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porto velho, sábado 9 de maio de 2026

Eu não posso ignorar o que está acontecendo diante dos nossos olhos. Após 35 anos dedicados ao magistério, afirmo com convicção e preocupação, a sociedade brasileira parece caminhar para um estado de insensibilidade alarmante, onde o desprezo pela educação e por seus profissionais se tornou quase natural. Ser professor em qualquer lugar do Brasil, hoje, não é apenas enfrentar baixos salários, mas lidar com um ambiente de extrema pressão, perseguições constantes e riscos reais à integridade física e emocional. Essa realidade tem provocado algo ainda mais grave e silencioso, o adoecimento de professores e professoras, esgotados por uma rotina de medo, vigilância excessiva e desvalorização. O que deveria ser uma profissão de construção e esperança tornou-se, para muitos, uma atividade de sobrevivência.
Os dados são alarmantes e não podem ser relativizados. Uma pesquisa inédita realizada pela Universidade Federal Fluminense revela que cerca de 90% dos profissionais da educação já sofreram, presenciaram ou tiveram conhecimento de episódios de perseguição ou censura no ambiente educacional. Esse número evidencia que não se trata de casos isolados, mas de um fenômeno estrutural e disseminado por todo o país.
As formas de violência são múltiplas e preocupantes: agressões verbais atingem 25% dos educadores, enquanto 10% já sofreram agressões físicas, há ainda registros de demissões (6%), suspensões (2%), mudanças forçadas de local de trabalho (12%) e remoções de cargo (11%). Mais grave ainda é o impacto dessas situações: 71% dos profissionais relatam que sua vida profissional foi significativamente afetada após episódios de violência.
Esse cenário é agravado por um ambiente de censura velada ou explícita. Professores são frequentemente pressionados a evitar temas considerados “polêmicos”, como política (73%), gênero e sexualidade (53%), religião (48%), negaciosismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%). Isso compromete diretamente a função essencial da educação de formar cidadãos críticos e conscientes.
Ao mesmo tempo, observa-se uma banalização crescente da violência, amplificada pelas redes sociais e pelo fácil acesso de jovens a conteúdos digitais que, muitas vezes, reforçam comportamentos agressivos ou distorcidos da realidade. Em um contexto de desenvolvimento mental e emocional ainda em formação, essas influências podem ter efeitos profundamente nocivos.
Dentro das escolas públicas, a situação se torna ainda mais complexa. Professores lidam diariamente com estudantes em situações de vulnerabilidade extrema, incluindo jovens com transtornos psicológicos e até menores em conflito com a lei, sob monitoramento policial, soma-se a isso um ambiente de vigilância constante, pais, supervisores, direções escolares, conselhos tutelares, Ministério Público e tribunais de contas acompanham, cobram e fiscalizam o trabalho docente de forma intensa.
Essa pressão, aliada aos baixos salários e à falta de reconhecimento, transforma o professor em um dos profissionais mais sobrecarregados e expostos do mundo do trabalho. Não surpreende, portanto, que o Brasil enfrente hoje um preocupante apagão de professores, com cada vez menos pessoas dispostas a ingressar ou permanecer na carreira.
Diante desse cenário, é impossível não reconhecer que a crise na educação brasileira vai muito além da falta de recursos, trata-se de uma crise de valores, de prioridades e de respeito. Quando uma sociedade permite que seus educadores sejam desvalorizados, silenciados, perseguidos e levados ao adoecimento, ela compromete diretamente o seu próprio futuro.
Se não houver uma mudança urgente, que envolva valorização profissional, proteção efetiva aos docentes, revisão das condições de trabalho e um compromisso coletivo com a educação, o país continuará aprofundando um ciclo de decadência social e intelectual.
Defender o professor hoje não é apenas uma questão de justiça: é uma necessidade para a sobrevivência de uma sociedade minimamente equilibrada e democrática.
E tenho dito.