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    porto velho, terça-feira 21 de abril de 2026

Vice na sombra ou peça-chave no tabuleiro? A disputa silenciosa que pode definir o governo de Rondônia

No fim, a definição do vice funciona como um retrato do próprio candidato. Mais do que completar a chapa, ela expõe o projeto de poder que está em jogo...


Redação

Publicada em: 21/04/2026 12:05:25 - Atualizado

PORTO VELHO - RO  - Enquanto os holofotes recaem sobre os nomes que encabeçam as chapas ao Governo de Rondônia, um movimento mais silencioso, porém decisivo, acontece nos bastidores: a escolha dos candidatos a vice. Em um cenário com sete postulantes ao Palácio Rio Madeira, apenas um deu o passo adiante. Hildon Chaves-UB já anunciou o deputado estadual Cirone Deiró como companheiro de chapa — gesto que antecipa não apenas estratégia, mas também leitura política do momento.

Os demais seguem em compasso de espera. Marcos Rogério-PL e Adailton Fúria-PSD travam negociações intensas, com um vetor claro: a busca por um nome de Porto Velho. A capital, maior colégio eleitoral do estado, tornou-se peça obrigatória na composição das chapas — não por acaso, nomes circulam, são testados e descartados, mas nenhum ainda consolidado.

Do outro lado do espectro, Expedito Netto-PT tenta inverter a lógica e procura um vice no interior, apostando na capilaridade regional como forma de compensar resistências urbanas. Já Samuel Costa-PSB, o eterno candidato, figura conhecida pelas sucessivas disputas que não obteve sucesso nas urnas, ainda não apresentou qualquer sinal concreto sobre sua composição.

Entre os menores, a estratégia se define mais por identidade do que por pragmatismo eleitoral. Luiz Teodoro deve seguir a tradição do partido e optar por uma chapa “puro sangue”, restringindo a escolha ao próprio PSOL. Já Ricardo Frota-PDT, apadrinhado por Acir Gurgacz, busca no interior um nome que agregue densidade eleitoral — tarefa que, nos bastidores, já é tratada como difícil.

Mais que coadjuvante

A escolha do vice, embora tradicionalmente tratada como etapa secundária, carrega implicações que vão muito além da formalidade. No desenho político clássico, o vice serve para equilibrar a chapa: capital e interior, técnico e político, direita e centro, popularidade e estrutura partidária. É, em muitos casos, o elo que fecha a conta eleitoral.

Mas há um componente menos visível — e mais decisivo. O vice é também um sinal. Sinal de alianças, de compromissos e, sobretudo, de limites. Indica até onde o candidato ao governo está disposto a ceder para ampliar sua base. E revela, com frequência, quem terá influência real em um eventual governo.

Na prática, o papel institucional do vice é claro: substituir o titular em suas ausências e assumir em caso de vacância. Politicamente, porém, o roteiro é outro. Há vices que operam como articuladores centrais, abrindo portas e sustentando governabilidade. Outros são relegados à irrelevância, reduzidos a figura protocolar — quando não se tornam peças descartáveis ao menor sinal de divergência.

Geografia eleitoral e cálculo frio

Em Rondônia, a equação costuma seguir uma lógica recorrente: candidatos da capital buscam um vice do interior, e vice-versa. A tentativa é simples — somar territórios, ampliar presença e reduzir rejeições regionais. Mas o cenário atual mostra que essa fórmula, embora ainda válida, já não é suficiente.

O que pesa hoje é o conjunto: densidade eleitoral, capacidade de transferência de votos, estrutura partidária, trânsito político e, não menos importante, lealdade. Em um ambiente de alta volatilidade, escolher mal o vice pode significar não apenas fragilidade eleitoral, mas risco de instabilidade futura.

A escolha que revela o projeto

No fim, a definição do vice funciona como um retrato do próprio candidato. Mais do que completar a chapa, ela expõe o projeto de poder que está em jogo. Há quem escolha para somar. Há quem escolha para neutralizar adversários internos. E há, ainda, quem escolha apenas para cumprir tabela — um erro que, na política, costuma cobrar caro.

Com exceção de uma chapa já definida, o restante segue em negociação. E é justamente nesse silêncio — entre reuniões reservadas, telefonemas e promessas — que se desenha uma das etapas mais estratégicas da corrida eleitoral.

Porque, no tabuleiro político, o vice pode até não ser o rei. Mas, mal posicionado, é capaz de derrubar o jogo inteiro.


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