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porto velho, sábado 29 de novembro de 2025

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
PROCURA-SE O CHEFE
Arimar Souza de Sá
Procura-se — e paga-se muito bem — pela cabeça do chefe. Mas a cabeça há de estar intacta, e a lâmina, essa sim, deve cortar rente, na raiz do gogó, para que o resto do corpo ainda sirva para alguma autópsia moral — dessas que médico nenhum explica, mas o contribuinte entende de longe.
O Brasil, como sabemos, nunca foi terra de santos, embora boa parte da massa insista em endeusar quem convém e achar que Deus é brasileiro.
Reza a história que, lá pela década de 20, um sujeito magricelo, de óculos redondos e lentes grossas como bolinhas de vidro, reinou no sertão — perverso à beça — sem que ninguém ousasse perturbar seu sossego armado. Saqueava, matava e vilipendiava nas barbas do poder central. E ninguém se metia. Tinha nome e sobrenome: Virgulino Ferreira da Silva. Lampião.
O espantoso é que Lampião foi o único chefe que teve a decência — ou o deboche — de assumir seus malfeitos olhando no olho, sem rodeios, sem delações, sem CPIs. Depois dele, nos tropeços da insensatez nacional, nunca mais se encontrou um chefe verdadeiro, inspirador das grandes tramoias. O maestro do crime perdeu o rosto.
Quando o malfeito se instala na República, todos entram em cegueira coletiva: ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada — muito pelo contrário. O chefe evapora. E até seus defensores, que o conhecem de bolso e de churrasco, fazem cara de paisagem e juram ignorância. Sinal claro de que anda bem protegido.
Tempos atrás, porém, o Brasil viveu a Lava Jato, e dali se abriu um álbum de horrores cujas páginas se folheavam sozinhas, como livro assombrado. A operação revelou desvios que ultrapassaram R$ 88,8 bilhões só na Petrobras — um rombo tão grande que, se o Brasil fosse um barco, estaria no fundo do Atlântico ao lado do Titanic.
Vieram então o Mensalão e o Petrolão, irmãos siameses na arte de solapar o dinheiro público. O MPF estima que só Petrolão desviou ao menos R$ 2,1 bilhões; o Mensalão, R$ 101 milhões. Antes disso, os “Vampiros da Saúde” já tinham sugado R$ 4,08 bilhões do orçamento dos doentes, como morcegos burocráticos pendurados no teto do SUS.
O caso Petrobras foi classificado como o segundo maior escândalo de corrupção do mundo — e não por acaso: ali se superfaturava até silêncio. Prenderam alguns, algemaram outros, mas o chefe verdadeiro nunca apareceu. Evaporou pela porta dos fundos, acolhido por sombras, afagos e toga amiga que apagou tudo depois, como quem passa o apagador num quadro.
No “Orçamento Secreto”, R$ 53,9 bilhões foram despejados no breu entre 2020 e 2022, irrigando lealdades improvisadas como quem molha samambaia velha na varanda. E, para completar o circo, fraudes no INSS prejudicaram milhares de segurados — sobretudo velhinhos — num prejuízo de R$ 6,3 bilhões. Já nas estatais, puxando pelos Correios, o rombo chega a R$ 6,35 bilhões. E o chefe dessas manobras? Sumiu como truque de fumaça.
Em Rondônia, o enredo não é melhor: procura-se o chefe que mandou furar a fila dos precatórios da CAERD; o chefe dos empréstimos fantasmas no Banco do Brasil; o chefe da rachadinha doméstica nos dois poderes legislativos; o chefe que sempre está, mas nunca aparece — e que, com um piscar de olhos ao padrinho certo, sempre se safa a bordo de SW4 de luxo, ar no talo e segurança particular.
Mas procura-se o chefe — e, por mais que se cace, ele não se deixa encontrar. Também pudera, Chefe, que é chefe, é como polvo: existe, mas se confunde com as cores da água. Não tem braços — tem ventosas. Não tem olhos — tem mão grande e de seda. É eloquente, veste terno italiano, desliza pelas brechas da lei e sempre encontra o caminho do bom refúgio — acolchoado, climatizado e sem riscos.
Chefe dos “bão”, diz o amigo caipira, é pegajoso, viscoso, gomoso — quase uma lesma com pós-doutorado em disfarce — e some no momento certo, protegido por gente poderosa que garante sua sobrevivência e sua “inocência” perpétua.
E eu, que sou católico praticante, rezo a Deus todas as terças na Catedral para que se encontre logo esse tal chefe — o perverso, o pervertido. Dizem que ele anda por aí, fagueiro, perfumado, vivendo de ar-condicionado, luxo e cafuné institucional, atormentando os honestos enquanto cutuca satanás com vara curta.
Contudo, enquanto não o encontramos, assistimos às vendas de deputados, às medidas provisórias que sangram o Estado, às manobras para encaixar emendas e indicar a construtora — a farra da verba indenizatória, os malabarismos que amanhã virarão dores lombares em quem paga a conta.
Mas, como tudo é questão de tempo — e, no Brasil, quase sempre a destempo — seguimos com a lanterna numa mão e a esperança torta na outra, procurando o tal chefe como se procurou Lampião: sabendo que existe, sabendo que manda, sabendo que nunca será encontrado e, se for, sairá escondido sob manta preta de veludo jurídico. Cruz credo… melhor nem me meter com esse 'desgramado'!
Mas, se por um milagre você trombar com o chefe por aí, nos corredores do poder, não hesite: dedure. Conte. Compartilhe. Talvez seja a única chance de descobrir quem é o dono das ventosas, da mão de seda e do rastro engomado que atravessa os cofres públicos — sempre leve, nunca preso, sempre solto, jamais silenciado pelas grades.
AMÉM!