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porto velho, sexta-feira 26 de junho de 2026
O DEBOCHE DO PRESIDENTE E O DILEMA DO GÊNIO DA CAMISA 10
*Arimar Souza de Sá
No futebol, há atletas que passam pela história. Outros desenham a paisagem com os pés. Neymar da Silva Santos Júnior pertence ao altar dessa segunda categoria.
No campo político, há governantes que governam. Outros discursam para plateias já convencidas e, diante dos inúmeros problemas do país, encontram tempo para debochar de um jogador lesionado e convivendo com dores.
O presidente Lula resolveu mirar Neymar. Não o roubo dos aposentados, não a insegurança, não as filas da saúde. Não os escândalos que rondam o noticiário político e atormentam a vida dos "cumpanheros"... Neymar!

Neymar tem defeitos? Evidentemente. Como qualquer figura pública. Mas existe uma diferença abissal entre criticar e zombar. Lula debochou da contusão do jogador ao chamá-lo de atleta "home office". A crítica eleva o debate; o deboche o rebaixa. A crítica ilumina; a zombaria apenas arranca aplausos fáceis da claque acomodada de camisa vermelha na arquibancada e sempre pronta a dizer sim.
Gostem dele ou não, concordem ou não com suas escolhas, ninguém apaga o que fez dentro de campo. Artilheiro da Seleção Brasileira, protagonista de uma geração inteira, dono de gols que desafiaram a lógica e de jogadas que transformaram estádios em templos de espanto. Durante anos, Neymar foi o menino que carregava a bola como quem transporta um tesouro entre as chuteiras.
Foi o último grande representante do futebol-arte, do futebol moleque. O drible insolente. A ousadia sem bula e os tentos memoráveis. A irreverência que transformava zagueiros em estátuas e fazia multidões se levantarem antes mesmo de a bola encontrar a rede.
É curioso: bastou estar machucado para se tornar alvo. Se estivesse marcando gols, talvez fosse tratado como herói nacional. No Brasil, o julgamento frequentemente muda de direção conforme sopra o vento da conveniência política.
Os gols contra a Croácia, o Japão, o Paraguai e a Argentina. Os lances de placa no Santos Futebol Clube, no FC Barcelona, no Paris Saint-Germain e na Seleção Brasileira. E até contra o meu Clube de Regatas do Flamengo — Ave Maria!
Em Paris, Neymar fez a Torre Eiffel brilhar ao som do seu nome. Tudo isso está gravado na memória coletiva de milhões de brasileiros. Não se apaga um patrimônio esportivo com uma piada de ocasião. Certos feitos sobrevivem ao tempo, às críticas e até aos próprios detratores.
Atletas não são máquinas. São feitos de carne, osso, tendões e cicatrizes. Passam por fases ruins. Sofrem derrotas. Envelhecem. Caem. Levantam. E, às vezes, carregam dores que o público sequer imagina. Arthur Antunes Coimbra que o diga.
As contusões que interromperam parte da trajetória de Neymar não diminuem sua grandeza. Ao contrário: apenas lembram que até os gigantes sangram, sentem dor e choram. A glória nunca esteve na ausência das quedas, mas na coragem de se levantar depois delas.
Na Argentina, Diego Armando Maradona continua sendo tratado como uma divindade popular. Em Portugal, Cristiano Ronaldo tem até estatura. E Lionel Messi, ainda em atividade, é reverenciado como patrimônio nacional. Os argentinos compreenderam algo simples: um ídolo não precisa ser perfeito para ser reconhecido.
E o Brasil?
O Brasil, muitas vezes, parece especializado em demolir os próprios monumentos, começando de cima. Constrói estátuas durante o sucesso e afia martelos na primeira dificuldade. Ergue altares na vitória e prepara o pelotão de fuzilamento na derrota.
Por isso causa estranheza quando o deboche parte justamente da mais alta autoridade da República. O presidente da Nação não veste a camisa de uma torcida. Veste a faixa de capitão de um país inteiro. Por isso, deveria desejar a rápida recuperação do craque, e não o transformar em alvo de escárnio.
O Brasil já está dividido demais. Separado por ideologias, ressentimentos, eleições e paixões partidárias. Não precisa que suas lideranças aprofundem trincheiras. Precisa que construam pontes. Precisa de estadistas, não de animadores de torcida.
Enquanto isso, o brasileiro segue fazendo o que sabe desde sempre: pagando a conta da ousadia dos grandes, assistindo ao jogo do sofá de casa e torcendo para que alguém, em Brasília, resolva levar o país mais a sério do que uma disputa de arquibancada em busca de aplausos fáceis.
O papel de um presidente é unir. É governar para quem votou e para quem não votou. É falar para a arquibancada inteira, não apenas para um setor do estádio vestido de vermelho. Porque presidentes passam. Mandatos terminam. Palanques são desmontados. Mas os grandes personagens do esporte permanecem habitando a memória dos povos.
E Neymar, com todos os seus defeitos e virtudes, já entrou nesse território reservado aos ídolos que o tempo não consegue expulsar nem apagar.
O menino da camisa 10 pode até deixar os gramados. Mas seus gols e sua genialidade continuarão correndo livres pelas telas, atravessando gerações como relâmpagos engarrafados na memória popular. Basta perguntar para as crianças.
Porque a bola para. O cronômetro zera. Mas o talento verdadeiro continua jogando muito depois do apito final.
É tempo de reflexão.
E, para alguns, talvez também seja tempo de desagravo.
AMÉM!