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porto velho, sexta-feira 9 de outubro de 2026

A forte estiagem no rio Madeira tem agravado as dificuldades enfrentadas por comunidades ribeirinhas de Porto Velho. Além da falta de água potável, a redução do nível do rio compromete o transporte fluvial, prejudica a produção agrícola e dificulta o acesso de crianças e adolescentes à escola. A situação expõe a vulnerabilidade de famílias que dependem diretamente do rio para sobreviver.
Na comunidade Bom Será, moradores enfrentam problemas para conseguir água própria para consumo. Segundo Elizete Mota Leite, presidente da associação local, a região não dispõe de poço próprio para atender todas as famílias, e a alternativa existente não oferece água potável. A preocupação é que a estiagem também comprometa o abastecimento dos poços artesianos.
Os prejuízos atingem igualmente os trabalhadores rurais. A agricultora Maria Rita relata que ficou quase quatro meses sem conseguir retirar bananas de sua propriedade. Com as dificuldades de acesso ao bananal e de transporte da produção, parte dos frutos acabou estragando antes de chegar ao destino, provocando perdas financeiras.
Na comunidade Brasileira, a mudança da paisagem também preocupa os moradores. Telma Temes da Silva, que vive há 41 anos na região, relata que extensos bancos de areia ocuparam áreas antes cobertas pela água. A transformação do leito do Madeira aumentou as dificuldades de navegação e despertou o temor de que a situação se agrave nos próximos anos.
A educação também sofre os efeitos da seca. O filho de Telma estuda na comunidade de São Carlos e precisa caminhar de quatro a cinco quilômetros para chegar ao ponto de embarque do transporte fluvial. O percurso, que já representa um desafio cotidiano, tornou-se ainda mais difícil com o recuo das águas.
RIO ABAIXO DO NÍVEL ESPERADO
Dados do SipamHidro, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), apontaram que o rio Madeira atingiu 2,62 metros na terça-feira (6), enquanto a média prevista para o período era de aproximadamente 3,9 metros. O nível está mais de um metro abaixo do esperado para esta época do ano.
Embora a estiagem seja recorrente entre julho e novembro, no chamado verão amazônico, a situação de 2026 foi agravada, segundo a Defesa Civil Municipal, pela influência do fenômeno El Niño.
Diante dos impactos, a Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência por 180 dias, classificando a ocorrência como desastre de nível II. Conforme a administração municipal, cerca de 22,9 mil pessoas são afetadas em 85 localidades, incluindo áreas rurais, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas.
O decreto permite buscar apoio dos governos estadual e federal para medidas emergenciais, como o fornecimento de água potável por caminhões-pipa e embarcações. A baixa do rio também dificulta a navegação por causa dos bancos de areia e das rochas, levando a restrições para o tráfego noturno e à redução dos comboios de balsas de carga.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) prevê concluir os serviços de dragagem até novembro. Enquanto isso, moradores das comunidades ribeirinhas seguem enfrentando os efeitos da estiagem, que compromete o abastecimento, a renda e o acesso a serviços essenciais.
O cenário reforça a necessidade de assistência emergencial às populações mais afetadas e de medidas para garantir água potável, mobilidade e continuidade das atividades escolares durante o período crítico de seca.