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    porto velho, domingo 10 de maio de 2026

O que acontece quando ninguém responde?


Por Walterlina Brasil

10/05/2026 09:20:57 - Atualizado


O silêncio nunca é neutro. Ele organiza relações, distribui poder e cria zonas de sombra onde decisões são tomadas sem testemunhas. Quando ninguém responde - nem na intimidade, nem no trabalho, nem nas instituições - não estamos diante de um acidente, mas de um método. O que não é dito governa com mais força do que discursos ensaiados, porque constrói um vazio onde apenas uma versão dos fatos permanece de pé.

Estamos vivendo tempos em que a evitação se tornou comportamento, estratégia e até estética: Gaslighting, ghosting, fandom. Palavras que nasceram em territórios distintos da psicologia, aplicativos, comunidades de fãs, mas que hoje descrevem modos de nos protegermos, omitirmos ou defendermos nas relações humanas.

De onde vêm esses termos e por que importam

O termo gaslighting nasce da peça Gas Light (1938), de Patrick Hamilton, e das adaptações cinematográficas de 1940 e 1944. Na história, um marido manipula a esposa para fazê-la acreditar que está enlouquecendo, inclusive negando que as luzes a gás escurecem quando ele mexe nelas no sótão. A palavra passou a ser usada nos anos 1960 para descrever manipulação psicológica sistemática e, em 2022, foi eleita “palavra do ano” pelo Merriam-Webster, após um aumento de 1.740% nas buscas — sinal de que o fenômeno se tornou culturalmente central.

Ghosting, por sua vez, surge nos anos 2000, associado a aplicativos de relacionamento. Não é apenas “sumir”: é interromper abruptamente uma relação sem explicação, deixando o outro em suspensão emocional. Já fandom remonta ao início do século XX, ligado a torcidas esportivas e à ficção científica, e hoje designa comunidades organizadas em torno de celebridades, influenciadores e até políticos.

O que vivemos no afeto escorre para o coletivo. As dinâmicas emocionais não ficam restritas ao cotidiano íntimo: elas se reconfiguram no trabalho, na política e na vida pública. O que acontece na intimidade se replica, com orçamento e portarias, dentro das instituições.

A realidade das distorções assimétricas

Gaslighting, ghosting e fandom operam sobre a mesma engrenagem: relações profundamente assimétricas. No gaslighting, alguém manipula a percepção alheia até que o outro duvide de si mesmo. No ghosting, a desigualdade é comunicacional: uma pessoa decide que o outro não merece sequer uma explicação. No fandom, a assimetria é estrutural: o ídolo não conhece o fã, mas o fã organiza afetos e identidade em torno de alguém inalcançável. Esses comportamentos revelam uma cultura que desaprendeu a lidar com conflito, frustração e alteridade.

O fandom é um terreno fértil para o gaslighting coletivo e onde as asimetrias se encontram. Quando uma “autoridade” comete um erro, parte da comunidade reorganiza a narrativa para protegê-la: “você entendeu errado”, “isso é invenção da mídia”, “ele nunca faria isso”. Esse mecanismo ecoa o que a literatura clínica identifica como gaslighting: a distorção sistemática da percepção alheia para preservar o poder de alguém.

O gaslighting institucional opera pela distorção do evidente. Torna modernização o que é centralização, chama eficiência o que suprime participação, nomeia reorganização aquilo que, no cotidiano, se traduz em apagamento. Trata-se de reconfigurar os fatos, até que a comunidade duvide da própria experiência concreta.

Por sua vez, o ghosting organizacional não é ausência inocente de resposta; é política tácita. Perguntas sem retorno, ofícios que evaporam, canais de diálogo que se estreitam até desaparecer. Nesses momentos, o silêncio deixa de ser contingência e se torna procedimento. Sem interlocutor, não há conflito; sem conflito, a decisão se impõe como inevitável, tornando as soluções meras questões de boa aplicação da resiliência individual.

O capitalismo afetivo e a cultura da evitação

Essa cultura da evitação não é um desvio isolado: ela se articula ao capitalismo afetivo, que transforma relações em cálculos de custo e risco. A evitação se torna forma de autopreservação e mecanismo de gestão emocional e, com o tempo, também um modo de administração pública.

A leitura sociológica desses comportamentos sugerem que gaslighting, ghosting e as dinâmicas do fandom não são desvios individuais, mas expressões de um capitalismo afetivo que reorganiza nossas relações segundo a lógica da eficiência, do consumo e da evitação. Zygmunt Bauman, ao descrever a modernidade líquida, argumenta que os vínculos contemporâneos se tornaram frágeis e descartáveis, moldados pela mesma racionalidade que rege o mercado e é, justamente nesse contexto, que gaslighting e ghosting florescem como estratégias emocionais adaptativas.

