Fundado em 11/10/2001
porto velho, domingo 10 de maio de 2026
O silêncio nunca é neutro. Ele
organiza relações, distribui poder e cria zonas de sombra onde decisões são
tomadas sem testemunhas. Quando ninguém responde - nem na intimidade, nem no
trabalho, nem nas instituições - não estamos diante de um acidente, mas de um
método. O que não é dito governa com mais força do que discursos ensaiados,
porque constrói um vazio onde apenas uma versão dos fatos permanece de pé.
Estamos vivendo tempos em que a
evitação se tornou comportamento, estratégia e até estética: Gaslighting,
ghosting, fandom. Palavras que nasceram em territórios distintos da psicologia,
aplicativos, comunidades de fãs, mas que hoje descrevem modos de nos
protegermos, omitirmos ou defendermos nas relações humanas.
De onde vêm esses termos e por
que importam
O termo gaslighting nasce da peça
Gas Light (1938), de Patrick Hamilton, e das adaptações cinematográficas de
1940 e 1944. Na história, um marido manipula a esposa para fazê-la acreditar
que está enlouquecendo, inclusive negando que as luzes a gás escurecem quando
ele mexe nelas no sótão. A palavra passou a ser usada nos anos 1960 para
descrever manipulação psicológica sistemática e, em 2022, foi eleita “palavra
do ano” pelo Merriam-Webster, após um aumento de 1.740% nas buscas — sinal de
que o fenômeno se tornou culturalmente central.
Ghosting, por sua vez, surge nos
anos 2000, associado a aplicativos de relacionamento. Não é apenas “sumir”: é
interromper abruptamente uma relação sem explicação, deixando o outro em
suspensão emocional. Já fandom remonta ao início do século XX, ligado a
torcidas esportivas e à ficção científica, e hoje designa comunidades
organizadas em torno de celebridades, influenciadores e até políticos.
O que vivemos no afeto escorre
para o coletivo. As dinâmicas emocionais não ficam restritas ao cotidiano
íntimo: elas se reconfiguram no trabalho, na política e na vida pública. O que
acontece na intimidade se replica, com orçamento e portarias, dentro das
instituições.
A realidade das distorções
assimétricas
Gaslighting, ghosting e fandom
operam sobre a mesma engrenagem: relações profundamente assimétricas. No
gaslighting, alguém manipula a percepção alheia até que o outro duvide de si
mesmo. No ghosting, a desigualdade é comunicacional: uma pessoa decide que o
outro não merece sequer uma explicação. No fandom, a assimetria é estrutural: o
ídolo não conhece o fã, mas o fã organiza afetos e identidade em torno de
alguém inalcançável. Esses comportamentos revelam uma cultura que desaprendeu a
lidar com conflito, frustração e alteridade.
O fandom é um terreno fértil para
o gaslighting coletivo e onde as asimetrias se encontram. Quando uma
“autoridade” comete um erro, parte da comunidade reorganiza a narrativa para
protegê-la: “você entendeu errado”, “isso é invenção da mídia”, “ele nunca
faria isso”. Esse mecanismo ecoa o que a literatura clínica identifica como
gaslighting: a distorção sistemática da percepção alheia para preservar o poder
de alguém.
O gaslighting
institucional opera pela distorção do evidente. Torna modernização o que é
centralização, chama eficiência o que suprime participação, nomeia
reorganização aquilo que, no cotidiano, se traduz em apagamento. Trata-se de
reconfigurar os fatos, até que a comunidade duvide da própria experiência
concreta.
Por sua vez, o ghosting
organizacional não é ausência inocente de resposta; é política tácita.
Perguntas sem retorno, ofícios que evaporam, canais de diálogo que se estreitam
até desaparecer. Nesses momentos, o silêncio deixa de ser contingência e se
torna procedimento. Sem interlocutor, não há conflito; sem conflito, a decisão
se impõe como inevitável, tornando as soluções meras questões de boa aplicação
da resiliência individual.
O capitalismo afetivo e a
cultura da evitação
Essa cultura da evitação não é um
desvio isolado: ela se articula ao capitalismo afetivo, que transforma relações
em cálculos de custo e risco. A evitação se torna forma de autopreservação e
mecanismo de gestão emocional e, com o tempo, também um modo de administração
pública.
A leitura sociológica desses
comportamentos sugerem que gaslighting, ghosting e as dinâmicas do fandom não
são desvios individuais, mas expressões de um capitalismo afetivo que
reorganiza nossas relações segundo a lógica da eficiência, do consumo e da evitação.
Zygmunt Bauman, ao descrever a modernidade líquida, argumenta que os vínculos
contemporâneos se tornaram frágeis e descartáveis, moldados pela mesma
racionalidade que rege o mercado e é, justamente nesse contexto, que
gaslighting e ghosting florescem como estratégias emocionais adaptativas.
