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porto velho, sábado 21 de fevereiro de 2026
Há quem diga, com certa ironia, que a vida seria muito chata sem corrupção. Que é impossível não sermos, em algum momento, corruptos — ou ao menos corruptíveis. A provocação é boa, porque desloca a corrupção do noticiário e a coloca onde ela realmente ganha corpo: no cotidiano. Mas tudo depende do que chamamos de “chato”. Se “chato” for limite, espera, frustração, convivência com regras e processos, então sim: a integridade diária pode parecer um fardo.
Só que essa sensação não nasce da integridade. Ela nasce do mau funcionamento dos sistemas. A “chatice” é, muitas vezes, o atrito entre a vida real e estruturas que operam mal: burocracias que não explicam, filas que não andam, decisões que parecem arbitrárias, normas que mudam conforme o humor de quem as interpreta. Nesse cenário, o atalho vira tentação. E o atalho costuma vir com um bônus subjetivo: a impressão de agência.
Corrupção e cotidiano.
É aqui que a pergunta começa a ficar útil, como diagnóstico e longe de julgamento: qual é o ativo da sua corrupção? Que recurso interno ou externo você mobiliza, flexibiliza ou compromete para obter uma vantagem? Pode ser tempo. Pode ser prestígio. Pode ser conveniência. Pode ser reputação, neutralidade, silêncio, influência. Pode ser simplesmente a pressa. Pode ser a vaidade intelectual. Pode ser o pertencimento a um grupo, a uma corrente, a uma identidade. O ativo é aquilo que você paga ou penhora para que a realidade fique mais favorável do que deveria.
No dia a dia, chamamos isso de “jeitinho”, “atalho”, “dar um jeito”. E isso nem sempre aparece com o peso semântico de “corrupção”. Às vezes, parece só “eficiência”. Às vezes, “sobrevivência”. Às vezes, “pragmatismo”. Mas, quando se olha de perto, a lógica é simples: a regra se torna uma parede; o ativo vira a moeda para atravessá-la.
A pequena corrupção, nesse sentido, não é um grande crime. É uma microtransgressão. Uma distorção mínima. Um ajuste de rota. Um “só dessa vez”. O problema é que, quando a transgressão vira método, ela também vira cultura. E toda cultura ensina, por repetição, o que vale e o que atrapalha. Em todos, o mesmo princípio: há sempre algo que o indivíduo negocia (ainda que não admita) para ajustar a realidade ao seu favor. No senso comum, também é assim.
Então, a vida sem corrupção é chata?
Se “menos corrupção” significar apenas “mais fila” e “mais burocracia”, a vida pode parecer mais chata. Mas isso confunde causa e sintoma. A integridade não é o que torna a vida lenta; é o sistema que funciona mal. Em sistemas previsíveis, transparentes e eficientes, a vida tende a ser menos improvisada e, paradoxalmente, mais livre.
O que hoje gastamos com fricções desnecessárias poderia virar energia para trabalhar melhor, pesquisar melhor, aprender melhor, viver melhor. A corrupção, em especial a pequena, funciona como analgésico: alivia o indivíduo no curto prazo, mas preserva a doença no longo. Ela não conserta o sistema; ela nos ensina a operar dentro do defeito. E o defeito, por sua vez, passa a ser um recurso para justificar um fluxo. Portanto, independentemente de seu alcance ou “tamanho”, ser ou estar corrupto não exige genialidade. Exige apenas oportunidade e racionalização.
Há inteligência na corrupção?
A resposta depende do horizonte. A pequena corrupção pode parecer esperta no curto prazo: economiza tempo, abre portas, cria atalhos, reduz atritos. Em ambientes caóticos, ela pode até ser confundida com eficiência. Mas isso é uma esperteza de curto alcance.
Do ponto de vista da inteligência emocional, ela cobra caro. Exige autojustificativas repetidas, enfraquece a autoconsciência e normaliza pequenas distorções. Não transforma o sujeito em “mau”; transforma-o em alguém treinado para negociar consigo. A mente humana é habilidosa em produzir narrativas para reduzir o desconforto entre valores e ações e, quando essa habilidade vira hábito, o autoengano ganha rotina.
Do ponto de vista da inteligência estratégica, também é frágil. A vantagem obtida por atalho raramente escala sem risco. Ela depende de um ecossistema disfuncional. Ela tende a produzir dependência de conexões, favores, permissões informais. E cada favor cobrado ou concedido vira dívida difusa. A transgressão, que parecia “apenas um ajuste”, vira uma forma de vínculo.
