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    porto velho, sexta-feira 6 de fevereiro de 2026

Ator da Globo, José de Abreu anuncia candidatura a deputado federal pelo PT

A aposta em figuras polarizadoras revela estratégia de mobilização e controle de base, priorizando engajamento em vez de construção institucional


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Publicada em: 06/02/2026 09:28:12 - Atualizado

José de Abreu anunciou candidatura a deputado federal pelo PT. Isso causa estranheza porque a política, na sua essência, não é palco. É mediação. É o espaço onde pessoas diferentes, com interesses conflitantes, precisam chegar a algum tipo de acordo para continuar vivendo juntas.

Por isso, política exige algo cada vez mais raro: capacidade de diálogo, flexibilidade e autocontenção. Não é sobre vencer o outro, mas sobre não inviabilizar a convivência. É nesse ponto que candidaturas baseadas em personagens, e não na função, revelam menos renovação e mais sintoma.

A candidatura de José de Abreu não chama atenção por ideologia, mas por perfil. Um artista que construiu sua trajetória pública a partir do confronto e da exposição entra na política carregando a lógica do palco: reação, aplauso e antagonismo. O problema não é ter posições firmes. É quando o histórico público revela dificuldade de autocontenção diante do conflito.

O episódio amplamente noticiado em que José de Abreu cuspiu em uma mulher dentro de um restaurante, em 2019, não incomoda apenas como fato isolado. Ele é simbólico. Expõe a ausência de freio, exatamente o oposto do que a política exige de quem precisa mediar diferenças.

Isso não é exclusividade da esquerda

Do outro lado do espectro, Nikolas Ferreira oferece exemplo igualmente ilustrativo. Ao subir à tribuna do Congresso usando uma peruca loira, não estava exercendo diálogo nem tentando convencer quem pensa diferente. Estava performando sua identidade, falando exclusivamente para a própria torcida. Aquilo passou longe de política. Foi encenação. Gestos simbólicos feitos para mobilizar base, não para ampliar conversa.

O efeito é o mesmo: quem vota se afasta da possibilidade de diálogo, enquanto quem discorda se fecha ainda mais. O gesto não constrói ponte. Queima a ponte e posa ao lado do incêndio.

O resultado é um Parlamento ocupado por radicais opostos que não se encontram. Cada um fala para o seu público, reforça sua identidade e mantém a guerra simbólica funcionando. Não há mediação, negociação ou política. Há só fã-clube.

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Esse modelo pode até funcionar eleitoralmente. Mobiliza, engaja e fideliza. Mas cobra um preço alto: a política deixa de organizar o coletivo e vira extensão da personalidade. Antes, o personalismo se apoiava no palanque e na TV. Hoje, se apoia na rede social, na performance e na polarização permanente. Sempre foi projeto de poder, raramente projeto de política.

A experiência internacional mostra que a transição do palco para a política só funciona quando o personagem cede espaço à função. Volodymyr Zelensky, ex humorista, conseguiu fazê-lo diante da guerra. Arnold Schwarzenegger encontrou limites quando a performance já não bastava. O teste nunca é a eleição, mas o exercício do cargo.


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