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porto velho, terça-feira 15 de setembro de 2026

BRASIL: Em todo ano de eleição, há um personagem que não sai das manchetes dos veículos de imprensa: as pesquisas eleitorais. Nas eleições de 2026, até o início de setembro, mais de 2.200 pesquisas já tinham sido registradas no sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) — e esse número deve subir. Em 2022, foram quase 3.000 pesquisas.
Mas poucos sabem como funcionam as pesquisas, quem está por trás delas e quais são as regras que envolvem sua realização. O R7 entrevistou João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), para esclarecer as principais dúvidas relacionadas às pesquisas de intenção de voto.
A pesquisa eleitoral está inserida no rol de pesquisas de opinião pública e parte de um pressuposto que norteia o seu funcionamento: tentar reproduzir em laboratório as condições do mundo real.
“Quando se faz uma pesquisa para saber como está o número de células vermelhas no seu sangue, não precisamos tirar todo o sangue e sair contando uma por uma. A gente vai lá, tira um pouquinho, que é uma amostra representativa do seu sangue”, explica João Meira.
A lógica é ter uma amostra, muito menor que o universo objeto do estudo, para poder tentar replicar o que acontece de forma geral. Para se ter ideia, as pesquisas presidenciais fazem algo em torno de 2.000 entrevistas, o que representa 0,0013% do eleitorado brasileiro.
Por isso, muita gente diz que nunca foi entrevistada. A probabilidade disso acontecer é baixíssima.
O primeiro desafio aparece justamente nessa etapa. Definir quem será entrevistado para compor a amostra é extremamente delicado, já que as empresas de pesquisa precisam chegar a um conjunto de entrevistados que representem a sociedade brasileira.
“Toda amostra tem a intenção de ser representativa daquilo que chamamos de universo. Quando eu faço uma amostra da população, entram os advogados, os garis, os militares, os religiosos, os desocupados, enfim. Entra toda a variedade social que você puder imaginar. Por isso que a amostra tem que cobrir o mínimo de uma certa diversidade”, afirma Meira.
Esse é o motivo pelo qual os entrevistadores precisam perguntar ao cidadão dados de profissão, escolaridade, renda, religião, entre outros aspectos como idade, gênero e local de votação. A pesquisa precisa confirmar de que forma aquela pessoa se encaixa no retrato da população brasileira.
“Se essa parte do universo for representativa do conjunto, ela pode ser generalizada para o conjunto. Por isso, a gente precisa de um estatístico para fazer uma amostra da população”, explica o diretor da Abep.
Depois de definir qual será a amostra, vem a segunda etapa essencial a uma pesquisa: montar o questionário que será aplicado. Essa já não é mais comandada por um estatístico, mas por um pesquisador qualificado.
O diretor da Abep pontua que as perguntas precisam ser formuladas de forma que sejam compreendidas pelos entrevistados, e o formulário não pode usar certas palavras ou colocar as perguntas em determinada ordem de forma que induza o respondente a uma determinada atitude ou resposta.
Para aplicar o questionário, a empresa precisa também definir se vai realizar a pesquisa presencialmente — seja de domicílio a domicílio ou em pontos de fluxo nas ruas —, por telefone ou pela internet.
A Justiça Eleitoral coloca uma série de regras para que institutos possam publicar seus levantamentos. A mais primordial e que o eleitor precisa estar atento é que toda pesquisa precisa estar registrada no sistema da Justiça Eleitoral. Quando ela é divulgada, deve ser acompanhada do código de registro neste modelo: BR-12345/2026.
No ato do registro, que deve acontecer cinco dias antes da divulgação, as empresas precisam protocolar quem contratou a pesquisa, quanto foi gasto para realizá-la e de onde vieram esses recursos. Além disso, devem detalhar aspectos técnicos, como a metodologia usada, o período em que foram feitas as entrevistas, o questionário aplicado e o estatístico responsável com registro no Conselho Regional de Estatística.
Dois elementos sempre acompanham o resultado das pesquisas de intenção de voto: margem de erro e grau de confiança. Apesar de parecerem coisas semelhantes, elas significam coisas distintas.
A margem de erro é a variação que um resultado pode ter. Ou seja, se a pesquisa apontou que um determinado candidato tem 10% das intenções de voto e a margem de erro é de dois pontos percentuais, esse candidato pode ter de 8% a 12%.
O grau de confiança, por sua vez, quer dizer qual é o nível de certeza naquele resultado. “Se eu fizer 100 vezes a mesma pesquisa, com a mesma amostra, com a mesma estrutura, com o mesmo questionário, em 95 vezes, o resultado vai estar dentro da minha margem de erro, entre 8% e 12%”, explica João Francisco Meira, simulando uma pesquisa de 95% de confiança.
Para os outros cinco resultados, não há certeza de onde ele estará. Eles até podem cair dentro da margem de erro, mas o instituto de pesquisa não pode cravar isso.
Para aumentar o intervalo de confiança e reduzir a margem de erro, só há uma forma: aumentar o tamanho da amostra. Mas João Meira explica que aumentar o tamanho da amostra, mantendo sua representatividade do universo, traz novos desafios aos institutos, o que faz com que não valha a pena fazer.
O registro da pesquisa no sistema da Justiça Eleitoral dá a oportunidade para o eleitor conferir todas as minúcias que envolvem esse processo tão complexo. Para João Meira, a informação mais relevante é saber quem está pagando o levantamento, “porque empresa de pesquisa não é entidade beneficente”.
“É importante ficar transparente quem é que está financiando aquele trabalho. Hoje em dia nós temos um grande problema. Em cerca de metade das pesquisas, as empresas dizem que fazem com os seus próprios recursos. R$ 20 milhões investidos em pesquisa com recurso próprio, para quê? É estranho. Então, tem que ir atrás do dinheiro para ter mais informação.”
Além do financiamento, o diretor da Abep aconselha ao eleitor que dê atenção a empresas que publicam os resultados completos, com cruzamentos por região, idade, sexo, escolaridade e renda, e que têm uma série de pesquisas publicadas, para poder acompanhar a evolução dos dados.