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porto velho, sexta-feira 19 de junho de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA -
*Arimar Souza de Sá
Há homens que passam pelo tempo. Outros fazem o tempo passar por eles. João Dalmo Alves da Silveira pertence a essa segunda linhagem rara.
Nascido em 28 de fevereiro de 1947, em Porto Velho, então Território Federal do Guaporé, cresceu quando a cidade ainda ensaiava seus primeiros passos. Menino do bairro Santa Bárbara, viveu entre ruas de terra, campos improvisados e uma Porto Velho que ainda não sabia o tamanho da própria história.
Como quase todo garoto de sua geração, sonhou com a bola nos pés. Vestiu a camisa do Ferroviário e perseguiu gols. Mas o destino, esse árbitro invisível que nunca consulta ninguém, soprou outro rumo. Tirou-lhe as chuteiras e lhe entregou um microfone. Foi a melhor substituição de sua vida.
Em 7 de setembro de 1968, estreou nas transmissões esportivas da Rádio Caiari ao lado de Walter Santos, durante uma partida entre Ferroviário e Nacional de Manaus. Nascia ali uma trajetória que atravessaria décadas.
Naquele tempo, o rádio não era apenas um veículo de comunicação. Era ponte, companhia, jornal, espetáculo e janela para o mundo. Não havia internet, televisão ou redes sociais. Havia apenas a voz.
E a voz de João Dalmo ajudou gerações de rondonienses a enxergarem partidas que seus olhos não podiam alcançar. Pelo pequeno radinho de pilha, ele pintava gramados, desenhava jogadas e transformava sons em imagens.
Enquanto Porto Velho crescia, ele crescia junto. Viu a cidade trocar de pele, alargar avenidas, derrubar casarões, apagar costumes e reinventar paisagens. Mas nunca perdeu o sotaque afetivo de quem continua pertencendo ao lugar onde nasceu.
Percorreu o Brasil acompanhando a Seleção Brasileira, decisões históricas e grandes clássicos. Conheceu estádios lendários e personagens inesquecíveis. Ainda assim, sempre carregou Porto Velho na bagagem.
Com a chegada da televisão, em 1974, participou dos primeiros momentos da TV Rondônia. A voz ganhou rosto. O comentarista transformou-se em referência. E uma cidade inteira passou a reconhecer a figura que, durante anos, habitara apenas sua imaginação.
Mas João Dalmo nunca foi apenas esporte. Pertence à geração que viveu a Porto Velho dos clubes, dos carnavais, das serenatas e das amizades que atravessavam madrugadas. Filho do conhecido Guarda Silveira, perdeu a mãe aos 16 anos e aprendeu cedo que a vida também exige resistência fora dos gramados.
Viveu a cidade dos boêmios, dos músicos, dos seresteiros e dos personagens que pareciam ter escapado das páginas de um romance amazônico. Morou no lendário Purgatório, acumulou histórias, gargalhadas e memórias que hoje formam um patrimônio invisível da capital.
Também revelou talento para os negócios. Das transmissões esportivas nasceu a agência J. Dalmo Publicidade e Promoções, incentivada por Phelippe Daou. Mais uma vez, enxergou caminhos onde outros viam apenas estradas fechadas.
Hoje, aos 79 anos, segue diante dos microfones da Rádio Rondônia. E basta ouvi-lo por alguns minutos para entender que a velha Porto Velho ainda não desapareceu. Ela continua ali. Escondida entre uma lembrança e outra. Guardada na memória de homens como João Dalmo.
Talvez essa seja a missão dos grandes comunicadores: não apenas informar os fatos, mas impedir que eles morram. Porque o tempo derruba prédios, apaga fotografias e silencia gerações.
Mas enquanto João Dalmo continuar contando histórias, uma parte da alma de Porto Velho continuará falando ao ouvido de Rondônia. E quando a história do esporte rondoniense for escrita em definitivo, seu nome não estará apenas nas páginas. Estará na própria capa, mas com o galardão do povo desta terra.
Salve João Dalmo, salve o esporte.
É TEMPO DE HOMENAGEM!
AMÉM!
* O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.