Há, no entanto, um tipo de inteligência mais difícil e mais rara que opera em outra chave: a inteligência adaptativa. Ela não é a capacidade de burlar regras para vencer; é a capacidade de funcionar bem sem depender da violação do sistema. É rigor sem rigidez, método sem burocratização, flexibilidade sem oportunismo. É conseguir ajustar-se à complexidade mantendo coerência entre o que se sabe e o que se faz.
Essa inteligência exige mais: exige paciência institucional, capacidade de mediação, disposição para lidar com o tempo necessário. Ela exige uma ética que não seja heroica, mas cotidiana. E é justamente por exigir mais que parece menos sedutora em tempos de urgência permanente.
A contradição humana no centro da questão
A pequena corrupção persiste porque toca em necessidades humanas reais: busca de controle, fuga da impotência, desejo de reconhecimento, necessidade de pertencimento. Ela oferece uma sensação momentânea de vitória: “eu consegui”, “eu driblei”, “eu resolvi”. É uma recompensa rápida. Uma pequena descarga de validação. Uma dopamina social. Ao custo, as vezes, do desapreço à função social da atividade, trabalho, serviço, pessoa ou instituição.
E aqui mora a ambiguidade fática de que a transgressão alivia um desconforto que o sistema produz, mas, ao mesmo tempo, reforça o sistema que produz o desconforto. O atalho vira prova de esperteza. A regra vira prova de ingenuidade. A integridade passa a ser tratada como luxo ou como estupidez.
Por isso, uma pergunta sobre o ativo é mais fértil do que outra sobre culpa. O ativo não procura virtude. Procura mecanismo. Procura entender o que nos torna permeáveis ao atalho.
Ambiente acadêmico e a microcorrupção formativa
No ambiente acadêmico, essas microtransgressões frequentemente aparecem com um nível sofisticado de justificativa. A pequena corrupção aqui não é apenas “pequena”. Ela é formativa. Porque a universidade é, ao mesmo tempo, lugar de produção de conhecimento e de produção de sujeitos: ela ensina modos de pensar e modos de agir.
A microcorrupção acadêmica nasce do descompasso entre discurso e prática. E talvez seja útil vê-la não apenas como falha moral, mas como falha epistêmica: uma incoerência entre conhecimento e ação. Sabemos o que defendemos em seminários, bancas e artigos — e, ainda assim, flexibilizamos o método quando ele atrapalha. Festinger (1957) já mostrou como a mente concilia ações e valores por meio de narrativas. Na academia, esse mecanismo ganha vocabulário. O autoengano vira argumento.
Os exemplos não são raros. Um critério metodológico flexibilizado “porque o edital era curto”. Um procedimento ético contornado “porque todo mundo faz assim”. Um dado lido com generosidade “porque a hipótese precisa fechar”. Uma referência tratada com descuido “porque o professor não vai ler tudo”. Um silêncio coletivo “porque é melhor preservar a unidade do grupo”. Uma crítica evitada “porque amanhã tem banca, tem projeto, tem rede”. Um “só leio no celular”; “minha internet é lenta”.
Há também o ativo do prestígio. A tentação de exagerar a relevância de um resultado, de inflar a narrativa, de vender a pesquisa como produto pronto, quando ela ainda é processo. Há o ativo do pertencimento: aceitar padrões do grupo para evitar dissenso, ou para não parecer “ingênuo”, “moralista”, “fora do jogo”. Há o ativo do tempo: reduzir a reflexão ao mínimo necessário para cumprir a etapa e seguir adiante ou silenciar quem “está por fora do que fazemos”.
E há, sobretudo, um clima cultural mais amplo que alimenta tudo isso: a pressão por resultados rápidos e a transformação do diploma em mercadoria simbólica. Em vez de formação, consumo educacional. Em vez de profundidade, certificação. Em vez de estudo, performance.
Quando essa lógica se instala, a pequena corrupção deixa de ser exceção e vira racionalidade: um modo de operar que se justifica pela urgência. O “agora” vira critério. E o método, que deveria ser o coração da universidade, vira “atraso”, “excesso de fala”, “blá-blá-blá”, “gente atrasada”.
