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porto velho, sexta-feira 25 de setembro de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
O PALANQUE PASSA, RONDÔNIA E SEUS PROBLEMAS FICAM
*Arimar Souza de Sá
Rondônia foi feita de braços abrindo a mata na marra, pés atolados no barro e picadas rasgadas onde quase tudo ainda era floresta. Antes das estradas, povos indígenas já faziam dos rios e da mata a sua casa.
Nos primórdios da ocupação, as linhas telegráficas venceram distâncias e trouxeram uma espécie de aleluia à região, rompendo o isolamento e encurtando o mundo. Depois vieram ferroviários, os soldados da borracha, garimpeiros e, mais tarde, milhares de famílias sulistas que trocaram a bagagem pela enxada e fizeram da agricultura um novo começo, carregando consigo coragem e a esperança de uma vida melhor.
O ciclo da borracha trouxe progresso, mas deixou cicatrizes nas árvores e na vida dos seringueiros. A Madeira-Mamoré fincou trilhos, suor e morte no coração da floresta. Mais tarde, a BR-364 abriu as portas para novas levas migratórias, e a colonização redesenhou Rondônia.
O Estado nasceu assim das mãos de Teixeirão: na enxada e no machado, na lama e no sonho, na dificuldade e na esperança. Talvez por isso o rondoniense calejado tenha aprendido logo cedo que promessa não derruba mata, não abre estrada e não põe comida na mesa.
E aprendeu, nesse longo período de vida política, outra coisa: palavra de político também tem prazo de validade. Com o tempo, o eleitor ganhou um instrumento invisível, mas cada vez mais afiado: o ‘desconfiômetro’.
Ele já ouviu antes que a saúde vai melhorar, que as estradas serão recuperadas, que a segurança será prioridade, que empregos virão e que o desenvolvimento finalmente se manterá forte. Algumas dessas promessas até saíram do palanque, mas outras morreram nele.
E há aquelas que, eleição após eleição, voltam à vitrine com embalagem nova e conteúdo antigo, como se o eleitor fosse besta.
A campanha de 2026 já entrou na fase do confronto. Nos debates, o tom subiu, as farpas voaram e, em determinados momentos, as propostas foram empurradas para o canto, enquanto ataques, provocações e velhos acertos de contas políticos ocuparam o centro do palco. Ódio e ressentimento também foram lançados à vontade na lona do embate.
Confrontar ideias faz bem à democracia, é verdade. O problema começa quando faltam ideias e preparo e sobram barulho, desequilíbrio e provocação. Porque gritar não é governar. Frase de efeito não recupera rodovia. Ataque viralizado não abre leito de hospital.
Provocação pode render aplauso, curtida e manchete. Mas não cria emprego nem dá alento a seu João, seu Pedro e dona Maria, que já estão cansados de esperar.
Enquanto candidatos duelam nos estúdios e nas redes sociais, Rondônia continua do lado de fora, esperando respostas para problemas antigos. Saúde, segurança, infraestrutura, educação, emprego e desenvolvimento não cabem em um vídeo de quinze segundos.
O eleitor quer mais. Quer saber de onde virá o dinheiro que sustentará a promessa, quais serão as prioridades, o que realmente cabe em quatro anos e quem tem condições de transformar discurso em ação. Porque a política mudou. E o eleitor também. Hoje ele acompanha, compara, pesquisa, desconfia e cobra. Já não recebe promessa como cheque em branco. A memória pode até falhar. A conta, não.
Quando os recursos do fundão forem torrados, os microfones forem desligados, os jingles silenciarem e as bandeiras forem recolhidas, Rondônia continuará ali, de prontidão, esperando hospital funcionando, estrada trafegável, segurança, emprego e um governo de ação. É isso que nenhuma campanha deveria esquecer.
O barulho da eleição passa. O governo fica. E os problemas também.
E o eleitor rondoniense, calejado por promessas quebradas e discursos reciclados, já começa a separar o clarão do palanque, da luz que realmente aponta o caminho da prosperidade. Para azar de quem ainda aposta na memória curta, na mentira repetida e na velha esperteza eleitoral.
É TEMPO DE REFLEXÃO E, SOBRETUDO, DE COBRANÇA.
AMÉM!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.