado, mas a pessoa passou despercebida.
Hoje, o corpo humano se transformou num condomínio. Cada órgão mora em um apartamento diferente, administrado por um especialista. O cardiologista conhece o coração. O gastro cuida do estômago. O nefrologista conversa com os rins. O ortopedista resolve os conflitos dos ossos. Se dois órgãos resolverem adoecer ao mesmo tempo, prepare o bolso. O diálogo entre eles, quase sempre, dá prejuízo.
O velho clínico, que enxergava o ser humano como uma paisagem completa, foi cedendo espaço a uma medicina que observa a árvore com uma lupa, mas, às vezes, perde de vista a floresta inteira. Muitos, inclusive, migraram para especialidades cada vez mais restritas.
A cena tornou-se corriqueira. Você procura um médico por causa de uma infecção. Sai do consultório com um antibiótico capaz de dizimar um batalhão de bactérias. O problema é que, no caminho, ele também bombardeia o estômago. Surgem a gastrite, a azia, o refluxo ou qualquer outro "efeito colateral" — uma expressão elegante para dizer que o remédio resolveu um problema e criou outro. E lá vai você marcar consulta com o gastroenterologista.
O gastro prescreve outro medicamento para proteger o estômago e se irritar a flora intestinal, então é preciso probióticos, vitaminas e suplementos que, muitas vezes, custam mais do que o rancho do mês.
E, quando o médico faz questão de indicar apenas uma marca, ignorando a existência do genérico, o paciente sai com a sensação de que a receita veio acompanhada de um contrato de exclusividade do Doutor com a Farmacêutica.
Felizmente, nem todos os profissionais agem assim. Há médicos sérios, éticos e comprometidos com o melhor tratamento. Mas ainda existem situações em que a confiança do paciente parece caminhar de mãos dadas com a fatura do cartão de crédito.
Antes mesmo da consulta, começa outra enfermidade: conseguir agendamento.
Ter plano de saúde, hoje, muitas vezes significa apenas carregar um cartão elegante na carteira. A consulta virou artigo de luxo. Algumas agendas estão tão disputadas que é mais fácil avistar um cometa cruzando o céu de Porto Velho do que conseguir uma vaga para a próxima semana. A doença não espera. A agenda, sim. E, quando finalmente chega o grande dia, o paciente enfrenta a primeira triagem da medicina moderna: a recepção.
Ser secretária de consultório não é apenas atender telefonemas ou confirmar horários. É acolher pessoas abaladas que chegam carregando dores, medos, exames e incertezas. Muitas cumprem essa missão com admirável sensibilidade. Outras, infelizmente, parecem acreditar que a sala de espera existe apenas para assistir às suas conversas particulares.
Enquanto pacientes aguardam ansiosos, o celular ganha prioridade absoluta. O WhatsApp recebe mais atenção do que quem está diante do balcão. O paciente espera; a conversa dela, jamais. Há consultórios onde o relógio parece fazer residência médica: os minutos entram saudáveis e saem doentes.
No fim das contas, adoecer transformou-se num investimento de alto risco. Cada órgão exige um especialista. Cada especialista solicita exames. Cada exame pede retorno. Cada retorno produz outra receita. E cada receita prescreve, também, um novo rombo no orçamento.
Talvez esteja faltando justamente aquilo que não aparece em tomografias, não cabe em ressonâncias e não pode ser medido em laboratório: a capacidade de enxergar o ser humano por inteiro.
Porque o coração não bate separado do estômago. O cérebro não faz plantão sem a alma. E a carteira, essa pobre coitada, é o único órgão obrigado a consultar todos os especialistas.
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.