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    porto velho, quarta-feira 8 de abril de 2026

'Estamos afundando cada vez mais': iranianos se preparam para ataques à infraestrutura civil

Iranianos contam à BBC como estão vendo a ameaça do presidente dos EUA de destruir usinas de energia e pontes do Irã, a menos que o país abra o Estreito de Ormuz.


terra

Publicada em: 07/04/2026 10:36:09 - Atualizado

MUNDO: À medida que se aproxima o prazo do ultimato dado pelo presidente americano, Donald Trump, que ameaçou destruir as usinas de energia e as pontes do Irã a menos que o país reabra o Estreito de Ormuz, cidadãos iranianos contaram à BBC como estão vendo a situação.

"Acho que cada vez mais pessoas no Irã perceberam que Trump não se importa nem um pouco com elas", disse um deles.

Em uma postagem repleta de palavrões nas redes sociais no domingo (5/4), Trump afirmou que "terça-feira será o Dia da Usina de Energia e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!!".

Trump reiterou suas ameaças na segunda-feira, afirmando que o Irã regredirá à "Idade da Pedra" e ficará sem usinas de energia ou pontes se nenhum acordo for alcançado até às 21h de terça-feira pelo horário de Brasília (madrugada de quarta-feira no Irã).

O republicano alegou que "o país inteiro pode ser aniquilado da noite para o dia, e isso pode acontecer amanhã [terça-feira] à noite".

"Todas as pontes do Irã terão sido destruídas até a meia-noite de amanhã", declarou.

Autoridades iranianas zombaram do ultimato de Trump, com um assessor presidencial afirmando que seus "insultos e absurdos" eram fruto de "puro desespero e raiva".

A BBC conseguiu conversar com vários iranianos — todos opositores ao governo atual —, embora seja muito difícil contatar pessoas dentro do Irã devido ao bloqueio da internet imposto pelas autoridades há mais de cinco semanas.

Seus nomes foram alterados para sua própria segurança.

'Não podemos fazer nada'
Kasra, que tem vinte e poucos anos e mora em Teerã, disse: "Parece que estamos afundando cada vez mais em um pântano. O que podemos fazer como pessoas comuns? Não podemos fazer nada. Não podemos impedi-lo [Trump]. Fico pensando em um cenário em que, daqui a um mês, estou sentado com minha família sem água, sem eletricidade, sem nada. E alguém apaga a vela e vamos dormir."

Enquanto a TV estatal iraniana exibe vídeos de supermercados bem abastecidos, a BBC ouviu relatos de que algumas pessoas estão estocando mantimentos e temem que o abastecimento de água também seja interrompido.

"Minha mãe está enchendo todas as garrafas que encontra em casa com água", disse Mina, também na casa dos vinte anos e de Teerã.

"Não tenho ideia do que vamos fazer agora. Acho que cada vez mais pessoas no Irã perceberam que Trump não se importa nem um pouco com elas. Eu o odeio do fundo do meu coração e odeio também aqueles que o apoiam."

Uma linha vermelha
Em janeiro deste ano, quando violentas manifestações contra o governo varreram o Irã, Trump disse que "a ajuda estava a caminho" para os manifestantes.

Mas ele não interveio quando as forças de segurança iranianas lançaram uma repressão sem precedentes, matando pelo menos 6.508 manifestantes e prendendo outros 53.000, segundo a agência de notícias americana Human Rights Activists News Agency (Hrana, na sigla em inglês).

Algumas das pessoas com quem a BBC conversou inicialmente viram os ataques EUA-Israel como a ajuda que lhes havia sido prometida. Mas a maioria delas agora vê os ataques à infraestrutura energética como o cruzamento de uma linha vermelha.

"Agradeci a Israel e aos EUA por quase tudo o que eles atingiram até agora", disse Arman, na casa dos 20 anos e morador de Karaj, a oeste de Teerã. A imprensa iraniana informou que 13 pessoas morreram e quase 100 ficaram feridas quando uma ponte em construção em Karaj foi bombardeada na quinta-feira (2/4).

"Eles devem ter tido bons motivos para escolher esses alvos [que foram atingidos]. Mas juro, atacar uma usina elétrica paralisa o país. Isso só beneficia a República Islâmica. Moro a cerca de 1km da maior usina elétrica de Karaj, e se eles a atacarem, será só sofrimento para mim."

Radin, também na casa dos 20 anos e morador de Teerã, disse: "Se atacar alvos no país derrubar a República Islâmica, para mim está ótimo. Porque se a República Islâmica sobreviver a esta guerra, ela permanecerá para sempre."



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