No fim, o ativo opera como moeda psíquica. Ele permite seguir adiante sem encarar o conflito entre o que se sabe e o que se faz. Reconhecê-lo produz clareza, sem pretensão de virtude, sem teatro moral.
Contexto local.
É nesse ponto que o ativo muda de escala. Ele deixa de ser apenas individual e passa a ser institucional. A forma como uma instituição fala de si, do seu método e do seu tempo não é neutra: ela educa, autoriza e desautoriza práticas.
No contexto local, reformas recentes na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) colocam em evidência um discurso administrativo que não é apenas administrativo. Ele é sintomático de um modo de operar alinhado a um ambiente político mais amplo: polarização, urgência permanente e desprezo pela mediação reflexiva recheada de mera descrença. Quando o contraditório em uma deliberação é ridicularizado como “discurso vazio” ou “fala demais”, não se critica apenas uma reunião; critica-se o próprio princípio universitário de justificar decisões com argumentos, dados e debate. Manter o ambiente às escuras sob molde da confiança ingênua.
Nesse ambiente, a pressa é elevada a virtude. A decisão vira sinônimo de eficiência. E a coragem passa a ser confundida com licença para ignorar a complexidade. Reformas estruturais, por vezes, aparecem como gestos abruptos, pouco coletivizados, com escuta insuficiente porque “já sabemos”, com pouca construção. A universidade, que deveria ser o lugar por excelência da mediação qualificada, corre o risco de perder seu método em nome de uma estética de ação.
E é aqui que a corrupção encontra seu terreno mais fértil: quando a impaciência vira política, o atalho vira regra, a democracia vira repulsa. E o pragmatismo, em vez de compromisso com resultados consistentes, vira uma palavra para justificar a supressão do processo e desprezo pela carreira acadêmica e as finalidades institucionais na vida real.
Não se trata de dizer que toda reforma é corrupção. Trata-se de observar como certos discursos públicos deslegitimam o tempo necessário, os atores, a escuta ativa e o rigor. E, quando isso acontece, a pequena corrupção deixa de ser um gesto individual e vira uma gramática do “resolve logo”, do “não precisa discutir”, do “faz e depois ajusta” porque “esperamos demais”.
Talvez a pergunta mais honesta que possamos sustentar, num país e num tempo em que a palavra “corrupção” se tornou arma de guerra e reflexo automático de indignação, não seja quem errou, mas onde cedemos. Dito de outro modo: O que, em mim, é negociável quando a regra me atrapalha? Que moeda eu mobilizo para contornar o obstáculo? E qual é o custo dessa escolha; não apenas o que pago em silêncio, mas o preço que transfiro aos outros para obter uma pequena vantagem?
A transformação consistente, se vier, não virá de slogans. Ela virá dessa lucidez. De enxergar a engrenagem interna que governa nossos pequenos desvios e como eles, acumulados, moldam decisões, instituições e futuros. Qual o seu preço e sua causa?
Saiba Mais.
Dicas essenciais:
Arendt, H. (1963). Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal.
Arendt, H. (1951). As origens do totalitarismo.
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. Stanford University Press.
Aguiar, O. A. (2004). A questão social em Hannah Arendt. Trans/Form/Ação, 27(2). https://doi.org/10.1590/S0101-...;
Referências jornalísticas e de divulgação científica:
BBC News Brasil. (2020). O que é dissonância cognitiva e como ela afeta decisões políticas e morais. BBC. (Explica como indivíduos justificam incoerências entre crenças e ações.)
El País Brasil. (2019). A banalidade do mal revisitada: por que normalizamos comportamentos antiéticos? El País. (Discussão sobre microtransgressões e autoengano.)
Nexo Jornal. (2021). Por que a pressa virou método político: decisões rápidas, pouca deliberação e estética da eficiência. Nexo Jornal. (A urgência como estética política e supressão do debate.)
Folha de S. Paulo. (2022). O jeitinho brasileiro e a cultura da microtransgressão. Folha. (A “pequena corrupção” como prática cotidiana normalizada.)
MIT Technology Review Brasil. (2023). Inteligência adaptativa: como organizações funcionam em ambientes complexos. MIT Review. (A inteligência adaptativa como alternativa à lógica do atalho.)
UOL Notícias. (2023). Universidades federais enfrentam disputas internas sobre governança e reformas aceleradas. UOL. (Reformas universitárias feitas sem debate e a crise de participação.)