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porto velho, sexta-feira 14 de agosto de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
A geração que trocou heróis por algoritmos
*Arimar Souza de Sá
Houve um tempo em que as gerações se reconheciam pelos seus heróis. Bastava pronunciar alguns nomes e surgia uma cumplicidade imediata. Pelé, Garrincha e Zico não precisavam de sobrenome. Ayrton Senna dispensava apresentações. Roberto Carlos, Elis Regina, Tim Maia, Tom Jobim, Guilherme Arantes, Renato Russo....
Havia ainda aqueles que transformavam a música em consciência coletiva. Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gonzagão, Gonzaguinha, Fagner, Belchior, Milton Nascimento, Renato Teixeira, Almir Sater, Fernando Mendes, José Augusto, cantavam amores, mas também cantavam o Brasil. Suas letras eram espelhos da alma nacional, denúncias embaladas em poesia e esperança em forma de melodia. Não eram apenas artistas; eram intérpretes do sentimento de um povo.
Esses nomes atravessavam classes sociais, sotaques e gerações. Não pertenciam apenas ao seu tempo. Pertenciam ao imaginário popular.
Em Rondônia também existiram gigantes como Cândido Rondon, que desbravou caminhos e deu identidade a uma terra que ainda nem era território. Aluízio Ferreira lançou as bases institucionais do antigo Território do Guaporé e ajudou a desenhar o futuro da Amazônia Ocidental. Jorge Teixeira conduziu a transformação de Rondônia em Estado e entrou para a história como um dos maiores símbolos da construção da identidade rondoniense. Eram homens que dividiam opiniões, mas jamais passaram despercebidos. Construíram obras, deixaram marcas e permaneceram na memória coletiva.
E depois deles? Quais personagens conseguiram ultrapassar o calendário eleitoral, vencer a erosão do tempo e transformar seus nomes em patrimônio afetivo de uma geração? A pergunta é desconfortável. Produzimos bons administradores, empresários, parlamentares, atletas e comunicadores. Mas ídolos, daqueles que inspiram crianças, mobilizam multidões e sobrevivem às décadas, tornaram-se raridade. O marketing fabrica celebridades. A história, não. A história só reconhece quem deixa legado.
Os ídolos ensinavam sem dar aulas. Ensinavam disciplina, coragem, elegância, talento e perseverança. Eram imperfeitos, como qualquer ser humano, mas suas obras sobreviviam às suas fraquezas. Inspiravam sonhos porque antes inspiravam respeito.
Hoje, a paisagem parece diferente. Vivemos na era da celebridade descartável. A fama dura o tempo de um vídeo. O aplauso vence em vinte e quatro horas. O herói da manhã é esquecido antes do jantar, atropelado pelo próximo algoritmo. O celular tornou-se uma fábrica de rostos conhecidos e um cemitério de memórias.
Nunca se viu tanta exposição e tão pouca permanência. A tela iluminou os rostos, mas escureceu as referências. Talvez por isso falte identidade.
Os jovens conhecem centenas de perfis, mas poucas biografias. Decoram bordões, mas desconhecem discursos que mudaram uma geração. Sabem repetir a dança da semana, mas dificilmente conseguem citar um livro que os tenha transformado, um poeta que os tenha inquietado ou uma canção que os tenha feito pensar. O mundo virou uma vitrine infinita, mas as prateleiras dos grandes exemplos estão cobertas de poeira.
Há algo ainda mais preocupante: o silêncio da leitura foi substituído pelo ruído da rolagem infinita da tela do celular. A reflexão perdeu para o reflexo do dedo sobre a tela. Nunca se consumiu tanta informação e nunca se digeriu tão pouco conhecimento.
A linguagem também perdeu elegância. O vocabulário encolheu. A grosseria passou a ser confundida com autenticidade. O palavrão deixou de ser exceção para se tornar pontuação. O argumento cedeu lugar ao grito. O debate foi trocado pelo cancelamento, a lacração. A boa conversa perdeu para a caixa de comentários.
Não é uma defesa romântica do passado. Cada geração produz seus talentos e seus gênios. O problema surge quando a velocidade vale mais do que a profundidade, quando o número de seguidores pesa mais do que o caráter e quando a exposição passa a ser confundida com relevância.
Os antigos ídolos eram admirados pelo que construíam. Os novos, muitas vezes, são conhecidos apenas porque aparecem excessivamente. Há um abismo entre notoriedade e grandeza. A primeira pode ser comprada por um algoritmo. A segunda exige uma vida inteira de construção.
Talvez esse seja o maior desafio do nosso tempo: formar pessoas que desejem deixar um legado, e não apenas um "story". Que procurem ser respeitadas antes de serem curtidas.
Uma sociedade sem referências comuns é como um navio que perde a bússola em mar aberto. Continua navegando, mas já não sabe para onde vai. E quando uma geração deixa de admirar homens e mulheres de verdade para venerar apenas quem ocupa a tela do celular, (Virgínias, Deolanes e Oruans), corre o risco de trocar montanhas por espelhos.
No fim das contas, a maior pobreza não é a falta de dinheiro. É a falta de admiração. Um povo que já não consegue apontar quem merece ser seguido começa, lentamente, a desaprender o caminho da excelência.
Famosos nunca foram tão numerosos. Gigantes nunca foram tão raros. Talvez essa seja a fotografia mais cruel do nosso tempo: não faltam celebridades, faltam referências; não faltam seguidores, faltam líderes; não faltam vozes, faltam ideias.
E quando uma geração já não consegue dizer aos filhos quem vale a pena imitar, ela deixa de transmitir apenas nomes. Ela interrompe a própria herança.
Porque um povo sem ídolos não perde apenas a memória. Perde a direção, perde o próprio sentido...
É TEMPO DE REFLEXÃO!
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.