O gaslighting, ao distorcer a realidade para manter o controle, ecoa mecanismos descritos por Michel Foucault em suas análises sobre poder e verdade, nos quais instituições e sujeitos moldam percepções para preservar posições de autoridade. Já o ghosting elimina o custo emocional do conflito, funcionando como aquilo que Eva Illouz chama de “desengajamento afetivo”: uma forma de racionalização das emoções típica de sociedades onde o indivíduo é treinado para otimizar até seus vínculos.

O fandom, por sua vez, transforma relações em produtos, como observa Henry Jenkins ao analisar culturas participativas: o ídolo é consumido, defendido, descartado e reembalado conforme as demandas emocionais e mercadológicas do momento. Assim, esses comportamentos não são anomalias, mas competências emocionais moldadas por um tempo que privilegia a performance, a conveniência e a gestão estratégica dos afetos, revelando uma cultura que prefere manipular, silenciar ou desaparecer a sustentar a presença e a responsabilidade relacional.

Contexto local.

A Universidade Federal de Rondônia vive processos que exigem olhar atento. Mudanças estruturais, revisões estatutárias e redefinições de papéis fazem parte da trajetória de qualquer instituição pública. Ainda assim, o modo como essas transformações são conduzidas importa tanto quanto o conteúdo delas. Momentos de reforma geram dúvidas, tensões e expectativas diversas, naturais em ambientes complexos e plurais.

No entanto, quando a circulação da palavra se estreita, quando respostas se tornam raras e quando a escuta perde densidade – porque imposta ou cosmética - a experiência democrática declina, a fragilidade fica ainda mais aguda. É compreensível que gestões busquem agilidade e que decisões precisem ser tomadas com rapidez. Mas a ausência prolongada de conversas abertas, ainda que não intencional, abre espaço para ruídos, interpretações distorcidas e sensação de distanciamento.

A gestão ganha tempo, mas corre o risco de perder legitimidade simbólica, que é a base da autoridade universitária. A universidade é feita de gente. E onde há gente, há expectativa de diálogo. O silêncio, mesmo quando nasce de sobrecarga, cautela ou prudência, produz efeitos políticos. Ele molda percepções, cria lacunas, gera incertezas. A palavra que não circula volta pelo avesso.

No fim, “O que acontece quando ninguém responde?” Acontece que a conversa se dissolve antes de começar. Acontece que a democracia interna perde lastro, porque o diálogo deixa de ser prática e vira lembrança. Acontece que a instituição passa a caminhar por corredores silenciosos, onde decisões circulam sem rostos e onde a participação se torna eco distante. Fere. Magoa. Dissemina desistências.

Talvez o maior perigo não seja o silêncio em si, mas o momento em que nos acostumamos a ele. Quando deixamos de estranhar a ausência de retorno. Quando paramos de perguntar. Porque uma universidade pode sobreviver a conflitos e divergências; eles são parte de sua vitalidade intelectual. O que ela não pode sobreviver é ao esvaziamento lento da escuta genuína.

 

Saiba Mais.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. (Original: Liquid Modernity, Polity Press, 2000)

BBC News Brasil. “Gaslighting: o que é e por que o termo se tornou tão popular.” BBC News Brasil, 29 nov. 2022.

El País Brasil. “Quando o governo some: a política do desaparecimento.” El País Brasil, 3 mar. 2021.

Folha de S.Paulo. “Reformas universitárias e o apagamento da participação docente.” Folha de S.Paulo, 5 set. 2023.

Folha de S.Paulo. “Como governos usam manipulação emocional para deslegitimar críticas.” Folha de S.Paulo, 12 fev. 2023.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2013.

G1. “Fãs de políticos criam bolhas digitais e defendem ídolos mesmo diante de fatos.” G1, 7 jul. 2023.

Nexo Jornal. “O que é fandom político e como ele molda o debate público.” Nexo Jornal, 11 out. 2022.

Nexo Jornal. “O silêncio como estratégia política.” Nexo Jornal, 18 ago. 2022.

Revista Piauí. “A universidade sitiada: disputas de poder e controle narrativo.” Piauí, ed. 187, 2022. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br

The Chronicle of Higher Education. “When Universities Silence Dissent.” The Chronicle, 18 mar. 2021. Disponível em: https://www.chronicle.com.

The Atlantic. “Politics as Fandom.” The Atlantic, 12 nov. 2020.

The Guardian. “Political ghosting: leaders who vanish when accountability calls.” The Guardian, 22 jun. 2020. Disponível em: https://www.theguardian.com.

The New York Times. “When Leaders Gaslight: How Power Shapes Perception.” The New York Times, 14 abr. 2021.

UOL. “Como a cultura do cancelamento e do fandom molda comportamentos tóxicos.” UOL, 22 jan. 2024.


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