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porto velho, domingo 1 de fevereiro de 2026

A jogada de mestre que virou roteiro previsível
Algum tempo atrás escrevi um artigo intitulado a jogada de mestre do governador Marcos Rocha, quando ele anunciou, com pose de estadista responsável, que não seria candidato ao Senado Federal e que cumpriria integralmente seu mandato. Naquele momento, eu já dizia: isso não iria acontecer. Não era chute, era leitura política básica de um governo fraco, sem marca, sem obra estruturante e sem legado.
O tempo, como quase sempre, está confirmando.
A recente filiação de Marcos Rocha ao PSD de Gilberto Kassab não é um detalhe burocrático nem movimento inocente. É um recado claro: o governador entrou oficialmente no jogo eleitoral. Ninguém se filia a um partido nacionalmente pragmático, fisiológico e vocacionado ao poder para “terminar mandato”. Filia-se para disputar. O resto é encenação.

A chamada jogada de mestre, vendida lá atrás como gesto de desprendimento político, revela-se agora aquilo que sempre foi: marketing para ganhar tempo, oxigenar um nome desgastado e preparar o terreno. Funcionou no curto prazo. O governador voltou às manchetes. Mas manchete não substitui governo — e muito menos legado.
Ao se movimentar, Marcos Rocha empurra o vice-governador Sérgio Gonçalves para o centro da disputa. O roteiro é conhecido: Rocha candidato, Gonçalves assume o governo e tenta a reeleição com a máquina na mão. Um projeto de sobrevivência mútua, construído mais por falta de opção do que por força política real. Se der certo, comemoram. Se der errado, afundam juntos.
O estrago maior, no entanto, é coletivo. A direita rondoniense, já fragmentada, se esfarela ainda mais. Muitos nomes, muitos projetos pessoais e nenhuma liderança capaz de unificar o campo conservador. Vaidade vira estratégia. Improviso vira plano.
E é exatamente nesse caos que surge o beneficiário óbvio.
Enquanto a direita briga para ver quem herda um governo sem marca, cresce a possibilidade concreta de uma candidatura de esquerda, com apoio direto do presidente Lula, chegar ao segundo turno em Rondônia. E, hoje, esse nome tem endereço certo: Expedito Neto, pelo PT. Não por acaso, mas por matemática eleitoral, organização partidária e erros sucessivos dos adversários.
No fim das contas, Marcos Rocha pode até acreditar que está jogando xadrez em nível avançado. Mas, ao dividir seu próprio campo político, ajuda a recolocar a esquerda no jogo grande. E a história ensina: quando o marketing tenta substituir a política real, o tabuleiro cobra o preço.
Edson Silveira
Advogado, administrador, professor, membro da executiva estadual do PT/RO e pré-candidato a deputado federal pelo PT/RO.