O gaslighting, ao distorcer a
realidade para manter o controle, ecoa mecanismos descritos por Michel Foucault
em suas análises sobre poder e verdade, nos quais instituições e sujeitos
moldam percepções para preservar posições de autoridade. Já o ghosting elimina
o custo emocional do conflito, funcionando como aquilo que Eva Illouz chama de
“desengajamento afetivo”: uma forma de racionalização das emoções típica de
sociedades onde o indivíduo é treinado para otimizar até seus vínculos.
O fandom, por sua vez, transforma
relações em produtos, como observa Henry Jenkins ao analisar culturas
participativas: o ídolo é consumido, defendido, descartado e reembalado
conforme as demandas emocionais e mercadológicas do momento. Assim, esses comportamentos
não são anomalias, mas competências emocionais moldadas por um tempo que
privilegia a performance, a conveniência e a gestão estratégica dos afetos,
revelando uma cultura que prefere manipular, silenciar ou desaparecer a
sustentar a presença e a responsabilidade relacional.
Contexto local.
A Universidade Federal de
Rondônia vive processos que exigem olhar atento. Mudanças estruturais, revisões
estatutárias e redefinições de papéis fazem parte da trajetória de qualquer
instituição pública. Ainda assim, o modo como essas transformações são conduzidas
importa tanto quanto o conteúdo delas. Momentos de reforma geram dúvidas,
tensões e expectativas diversas, naturais em ambientes complexos e plurais.
No entanto, quando a circulação
da palavra se estreita, quando respostas se tornam raras e quando a escuta
perde densidade – porque imposta ou cosmética - a experiência democrática
declina, a fragilidade fica ainda mais aguda. É compreensível que gestões
busquem agilidade e que decisões precisem ser tomadas com rapidez. Mas a
ausência prolongada de conversas abertas, ainda que não intencional, abre
espaço para ruídos, interpretações distorcidas e sensação de distanciamento.
A gestão ganha tempo, mas corre o
risco de perder legitimidade simbólica, que é a base da autoridade
universitária. A universidade é feita de gente. E onde há gente, há expectativa
de diálogo. O silêncio, mesmo quando nasce de sobrecarga, cautela ou prudência,
produz efeitos políticos. Ele molda percepções, cria lacunas, gera incertezas.
A palavra que não circula volta pelo avesso.
No fim, “O que acontece quando ninguém responde?” Acontece
que a conversa se dissolve antes de começar. Acontece que a democracia interna
perde lastro, porque o diálogo deixa de ser prática e vira lembrança. Acontece
que a instituição passa a caminhar por corredores silenciosos, onde decisões
circulam sem rostos e onde a participação se torna eco distante. Fere. Magoa.
Dissemina desistências.
Talvez o maior perigo não seja o silêncio em si, mas o
momento em que nos acostumamos a ele. Quando deixamos de estranhar a ausência
de retorno. Quando paramos de perguntar. Porque uma universidade pode
sobreviver a conflitos e divergências; eles são parte de sua vitalidade
intelectual. O que ela não pode sobreviver é ao esvaziamento lento da escuta
genuína.
Saiba Mais.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade
Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. (Original: Liquid
Modernity, Polity Press, 2000)
BBC News Brasil. “Gaslighting: o que é e por que o termo se
tornou tão popular.” BBC News Brasil, 29 nov. 2022.
El País Brasil. “Quando o
governo some: a política do desaparecimento.” El País Brasil, 3 mar.
2021.
Folha de S.Paulo. “Reformas
universitárias e o apagamento da participação docente.” Folha de S.Paulo, 5
set. 2023.
Folha de S.Paulo. “Como
governos usam manipulação emocional para deslegitimar críticas.” Folha de
S.Paulo, 12 fev. 2023.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do
poder. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2013.
G1. “Fãs de políticos criam bolhas digitais e defendem
ídolos mesmo diante de fatos.” G1, 7 jul. 2023.
Nexo Jornal. “O que é fandom
político e como ele molda o debate público.” Nexo Jornal, 11 out. 2022.
Nexo Jornal. “O silêncio como estratégia política.” Nexo
Jornal, 18 ago. 2022.
Revista Piauí. “A universidade
sitiada: disputas de poder e controle narrativo.” Piauí, ed. 187, 2022.
Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br
The Chronicle of Higher
Education. “When Universities Silence Dissent.” The Chronicle, 18 mar. 2021.
Disponível em: https://www.chronicle.com.
The Atlantic. “Politics as
Fandom.” The Atlantic, 12 nov. 2020.
The Guardian. “Political
ghosting: leaders who vanish when accountability calls.” The Guardian,
22 jun. 2020. Disponível em: https://www.theguardian.com.
The New York Times. “When Leaders Gaslight: How Power Shapes Perception.” The
New York Times, 14 abr. 2021.
UOL. “Como a cultura do
cancelamento e do fandom molda comportamentos tóxicos.” UOL, 22 jan. 2024.