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porto velho, sábado 10 de janeiro de 2026

PORTO VELHO (RO) – Em uma capital marcada pelo baixo índice de saneamento básico e por críticas recorrentes à qualidade da água distribuída pela CAERD, um fenômeno urbano se impõe à paisagem: farmácias surgem do dia para a noite em praticamente todos os bairros. Onde faltam rede de esgoto e água confiável, multiplicam-se drogarias, muitas vezes uma em frente à outra, como reflexo direto das fragilidades estruturais da saúde pública.
A precariedade não é pontual, é estrutural. Apenas 35% da população tem acesso à água tratada e menos de 10% contam com coleta e tratamento de esgoto, índices que mantêm Porto Velho entre as piores capitais do país. Apesar de anúncios e intervenções isoladas ao longo dos anos, a universalização dos serviços segue distante, sobretudo no esgotamento sanitário, historicamente negligenciado.
Nesse cenário, o avanço das farmácias salta aos olhos. Em poucas quadras, repetem-se fachadas, balcões e letreiros luminosos. Grandes redes nacionais e regionais ampliam sua presença, muitas vezes concentrando unidades na mesma via, enquanto drogarias independentes disputam espaço em áreas centrais e bairros periféricos.
Segundo farmacêuticos ouvidos pela reportagem, o crescimento acompanha a mudança no comportamento da população, que passou a buscar acesso rápido a medicamentos e orientações básicas de saúde. A farmácia deixou de ser um ponto eventual de compra e passou a integrar a rotina das famílias, funcionando como resposta imediata a dores, infecções e sintomas recorrentes.
Esse movimento, porém, ocorre em paralelo relacionado à administrações anteriores. A má qualidade da água e a ausência de saneamento ampliam a incidência de doenças gastrointestinais, infecções de pele e outros agravos evitáveis. Na falta de políticas preventivas eficazes, o balcão da farmácia acaba assumindo o papel de primeira porta de entrada para o cuidado com a saúde.
A ampliação do horário de funcionamento reforça essa dependência. Farmácias abertas durante a madrugada suprem demandas que antes recaíam sobre unidades de pronto atendimento, aliviando emergências, mas também evidenciando o uso de soluções paliativas em substituição a políticas públicas estruturantes.
Especialistas avaliam que a explosão do setor farmacêutico deve ser lida como um sintoma social. Onde a infraestrutura básica falha, cresce o consumo de medicamentos. O remédio passa a tratar efeitos de problemas que têm origem na ausência de saneamento, na água de má qualidade e na insuficiência de ações preventivas.
Enquanto Porto Velho vê farmácias brotarem com rapidez, o desafio central herdado pelo prefeito Léo Moraes gigantesco: garantir saneamento, água segura e prevenção efetiva. Sem isso, o crescimento das drogarias seguirá menos como sinal de progresso e mais como retrato das desigualdades no acesso à saúde básica.
A cidade cresce. As farmácias também. Falta saber quando o saneamento e a água de qualidade, de fato, serão o centro das prioridades públicas.
Detalhes dos Indicadores Recentes:
• Água Tratada: Em 2023, o índice de atendimento de água chegou a ser de apenas 35,02%, a menor taxa entre os grandes municípios, segundo SINISA 2023.
• Esgoto Sanitário: Apenas 9,3% da população tem acesso a serviços de esgoto, enquanto a média estadual é 11,7% e a nacional 59,7%, segundo Instituto Água e Saneamento.
• Ranking Nacional: Porto Velho figura entre as piores capitais, sendo a última em acesso à água potável e 97ª em acesso à coleta de esgoto no Ranking do Saneamento 2025.