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porto velho, sexta-feira 10 de julho de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
A camisa da Seleção pesa. Dos homens, nem tanto
Arimar Souza de Sá
O Brasil caiu nas oitavas de final. Mas a eliminação foi apenas o último capítulo de uma decadência anunciada. Perdeu-se o jogo. Muito antes dele, perderam-se a alma e a vergonha.
Houve um tempo em que Copa do Mundo era liturgia nacional. As ruas vestiam verde e amarelo, as calçadas ganhavam tinta nova e o radinho de pilha transformava narradores em poetas. Bastava soar o Hino Nacional para um país inteiro esquecer suas diferenças. Durante noventa minutos, éramos apenas brasileiros. Hoje, sobra marketing. Faltam futebol, identidade e entusiasmo.
A Seleção transformou-se numa vitrine de celebridades globais que pareciam entrar em campo apenas para cumprir protocolo. Faltou indignação. Faltou entrega. Faltou sangue nos olhos. Sobrou acomodação. Faltou a rebeldia de quem prefere cair de pé, consumido pela exaustão, a permanecer de joelhos pela apatia. Faltou ao Brasil a alma que sobrou à Argentina quando buscou uma virada improvável depois de estar perdendo por dois a zero.
O torcedor nunca exigiu vitórias eternas. Futebol não oferece garantias. O que sempre cobrou foi compromisso. Garra. Respeito à camisa. Pelé, Garrincha, Rivellino, Tostão, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e Cafu entenderam isso. Para eles, vestir a amarelinha não era um contrato. Era um juramento. Nesta Copa, pareceu apenas mais um compromisso da agenda.
Tudo começou quando a CBF transformou a desorganização em método. Trocou dirigentes, técnicos e projetos como quem troca de camisa. Vive de improvisos, disputas internas, interferências políticas e denúncias. Nos gabinetes, o poder parece valer mais que o futebol.
O resultado foi uma Seleção sem identidade, liderança ou personalidade. E, como acontece sempre que uma estrutura apodrece, surgiram culpados convenientes. O escolhido da vez foi Neymar. Pouco se falou do gol perdido por Endrick, cara a cara com o goleiro, ou do pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães.
Neymar ficou fora de quase toda a Copa e atuou por apenas vinte minutos. Converteu seu pênalti com personalidade e provocou o goleiro adversário, como fazem grandes competidores desde que o futebol existe. A provocação faz parte da guerra psicológica das decisões.
Ainda assim, para setores da imprensa e da esquerda, suas convicções políticas passaram a pesar mais que sua história dentro de campo. Provedor de um instituto que atende cerca de três mil crianças em Praia Grande (SP), artilheiro da Seleção e autor de gols inesquecíveis, acabou julgado por pensar diferente, enquanto a incompetência administrativa que há anos corrói a CBF permaneceu sem uma crítica dos detratores do gênio da bola.
É mais fácil crucificar um craque do que enfrentar uma instituição que, apesar da abundância de recursos, enferrujou por dentro. A ferrugem da má gestão apagou o brilho de uma camisa que um dia intimidou o mundo.
A verdade é incômoda. O Brasil não perdeu apenas para um adversário. Perdeu para a burocracia, para a vaidade e para o improviso. Perdeu para homens que deixaram a coragem no vestiário. Porque covardes não morrem. Apodrecem em vida.
Sou de uma geração que conhecia seus jogadores pelo apelido. Bastava ouvir Zico, Júnior, Falcão ou Careca para que uma lembrança surgisse imediatamente. Pareciam morar na casa ao lado.
Hoje, muitos brasileiros mal conseguem escalar a Seleção. Os jogadores tornaram-se marcas globais antes de se transformarem em ídolos nacionais. Talvez por isso Rondônia, assim como boa parte do país, tenha assistido a esta Copa sem o fervor de outros tempos.
O amor pelo Brasil não morreu. O que morreu foi a confiança. E é isso que dói. Cada derrota arrancou um pedaço daquele menino que pintava o rosto de verde e amarelo, acreditava que um gol podia iluminar o dia de um país inteiro e corria para a televisão como quem corria ao encontro da felicidade.
Esse menino ainda vive dentro de nós. A CBF é que deixou de enxergá-lo. Talvez aí esteja o maior fracasso do futebol brasileiro. Vida que segue. As cinco estrelas bordadas na camisa continuam sagradas. Pertencem ao povo brasileiro, não aos dirigentes da CBF, aos patrocinadores ou aos departamentos de marketing.
Já as onze pernas de pau, essas pertencem à CBF. Quem veste a camisa da Seleção sem honrá-la não desrespeita apenas um uniforme. Profana a esperança de uma nação. E quem profana a esperança de um povo merece o peso da própria vergonha.
É tempo de protesto!
Amém!
O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 1031.