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porto velho, sábado 25 de abril de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Quando a dor não ensina, é porque a soberba se recusou a aprender
Por Arimar Souza de Sá*
Nesta semana, em uma feira de Porto Velho, enquanto aguardava atendimento, um senhor chegou em um carro de luxo. Estacionou, desceu, cumprimentou-me e, ao ouvir a pergunta simples — “tudo bem?” — respondeu, sem sequer me conhecer: “Agora está.”
Em seguida, narrou a travessia de uma doença grave — o câncer. Falou de dias ásperos, de lágrimas, da proximidade do abismo — um relato que me tocou. Mas, quase no mesmo fôlego, voltou-se contra um vendedor de peixe e, diante de todos, disparou uma reprimenda carregada de soberba, acusando-o de ter vendido produto estragado.
A cena se partia em dois: de um lado, o homem que enfrentou a dor; de outro, alguém intacto na arrogância — como se tivesse atravessado a tempestade sem absorver qualquer lição. E é isso que inquieta: a vida, quando decide ensinar, não usa palavras — usa impacto. Interrompe o roteiro, sacode certezas e impõe silêncio...
Foi assim na pandemia, quando o mundo parou e vidas foram solapadas, num chamado coletivo que muitos preferiram ignorar. Outros prometeram ser melhor, mas não cumpriram. E segue sendo nas perdas íntimas, nos lutos e nos prejuízos que desfazem planos como um temporal arrancando telhas: a lição vem, dura e clara — o que muda é quem aceita aprendê-la.
Cada golpe traz um aviso: repensar, rever, recomeçar. A dor ensina, mas não obriga. Há quem atravesse o sofrimento com o peito rasgado e, ainda assim, siga no mesmo rumo: por fora recomposto, por dentro endurecido. A soberba se instala, o pedantismo corrói em silêncio, e o sujeito sequer percebe que é autor, ator e espectador do próprio equívoco. Quem maltrata um trabalhador indefeso, que ganha o pão com o suor do rosto, empobrece a si mesmo sem notar.
E digo isso também olhando para mim. Na maturidade, quando a experiência deveria reduzir erros, tenho me policiado no trato com as pessoas — não por virtude plena, mas por consciência. É fácil endurecer, elevar o tom, impor razão onde caberia respeito. Por isso, a vigilância sobre si é diária e inegociável.
Eu vivi um recorte disso. Há dez anos, após romper o quadríceps em uma queda dentro de casa, fui operado às pressas e fiquei com a mobilidade de uma das pernas comprometida. Numa madrugada, uma enfermeira insistiu em aplicar uma injeção em veias já exaustas. Pedi um instante — fui ignorado. “O senhor é mole”, disse ela, depois errou três vezes e tive que suportar. Na alta, diante dos donos do hospital e com ela ao lado, ao ser questionado, respondi que havia sido bem tratado. Mais tarde, a sós, pediu desculpas. Perguntei se havia aprendido. Disse que sim, de cabeça baixa. Saí dali com um freio a mais na alma. Quem cuida da dor alheia precisa de vocação — e, sobretudo, humanidade.
Episódios pequenos iluminam verdades grandes. O ego, quando cresce sem controle, desumaniza e estilhaça o entorno. Não é preciso ser juiz para perceber o excesso: a necessidade constante de se impor, de se afirmar, de se sobrepor. Em público, isso se transforma em espetáculo — e, quase sempre, em ridículo.
Mas a vida cobra. Sem protocolo, sem aviso. Mostra que títulos não salvam, cargos não protegem e a arrogância não sustenta ninguém quando o chão cede. Enquanto alguns aprendem com as pancadas, outros seguem abrindo fissuras por onde passam, como se não houvesse amanhã. E há. E o tempo, paciente e implacável, apresenta a conta. Talvez por isso este tempo tenha sido tão duro: para revelar o que somos quando nos arrancam os disfarces. Quando tudo cai, o que permanece? Em muitos casos, quase nada.
Se a dor não nos torna mais humildes, mais humanos, mais atentos após o infortúnio, então foi sofrimento desperdiçado. É hora de abrir as janelas da alma, deixar o ar circular, limpar o que pesa. Menos soberba, menos vaidade, menos dureza. Mais domínio do ego. Mais humanidade — essa virtude simples, quase esquecida, mas ainda capaz de reconstruir o que o orgulho insiste em destruir na frente dos outros.
Antes de ferir, é preciso parar. Olhar para dentro. Reaprender o essencial: tratar bem, respeitar, conter a vaidade.
Nenhuma dor vem vazia. Sempre traz um recado. A diferença está em quem tem coragem de escutar — e em quem insiste em permanecer o mesmo, mesmo depois de tudo.
Porque, quando a conta chega, não reconhece títulos, riqueza, nem se curva à arrogância. Cobra humanidade.
E quem ignora isso, mesmo tendo atravessado o pior, segue pagando — caro — pela própria cegueira, ou pela burrice de desdenhar do céu.
É tempo de reflexão.
Amém!
*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.